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Os “apalpadores”. Uma crónica sexual!

29-11-2019 - Francisco Pereira

Volta e meia lá tenho de ir às compras, dito assim parece que sou um daqueles tipos hiper organizados, quando bem na verdade sou como todos, vou lá várias vezes por semana, porque falta e ou me esqueço sempre de qualquer coisa, no passado sábado lá fui então, armado da mais seráfica das paciências, porque ir às compras a um hipermercado já é uma experiência dolorosa, nestes tempos de “pré-Natal” começa a ser um drama, pois por estas alturas as pessoas parecem ficar possuídas, não por um benevolente e cordato espírito natalício, mas antes, por um espírito demoníaco de estupidez e imbecilidade, que os transforma em ogres ainda mais labregos, mal educados e patéticos que o normal do dia a dia do resto do ano.

Empurrando o carrinho, que aparco cuidadosamente num local que não cause embaraço a quem passa, cuidado que ajuda imenso à circulação e demonstra algum respeito pelos outros, palavra que a maioria dos ogres frequentadores daquele tipo de espaços não faz a mais pálida ideia do que seja, peguei num daqueles infernais sacos de plástico, e lá fui, tirei a lista do bolso, cuidadosamente escrita na letrinha bonita e redondinha da esposa que fui consultando para não falhar nada, umas bananas, depois umas peras, umas maças para lanchar a meio da manhã, uma alface, mais uma couvita, uns tomates...

Enquanto eu andava nestas deambulações ali junto aos expositores das frutas, legumes e tubérculos, do outro lado da bancada, uma criatura, não saía do mesmo sítio onde estava especado, de onde eu estava não conseguia o que o sujeito estava a fazer, apenas que remexia em algo, demorei uns bons 10 ou 15 minutos talvez a tratar da lista da fruta e dos verdes, e o homem continuava ali pegado naquela ponta da bancada.

Abastecido de frutas e legumes, roído até ao tutano pela curiosidade, peguei no carrinho e dei a volta para tentar perceber o que é que aquela criatura estava a fazer ali há tanto tempo, dado que já ali estava quando eu cheguei, calmamente fui andando, disfarçando, passando mesmo ao seu lado.

Assim que passei por ele percebi aquela tão longa demora, a criatura, munida de um saco, estava a escolher castanhas. Escolhia uma a uma, pelas maiores claro está, nada de pegar no utensílio que lá se encontra ao dispor para enchermos os sacos, nada disso, essa criatura, dotada de um superior espírito de sacrifício inaudito, predispôs-se a escolher uma por uma as castanhas presentes naquele monte, certificando-se que só iria, pesar, pagar e mais tarde rilhar no conforto do seu lar as melhores castanhas que o seu dinheiro pode comprar, os outros, a outra corja, a outra ralé pateta que fique com a castanha bichenta, enfezada ou bolorenta, que ele trata de assegurar que só trinca o melhor, louve-se a paciência, ainda há gente que é dona do seu tempo e o tem para desperdiçar em mesquinhices.

Mal comparado este cavalheiro enquadra-se numa classe de frequentadores de hipermercados que são os “apalpadores”, não temam as senhoras, nem as acesas feministas afiem os facalhões castradores para se lançarem numa cruzada contra os “apalpadores” dos hipermercados, porque estes de que falo não apalpam mulheres, nem homens o que sei, o prazer erótico, que este tipo de “apalpadores” que descrevo, têm advém do apalpar de frutas.

Os “apalpadores” são tanto homens como mulheres, por norma podemos observa-los junto aos expositores da fruta, ferrando a unhaca suja, nas frutas, apalpando um por um os pêssegos carecas ou as uvas sem grainha, rebolando nos dedos e acariciando com desvelo a banana ou o morango, vendo-se nos seus esgares o prazer sexual que retiram de tal actividade, acredito que devam ter sonhos húmidos com montes de peras, de kiwis ou de ameixa branca do Quénia para apalpar, imagino-os a arfar depois de orgasmos múltiplos obtidos ao devassar a consistência da papaia dou da manga do Brasil, naquilo que é um excelente exemplo de porcalhice colectiva.

No que aos “apalpadores” concerne já vi de tudo, a insuspeita velhinha que vai ferrando a unhaca nas maçãs, a matrona que esborracha os pêssegos ou mesmo o sujeito careca com ar de pateta que esborracha as extremidades do melão, que o cheira e que lhe espeta os dedos, um verdadeiro “expert” em matéria de “apalpação” fruteira, com ar de compenetrado de entidade suprema da a palpação meloal.

Como vêem caras e caros leitores, a ida a um hipermercado, essa deslocação aparentemente sensaborona, muitas vezes obnóxia e irritante, pode ser divertida se nos entretivermos a observas as taras e as manias da fauna que deambula por ali, como aquela criatura que naquele sábado invernoso que fui às compras dedicava meia hora da sua vida a escolher castanhas.

Francisco Pereira

 

 

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