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Negócio de telecomunicações militares na sombra da Bolsa portuguesa

27-01-2017 - Cristina Ferreira

Cristina Ferreira (Texto) e Mariana Soares (Ilustração) Publicado pelo JORNAL PÚBLICO em 2 de Janeiro de 2017

A venda sigilosa a Angola de um sistema de comunicações encriptado foi financiada pelo BES, no que se pode tornar no último acto público conhecido de Ricardo Salgado. E revelado pelo P2 na semana em que o banqueiro é suspeito de corromper José Sócrates, que em Luanda validou o negócio de 113 milhões

Quando em causa estão negócios militares em Estados emergentes, existe grande secretismo e um elevado grau de informalidade — os entendimentos são verbais, os suportes escritos escasseiam. E, se se movimentam muitos milhões, a par da competitividade forjam-se solidariedades e, talvez por isso, raramente se declaram as hostilidades. Já as traições não são toleradas. E, se há uma zanga marginal, ela ganha proporções atómicas.

Foi o que aconteceu nesta história, na qual o P2 vai revelar a venda de um sistema encriptado de telecomunicações de dados de voz, de origem portuguesa, aos serviços secretos angolanos (Serviço de Inteligência e Segurança do Estado-SISE). Uma operação pontuada por incidentes que lembram os tempos da Guerra Fria e estimada globalmente em 113 milhões de euros, dos quais 60 milhões já foram pagos— a transacção, financiada pelo ex-Banco Espírito Santo, ainda se encontra em curso.

No centro está a sociedade All2it, detida pela Reditus, uma grande tecnológica cotada no PSI20, na qual o Millennium bcp possui 18%, e presidida por Miguel Pais do Amaral, o principal accionista, com 25,6%. Pais do Amaral, conde de Alferrarede, é também dono da editora Leya e está à frente da gestão não executiva da Media Capital, proprietária da TVI. 

Esta é uma história da qual não se saem bem as relações europeias e africanas e na qual um erro pode desencadear uma guerra feroz. E que Pais do Amaral resume deste modo: “uma loucura total” e “uma grande infelicidade.” Pais do Amaral é ainda o homem que um inspector do Estado angolano considera a imagem “do oficial e cavalheiro”, de “educação esmerada”. O inspector em questão é o ex-comando português Ângelo Gonçalves, também ele protagonista nos eventos.

Telefonema de um desconhecido

A história arranca em 2003, com empresas geridas pelos dirigentes do PSD Ângelo Correia e Pedro Passos Coelho, vendidas a meio do trajecto, em 2007, à Reditus, também cheia de gente conhecida. Não é só Pais do Amaral que lá está, é o advogado Fernando Fonseca Santos, accionista (5,3%) e mandatário nacional oficial de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência da República; é o advogado Diogo Lacerda Machado, homem de confiança e a arma secreta do primeiro-ministro, António Costa; e José Lemos, o ex-presidente da Bolsa de Valores de Lisboa e ex-deputado do PS, agora à frente da consultora ClearWater.

Esta história, que se revelará embaraçosa para todos os intervenientes, uniu Lisboa, Luanda, Maputo e Brasília. E juntou condes e gestores, pesqueiros e marisqueiros. E também generais e almirantes. E “espiões”, comissionistas e ex-governantes. E pistolas em cima da mesa, em sentido literal do termo.

O que aqui está em causa é uma certa forma de fazer negócios: com investidores que montam as suas empresas com elevados custos sempre à espera das receitas que estão para vir. E será também a história de empresários que ignoram os perigos da proximidade de certos grupos que defendem interesses obscuros — o que explica os episódios que se desencadeiam a par da transacção, com nomes que coincidem.

Um deles é António Maria de Mello Menezes, conde de Sabugosa e embaixador da Ordem de Malta em Angola, e, até 2014, vice-presidente da Reditus, da qual foi afastado. O gestor, que foi um dos pivôs da venda do sistema de comunicações encriptadas ao Exército angolano, está hoje no epicentro do fogo cruzado entre os comissionistas daquele negócio e os seus promotores, que o acusam de falhar os pagamentos combinados. Mello é presença assídua em eventos da alta sociedade portuguesa e entrou neste negócio a convite de Paolo Bennati, um italiano armador de pesca de marisco em Moçambique e na Tanzânia, onde reside, que também o acusa de traição. Em 2016, o Tribunal da Comarca de Lisboa condenou o conde a pagar-lhe 2,866 milhões de euros e este recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça.

Depois de um período de silêncio, directamente ou através de círculos próximos, os vários intervenientes aceitaram prestar esclarecimentos. António Mello começou por se mostrar disponível, mas foi adiando sucessivamente os encontros — o que não impediu o P2 de fazer contactos na sua esfera.

 

O ponto de partida para esta investigação foi um telefonema de um desconhecido, seguido de uma conversa num bar de hotel, num domingo à tarde. O tema ficou então registado numa nota de rodapé de um caderno de apontamentos e é um dos casos em que pensamos duas vezes antes de iniciar uma investigação. Mas, quando se acede a depoimentos credíveis escritos e orais ou a gravações confidenciais, deixa de haver caminho de recuo. E há testemunhos e factos, entretanto provados em tribunal, que nos contam o que se passou.

Para enquadrar o contexto em termos geopolíticos, o P2 recorreu às análises do embaixador António Monteiro e do gestor Luís Todo Bom, com experiência alargada da realidade africana, mas sem qualquer ligação aos eventos que se vão narrar.

António Monteiro está hoje à frente da administração não executiva do BCP, detido em 16% pela petrolífera Sonangol, mas chefiou, em 1991, a missão portuguesa que acompanhou a primeira tentativa de promover a paz em Angola. Já Todo Bom é docente universitário e preside à Angopartners. Nasceram ambos em Angola, origem que assumem.

Brasília de olhos em Angola

No final da guerra civil, Angola é um país em ruínas, sem dinheiro, sem acesso a crédito, com as principais vias de comunicação destruídas. “Era muito difícil descobrir algo que valesse a pena comprar. Pura e simplesmente não havia. E as pessoas viviam assustadas, fechadas em casa, com recolheres obrigatórios, tiroteios, angustiadas com o dia seguinte. Não sabiam se ia haver ataques ou tensões sociais”, evoca António Monteiro. “Foram décadas em que as pessoas não tinham praticamente nada. E, de repente, abriu-se um mundo ao consumo, que para muitos angolanos se vai traduzir numa vida melhor.”

A 4 de Abril de 2002, MPLA e UNITA assinam o Memorando de Entendimento de Luena e o quadro altera-se substancialmente, pois já é possível circular em todo o território. Com um senão: as estradas, os caminhos-de-ferro e os aeroportos estão destruídos. O Presidente, José Eduardo dos Santos, pode agora afectar à construção de infra-estruturas as receitas da exploração dos recursos energéticos, até aí concentradas no esforço militar.

Luís Todo Bom destaca outros desafios. Um deles é “organizar o Estado embrionário, unificar o território e unir a população”. E há mais. Com a paz “há que integrar as tropas derrotadas, o que não se verificou no Sudão e em Moçambique, com as repercussões conhecidas”.

Ao assumir-se como potência regional de uma área instável, a África Austral, Angola necessita de um exército apetrechado para intervir em zonas limites e actuar no âmbito da Organização da Unidade Africana”

Luís Todo Bom, gestor

Redimensionar e modernizar as Forças Armadas são também prioridades. “Ao assumir-se como potência regional de uma área instável, a África Austral, Angola necessita de um exército apetrechado para intervir em zonas limites e actuar no âmbito da Organização da Unidade Africana”, sublinha Todo Bom. É assim que após 27 anos de conflito armado se começa a desenrolar uma história no maior dos sigilos.

No último trimestre de 2002, ainda se festeja a paz, e já o Serviço de Inteligência e Segurança do Estado-SISE promove a aquisição de um sistema exclusivo de comunicações para equipar a rede de quartéis das Forças Armadas angolanas.

Em Brasília, há quem tome boa nota deste plano ambicioso, que vai exigir um investimento de muitos milhões. Ângelo Gonçalves, que pertenceu à guarda pessoal de José Eduardo dos Santos, e, à data dos factos, opera na esfera da embaixada angolana no Brasil, começa a desenvolver contactos junto de empresas locais com experiência no sector da vigilância. E que possam garantir o financiamento do BNDES — o banco estatal brasileiro viria a ser apanhado nos casos “mensalão’”e Lava-Jato. 

Ângelo Gonçalves apresenta-se ao P2 com três origens — angolana, portuguesa e brasileira — e não é uma figura comum. Pertence ao grupo de 40 comandos portugueses, alguns nascidos em Angola, que após a independência, a 11 de Agosto de 1975, se foi oferecer ao MPLA para executar operações especiais. Seguiu-se a carreira de inspector “espião”. Não é também um “espião” qualquer: fala sempre muito, e muito depressa. E o vocabulário é inventivo.

Aceder a informação confidencial pode revelar-se uma arma poderosa — isto é, quando nada transpira para fora. O inspector Gonçalves observa que em Luanda “corre mais depressa um muxinque [fofoca] do que um telefonema ou um fax”. E as suas movimentações depressa se tornam um segredo de Polichinelo.

O primeiro a ouvi-lo foi Paolo Bennati, da boca de um militar angolano a colaborar com o Exército moçambicano e que, em Maputo, deixa escapar a “indiscrição”: em Luanda ultima-se um negócio milionário de fornecimento de equipamento de telecomunicações protegidas.

Em África, Bennati explora uma frota de barcos de pesca, tem hotéis e outros interesses. “[É] um salteador da arca perdida com gosto em procurar negócios, em vasculhar uma agulha no palheiro. É o que o mantém activo”, como nos conta o seu amigo português, David Fernandes, industrial de pescado fresco, sediado no Algarve.

A cena que se segue ajuda a compreender, entre outras coisas, o quadro em que começou, nos anos 90, uma longa amizade, que David Fernandes hoje recorda: “Um dia o dr.º Chaves de Almeida [ex-director, em Lisboa, da Organização Internacional de Polícia Criminal-Interpol], meu colega de faculdade, ligou-me a dizer que o Paolo era amigo pessoal do director-geral da Interpol, um lorde inglês, e que lhe fora apresentado num congresso da Interpol. E andava à procura de alguém sério para ser o seu distribuidor em Portugal. Declinei, pois trabalho com peixe fresco.”

Paolo Bennati reconhece que participou em iniciativas pontuais da polícia internacional, mas nunca pertenceu à Interpol. 

O armador divide a sua residência entre Dar es Salaam, a capital da Tanzânia, e Trento, no Norte de Itália. É nesta última morada que se encontra no final de 2002 e onde começa a ponderar levar uma proposta às Forças Armadas angolanas — o que justifica um telefonema para o amigo Fernandes: “Conheces um engenheiro de telecomunicações?”

Conheço um italiano que tem em perspectiva a venda de equipamento de telecomunicações às FA de Angola e quero saber se estás interessado. E o António [Mello] reagiu: ‘Interessadíssimo. É a minha área, é o que sei fazer.’”

David Fernandes, industrial

Nas férias e fins-de-semana, Fernandes priva com o conde de Sabugosa, que ao serviço da PT/Marconi montara as primeiras torres de telecomunicações em Angola. É, pois, o nome de António Mello que de imediato lhe vem à cabeça. Fernandes revive a conversa que os dois tiveram: “Conheço um italiano que tem em perspectiva a venda de equipamento de telecomunicações às FA de Angola e quero saber se estás interessado. E o António reagiu: ‘Interessadíssimo. É a minha área, é o que sei fazer.’”

Avisado, Benatti prontifica-se a partir de imediato para Portugal. Como David Fernandes tem viagem marcada para Barcelona, o encontro entre os três dar-se-ia no aeroporto de El-Prat, onde chegam com 30 minutos de diferença. Fernandes e Mello partem de Lisboa, Bennati de Roma. 

O italiano, familiarizado com a maneira de ser dos africanos, antevê riscos subjacentes ao negócio. E durante a conversa deixa claro: “Não posso dizer que vá dar certo, mas acho que há condições. Temos de ir ao Brasil e a Luanda, pagar hotéis, refeições, comissões.” E outros extras.

Assim que se desvia para fazer um telefonema, Mello questiona Fernandes: “Qual é o grau de confiança que tens no Bennati e qual o nível de informação que ele tem do negócio?” O amigo responde: “É grande.”

As dúvidas são recíprocas. E, quando Mello se afasta, Fernandes é novamente interpelado, agora por Bennati: “Quem garante a idoneidade do Mello?” O pesqueiro é categórico: “Sou eu. O António é uma pessoa séria, confio nele a 100%, não só pela relação de amizade, também pelos princípios em que foi educado, os mesmos que eu. E talvez mais até, pois tem uma linhagem nobiliárquica, é conde de Sabugosa, que faz questão de afirmar. É um empreendedor.”

Não posso dizer que vá dar certo, mas acho que há condições. Temos de ir ao Brasil e a Luanda, pagar hotéis, refeições, comissões.”

Paolo Bennati referindo-se ao negócio com Mello

E, assim, antes de regressarem — Bennati a Itália, Mello a Lisboa — os dois fecharam um acordo verbal paritário, a ajustar às circunstâncias.

António Mello está à frente de uma pequena tecnológica, a All2it. E, perante a hipótese de se envolver numa megaoperação, equaciona uma coligação com a Tecnidata, da Fomentinvest, a holding chefiada por Ângelo Correia e que tem como accionistas cinco bancos — BES, BCP, CGD, Banif e Banco Africano de Investimento — e o grupo IP-Ilídio Pinho. Na administração da Fomentinvest está Pedro Passos Coelho. 

O cartão-de-visita que se chama Ângelo Correia

2003

Em Março de 2003, António Mello, então com 44 anos, encaminha-se para a Fomentinvest. Espera-o o social-democrata Ângelo Correia, com livre-trânsito em Luanda. Isto porque, na qualidade de ministro do Interior, apostara no MPLA como o vencedor.

“O Mello pediu-me para lhe abrir portas em Luanda e o ajudar a expor as linhas gerais do projecto que a All2it queria vender às Forças Armadas”, confirma ao P2 Ângelo Correia. “Já me esqueci de muita coisa”, acrescenta.

A chegada ao negócio do ex-ministro do Interior é relatada por Bennati, numa conversa que tem com David Fernandes: “Conseguimos uma pessoa importante. O Ângelo Correia conhece bem o Mello.” E o amigo descreve como reagiu: “Olha, Paolo, uma coisa te digo: é das pessoas mais prestigiadas e, sendo do PSD, com a maior abertura com todos os partidos. Para o eng.º Ângelo Correia aparecer, deve ter um relatório e démarches feitas que te vão dar segurança.”

O Mello pediu-me para lhe abrir portas em Luanda e o ajudar a expor as linhas gerais do projecto que a All2it queria vender às Forças Armadas. Já me esqueci de muita coisa

Ângelo Correia

É neste momento que entra na história outra figura, Serafim Afonso, o delator de João Caldeira, o ex-contabilista da Expo98 apanhado a desviar 2,5 milhões de euros do cofre da sociedade pública para investir numa empresa de barcos de pesca na Tanzânia, a Dica, de que era, aliás, sócio. 

Na altura, Serafim Afonso trabalhava em África no sector da pesca do camarão. 

Se Serafim trata Ângelo Correia por “padrinho”, o ex-comando Ângelo Gonçalves tem pelo dirigente do PSD “grande consideração”: “Quando era ministro do Interior, eu e o Serafim desenvolvemos trabalhos relevantes para ele e que ajudaram às relações de Portugal e de Angola.” Ao P2 Ângelo Correia, então com 58 anos, admite conhecer melhor Serafim do que Ângelo Gonçalves. E, na qualidade de ex-governante, regista na memória os dois “ligados à Intendência Geral dos Abastecimentos Alimentares”, agora ASAE.

Empenhando-se pessoalmente, o ex-ministro mostra que o assunto é sério. E todos querem prosseguir para chegar com sucesso ao negócio de “implementação de soluções de centro de dados de uma plataforma de software”. Receando que uma empresa brasileira se preparava para fechar o acordo com Luanda, o pesqueiro Serafim Afonso, o industrial de marisco Paolo Bennati e o conde de Sabugosa, António Mello, embarcam para Brasília.

É nesta viagem que surge um primeiro momento de tensão entre Bennati e Mello. O italiano narra: “[Mello] arranjou dois bilhetes em executiva, para ele e para mim, e meteu o Serafim em turística. Considerei isso um desrespeito e disse-lhe: ‘Se o Serafim vai connosco, vai em executiva.’”

Em Brasília, o inspector Ângelo Gonçalves faz diligências: “Tinha boas credenciais do Serafim e o Ângelo Correia confirmara a idoneidade do Mello, mas nunca ouvira falar do Bennati.” Mas veio a saber “que era amigo do ex-vice presidente mundial da Interpol Romeo Tuma, um senador respeitável, que [Gonçalves] também conhecia”. Tuma foi acusado de ter prestado ajuda na ocultação de cadáveres de militantes políticos assassinados durante os tempos da ditadura brasileira.

Ao aterrarem no Aeroporto Juscelino Kubitschek, Serafim, Bennati e Mello têm à sua espera Gonçalves: “A proposta que traziam fazia sentido e sondei Luanda: Portugal ou o Brasil?” Em Lisboa está o ex-ministro do Interior a credibilizar a transacção, e, quando propõem levar Ângelo Correia a Angola, o inspector Gonçalves entusiasma-se: “Ângelo Correia é carismático, conhece o métier e, para mim, era óbvio que ia ajudar a obstruir a empresa brasileira.”

A proposta que traziam fazia sentido e sondei Luanda: Portugal ou o Brasil?”

Ângelo Gonçalves

Em Angola, a conexão entre política, militares e economia é crua e directa. E os oficiais reservistas, saídos do Exército regular, estão agora em todo o lado.

O embaixador António Monteiro evidencia que “o Sudão do Sul fez uma independência saudada por todos, mas hoje está na situação em que está porque se esqueceram de que havia dois exércitos diferentes, e, sem enquadrar o lado perdedor, ou dar-lhe uma ocupação, caiu no vazio”.

Por sua vez, Luís Todo Bom explica: “As elites angolanas ou estavam na área militar ou na esfera política do MPLA, e é natural que se tenha procurado construir a partir delas uma classe empresarial nacional, associando-os aos grandes projectos públicos.” 

Passado um tempo, em Luanda, onde vive parte do ano e tem negócios, Ângelo Gonçalves “providencia” apoios ao mais alto nível para avançar com o fornecimento ao Estado-Maior do Exército de uma rede segura de infra-estruturas de comunicação e transmissão de dados de voz.

As elites angolanas ou estavam na área militar ou na esfera política do MPLA, e é natural que se tenha procurado construir a partir delas uma classe empresarial nacional, associando-os aos grandes projectos públicos.”

Luis Todo Bom, Gestor

A 1 de Julho de 2003, Ângelo Correia, António Mello, Serafim Afonso e Ângelo Gonçalves são esperados, na Rua Ho Chi Minh, no Bairro Alvalade, por Fraga da Costa, empresário da área da desminagem, e pelo coronel Arsénio Manuel. Nem todos se conhecem.

“Mas o Ângelo Correia é eloquente e o ambiente depressa se descontrai, enquanto se contam episódios de outros tempos”, opina Ângelo Gonçalves, que faz as apresentações e se retira, deixando Serafim Afonso a representá-lo.

Juntos vão subscrever o memorando de entendimento que vai sustentar o negócio de 113 milhões a executar em três fases, uma delas ainda em curso.

Por deferência, convidam Ângelo Correia a encabeçar a lista com os nomes que assinam o protocolo, facto que o ex-ministro admite poder ter ocorrido. Seguem-se as rubricas de António Mello, de Serafim Afonso e de Ângelo Gonçalves. E as dos angolanos Arsénio Manuel e Fraga da Costa, que o certificam a título pessoal e em representação do ex-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Agostinho Nelumba, do embaixador e almirante Feliciano dos Santos, do general Pena da Silva, do ex-vice-ministro das Finanças Arlindo Praia Sikato, do comandante da Polícia Geral Ambrósio Freire dos Santos, do inspector-geral do Estado Joaquim Mande. 

No entender de Gonçalves, os signatários do documento “são gente de grande calibre que dava a garantia da lisura do processo”. Mas todos estão ali para colocar por escrito o direito a reclamarem uma parcela dos lucros, na qualidade de comissionistas e de garantes das autorizações necessárias — o que se compreende, porque em certos meios cobrar percentagens em negócios faz parte do dia-a-dia, de manhã à noite.

O texto do acordo é curto: a All2it SA ou outra entidade por ela indicada assumirá entre 70% e 80% da firma Dinovang Holding, a constituir. Este é o veículo que irá juntar os vários interesses, das empresas (All2it/Tecnidata) e dos comissionistas.

E os detalhes estão mesmo nos anexos. Os três angolanos — Fraga, Serafim e Gonçalves - querem “receber 4% do bolo total”, mas “de forma legal”. Os portugueses, os generais e os almirantes tinham “uma combinação à parte”, afiança Gonçalves.

A partir dali o ex-inspector refere que “a máquina empresarial começou a trabalhar ao mais alto nível”. E Ângelo Correia e António Mello, em nome da All2it, são vistos a entrar no Estado-Maior General das Forças Armadas em Luanda, onde vão apresentar soluções de telecomunicações informáticas. De volta à capital portuguesa, mostram-se confiantes. 

Entre 70% e 80% da firma Dinovang Holding seriam assumidos pela sociedade All2it SA

A par e passo, Mello e Bennati reafirmam a aposta em partilhar os lucros do negócio militar que, na óptica do italiano, consagra a sua entrada na All2it. E até passam a escrito um protocolo em termos que não são claros, especialmente quanto àagrave; titularidade do parceiro do armador de marisco: se é a All2it ou o seu presidente a título particular. 

“Sempre que falava sobre concretizar o acordo, o Mello mudava de assunto e dizia que tinha um sócio a dificultar a minha entrada na All2it, mas não dizia quem era”, explica Bennati, que só mais tarde soube que o tal “sócio” era a Fomentinvest. Por seu turno, Ângelo Correia garante que Mello nunca mencionou haver um italiano no negócio, cuja presença apenas chegará ao seu conhecimento anos depois.

Até lá, o ex-ministro é visto a viajar entre Lisboa e Luanda, onde retorna a 5 de Agosto de 2003. Nesse dia, o Jornal de Angola fotografa-o ao lado de António de Mello: “Um grupo de empresários portugueses chefiado pelo ex-ministro do Interior está em Luanda.” E reproduz declarações de Ângelo Correia: “Viemos cá com a missão de observação e de análise, e temos um projecto imobiliário [que não é detalhado] que, não sendo directamwente a nossa vocação, tem coisas úteis.” Intenção que Mello corrobora veementemente. Diz até que Angola está em “boas condições” para se tornar “um país desenvolvido”. 

Governo de Angola cria central de compras

2004 

A data de 5 de Dezembro de 2004 é um momento importante para esta história. É quando, em Luanda, o Conselho de Ministros anuncia a criação da central de compras das Forças Armadas, que designa Simportex e que vai estar no centro da operação luso-angolana - o veículo que, tempos depois, a oposição a José Eduardo dos Santos vai declarar como o pólo de atracção de interesses privados e políticos que corrói por dentro o país.

2005

Enquanto em Luanda se fecha a operação, em Lisboa, a 14 de Julho de 2005, assiste-se à materialização da parceria entre a Tecnidata e a All2it, que se fundem — a nova empresa vale 38,3 milhões. Entre os accionistas estão a Fomentinvest e a All2it, cada uma com 24,5%.

A Dinovang fica sob o controlo da All2it/Tecnidata, em cuja gestão Passos Coelho se mantém até 2007, se bem que uma fonte da empresa clarifique: “O Pedro tem a característica de ser administrador e de andar a leste de tudo. É um dom.”

O ex-primeiro-ministro confirma ao P2 que foi “administrador não executivo da All2it e da Tecnidata, em representação da Fomentinvest”, razão pela qual “nunca” interveio “directamente em nenhuma das operações comerciais”, nem “recebeu” ou “encaixou” prémios “ou quaisquer valores referentes a negócios realizados”.

Acontece que o BES se estava a tornar um núcleo de influência a muitos níveis. E todos querem ser amigos do muito poderoso Ricardo Salgado. E a partir daqui António Mello, no quadro da sua actividade, aparece várias vezes no BES para se financiar.

Estávamos a três anos de a crise rebentar e de a situação ficar fora de controlo. Para muitos investidores, é a partir desta época de acesso ao crédito fácil e de pouca exigência que a bola de neve começou a rolar. 

Por esta altura, David Fernandes foi jantar a casa de Mello, onde se encontrava Bennati, e lembra-se de ouvir o anfitrião comentar que estava “pouco crédulo” com o desenlace do contrato militar, “mas o Paolo, por oposição, via uma luz ao fundo do túnel”. É, de facto, o espírito optimista que leva o italiano a continuar a responder às chamadas do português para pagar viagens e hotéis, charutos e outros extras. Para um técnico da tecnológica, “o dossier [dotar a rede angolana de quartéis de um sistema de comunicação protegido] era complexo, exigiu muitas reuniões, destacamento de quadros, tratamento de dados confidenciais. Não foi fácil”. Era todo um país por mapear.

No final de 2005, o PIB angolano dispara para quase 20%, o que se revelará uma armadilha. Ao depender do petróleo como única fonte de receitas, a economia não se diversifica, o que leva Luís Todo Bom a observar: “Qual é o processo normal de desenvolvimento de um país? Criam-se infra-estruturas, depois uma comunidade empresarial, porque é esta que gera riqueza, que depois deve ser distribuída. Angola tem um problema de criação de riqueza, porque não produz nada.”

José Sócrates credibiliza negócio militar

2006

Finalmente, a 10 de Março de 2006, é assinada a primeira fase do contrato de “Compra e Venda de Equipamento e Serviços de Comunicação de Voz e Dados” do comando das Forças Armadas.

A cerimónia é precedida de uma hesitação quanto à titularidade do vendedor: é a All2it, a fornecedora, ou a Dinovang, a promotora? Dúvidas que mostram o grau de ambiguidade da negociação, que se resolvem a favor da All2it.

A Simportex liberta uma primeira tranche, de apenas 6 milhões, para equipar os 12 quartéis de Luanda. Mas o investimento total previsto será de 113 milhões, a pagar à medida que o trabalho seja efectuado e com o BES a financiar as Forças Armadas angolanas.

Estão previstas mais duas fases: uma de 44 milhões, outra de 63 milhões. E é esta última que falta executar.

Em países com uma cultura de negócios informal, como Angola, um acordo não pode falhar. 

Seguindo o memorando de 1 de Julho de 2003, os três comissionistas — Ângelo Gonçalves, Serafim Afonso e Fraga da Costa — reclamam 180 mil euros, cerca de 4% da primeira factura de 6 milhões. Enquanto presidente da All2it, Mello não leva a sério os interlocutores e hesita em adiantar a totalidade do valor.

Ainda que o nome do italiano não conste dos documentos da transacção de comunicações militares, pois continua fora do capital da All2it, os comissionistas vêem-no como sócio de António Mello. E pedem-lhe que intervenha a seu favor, o que o italiano vai fazer: “António, para tudo correr bem, tens de cumprir o acordo com o Ângelo [Gonçalves], o Serafim e o Fraga.” E assim acontece.

Assim que recebi na minha conta os 60 mil dólares [a sua parte dos 180 mil], solicitei a Mello que enviasse comprovativo para o Banco do Brasil de que a verba tinha partido da All2it. Quis tudo documentado, pois o fisco passou a ser minha testemunha.”

Ângelo Gonçalves

De todos os que ali estão, o que mais traquejo parece ter é o ex-inspector Ângelo Gonçalves. É quem conta: “Assim que recebi na minha conta os 60 mil dólares [a sua parte dos 180 mil], solicitei a Mello que enviasse comprovativo para o Banco do Brasil de que a verba tinha partido da All2it.” Enfatiza: “Quis tudo documentado, pois o fisco passou a ser minha testemunha.” 

A 8 de Abril de 2006, Ricardo Salgado é um dos banqueiros que partem com o então primeiro-ministro José Sócrates em visita oficial a Angola, um país que cresce a 16% ao ano. E surge a credibilizar o negócio entre a All2it/Tecnidata e o Exército.

O Jornal de Angola dá conta que, por decisão de Sócrates, “a Dinovang, empresa de direito angolano, controlada pela Tecnidata”, vai ser “a primeira beneficiária” de uma linha de crédito aberta pela Companhia de Seguro de Créditos (Cosec). Clarifica que a Dinovang ganhou o concurso para instalar uma rede de telecomunicações (voz e dados) para as Forças Armadas angolanas. 

Nesta fase, não era só Bennati que reclamava de Mello pagamentos em atraso. É que, às vezes, quem ao princípio dá a mão acaba esquecido. Em Lisboa, o ex-ministro Ângelo Correia desabafa: “Fomos úteis para ajudar a abrir portas, fazer apresentações, dar prestígio, um ar sério e honesto.” Mas isto foi até 2006. “[A partir de 2007] o Mello nunca mais disse nada e soube que andava a fazer negócios em Angola na área da construção”, nota o ex-ministro. A porta estava já a entreabrir-se para a entrada de Miguel Pais do Amaral.

Italiano cria dossier contra conde

2007

A 2 de Fevereiro de 2007, a Simportex e a All2it concretizam a segunda fase do contrato de telecomunicações militares, que se alargará à rede de quartéis de todo o país.

Aos 44 milhões prometidos à All2it/Tecnidata deverá somar-se uma renda anual à volta de um milhão de euros por serviços de manutenção do equipamento. 

A parceria com Mello está a deixar de funcionar. E os comissionistas não recebem nada, o que vai dar origem a um grande problema para o português. Até mais do que isso. É que o italiano Bennati exige agora partilha de lucros de 14 milhões, mas a All2it mostra-se disposta a desembolsar somente 200 mil euros. 

Estou em rota de colisão com o teu amigo [António Mello], pois temos um contrato de 50/50 que ele não reconhece."

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