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O Ser e o Não Ser –
O que eu afirmo é que É!

18-07-2014 - Eurico Henriques

Pode parecer paradoxal o que atribuo como título a este simples articulado. Acontece no entanto que ele surge por uma questão concreta. É que estou a recolher elementos sobre a existência de uma fábrica (produção) de pirolitos e gasosas em Almeirim. Explico-me melhor: recebemos aqui na Câmara um pedido de informação sobre a laboração local de uma indústria do género.

Como é normal a quem tem formação académica e científica no ramo do estudo e investigação das coisas da história e da sociedade, meti-me ao caminho. Houve sim senhor. Esta informação começou a partir de algumas perguntas que resolvi fazer a gente conhecedora do caso. Comecei por saber que existiu uma fábrica na zona do antigo Largo da Feira. Hoje Campo da feira e já foi, em tempos, a Feira Nova.

Avancemos. Na recolha de informações orais estive com o Sr. Eng.º António Francisco, da Empresa Canelas. A fábrica existiu, foi criada por um familiar vindo de Évora, Mira Cerveira, depois empregou um jovem vindo do Zebral, de Vieira do Minho, o Sr. Júlio Fernandes Canela. Este casou com a filha dos proprietários e, posteriormente, tornou-se também proprietário da empresa familiar. Como tivesse falecido muito jovem, cerca de 48 anos, o filho João de Mira Canela, ficou com a dita empresa.

Nesse tempo e anteriores, estas empresas eram de nível familiar, o que quer dizer pequenas empresas locais. Nos anos de 1961/62 resolvem fazer uma associação com todas as pequenas empresas produtoras de refrigerantes desta área do Ribatejo: Santarém, Almeirim, Ourém, Alpiarça, Chamusca, Tomar, Vila Franca, Caldas da Rainha e Alcobaça. Esta associação de pequenos e médios produtores vai então dar origem à criação da RICAL, em Santarém.

A empresa com a maior quota da sociedade será a da família Canela de Almeirim.

Neste enquadramento foi possível começar com um levantamento mais especializado de informações. Assim foi possível recolher dados nas Atas da Câmara de Almeirim. No dia 25 de maio de 1934 o Sr. Júlio Fernandes Canela solicita à Comissão Administrativa – como era designado o executivo municipal – que tenha em conta e seja incluída, no Regulamento do descanso semanal, a indústria de refrigerantes no mapa que permitia a laboração contínua, em todas as épocas do ano.

Já anteriormente tinha recolhido a informação – em documentos que recuperei de uma casa comercial extinta – que se enviavam caixas de Pirolitos de Almeirim para venda em Minde. Isto em julho e setembro de 1899.

Mais recentemente recolhi informação no jornal Correio da Estremadura – hoje Correio do Ribatejo – número de natal de 1938, onde se encontrava um anúncio de “Cerveira e Canela” indústria de refrigerantes de Almeirim. Posteriormente, no ano de 1951, no jornal dos Bombeiros – Notícias de Almeirim – há igualmente o mesmo anúncio. Já na revista editada por José A. Vermelho em 1967, “O Vale do Tejo”, surge o anúncio da Rical, mas com a indicação dos Canela como distribuidores para esta região.

Ora acontece que no jornal a Hora, publicação de 1935 sobre Almeirim e no Boletim da Junta Distrital de 1938, em todas as referências sobre as produções e atividades económicas do concelho, não há qualquer referência a esta atividade industrial. Não encontro, igualmente, outras referências municipais sobre a atividade.

Embora considere que há mais trabalho de pesquisa a desenvolver, surge-me uma primeira conclusão, que poderá servir de Hipótese: não interessava aos detentores do poder autárquico e local – os lavradores e proprietários – fazer a apologia e divulgação de uma indústria que concorria com as suas atividades. É que a indústria tinha um horário certo de laboração. Possuía instalações e permitia uma segurança e conforto mais eficazes do que o trabalho dos campos. Oferecia melhores salários.

Assim há que passar por cima da sua existência. Não se fala dela. Não se faz barulho para não acordar os bichinhos.

Precisamos todos de ter em conta que as realidades anteriores, o modo de vida e a sujeição das gentes, não foram o que se apregoa. Nunca existiu um modo edílico de vida.

Eurico Henriques- Lic.º em História e Comunicação – Mestre em Comunicação Educacional.

 

 

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