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Sexta-feira 6 de Dezembro de 2019  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

A COR DA FARDA

29-11-2019 - Armando Alves

- Como é rapaz, vais cooperar ou vamos ter de te arrancar o que queremos saber junto com esses dentes afiados?

- Eu já vos disse tudo o que sabia!

- Sim, aposto que sim, e tu Sam? Não achas que o rapazito já cuspiu tudo o que sabia?

- Oh sem dúvida, Soro, aposto o mindinho nisso.

- Pronto, pronto, vocês não acreditam, mensagem recebida, podem baixar o nível de sarcasmo ou pelo menos aumentar o de subtilidade, estão a deixar-me enjoado.

- Tu achas que isto é um jogo rapaz? Tu sabes o que está em jogo aqui?

- Afinal é um jogo ou não? Estou confuso.

- Escuta bem pirralho, nós somos a menor das tuas preocupações, se cooperares aqui e agora nesta sala, fazes umas horas de trabalho comunitário e um dia estamos todos a rir disto, tu não queres sair daqui sem nos explicar tudo, tim tim por tim tim, acredita em mim. O teu pai sempre foi um bom homem e eu pessoalmente ofereci-me para me encarregar de ti. Dei a minha palavra em como eras um bom miúdo e em como tudo não passa de um mal entendido. A situação não é assim tão má, a corda que tens ao pescoço é larga e o carrasco está a dormir uma sesta, aproveita a situação e salta fora antes que ele acorde e ajuste o nó.

- Oficial Samari, eu agradeço o que está a fazer por mim...

- Pelo teu pai rapaz, pelo teu pai, e movido pela convicção de que do cinto não te escapas.

- Agradeço o que está a fazer pelo meu pai, mas eu não posso entregar assim os meus companheiros.

- São rufias! São foras da lei que te desviam de um bom caminho! Com o calor do sol rapaz! Não entendes isso? A tua família, é a eles que deves honrar!

- Não sou uma criança para ser desviado. E somos foras da lei apenas pelo sistema que nos esforçamos dia e noite por derrubar. Na verdade, é o senhor que ocupa o papel de fora da lei neste momento! Fora das leis que acreditamos justas para o povo deste profanado país!

- Rapaz! Meu deus, o que te fizeram! Certamente não pode ser nisso que acreditas! O império que instauramos, que o teu pai ajudou a erguer com as suas próprias mãos...

- Está corrompido, Oficial. É nisso que acredito e não por ideias embutidas na minha mente frágil. É apenas a minha percepção das ruas impregnadas de injustiça!

- Mas... De que te queixas rapaz? Conheço-te dedo berço! Nunca nada te faltou, pelo contrário...

- Está fora da sua capacidade de compreensão, Samari Rondial. O senhor representa em si tudo o que desprezo neste antro de covardes.

- Que dizes, Alphonse?

- A vossa vil passividade. Lambém avidamente a mão que vos atira as carcaças dos indefesos sem voz e vocês devoram-na por detrás da máscara do bondoso homem de família. Sam, deixe que lhe explique o tipo de homem que é, pois acredito verdadeiramente que tal como o meu pai, não o saiba. É um homem sem ideais próprios, que concorda e discordo daquilo que aprendeu a concordar e a discordar. É um homem sem opinião e um homem sem opinião não passa de uma triste ferramenta nas mãos de homens determinados. É um saco vazio para ser cheio com o que outros decidirem encher. É um bom pai de família, um bom amigo, um bom oficial e como tal julga ter reunido as condições para dormir tranquilamente à noite com o título de "bom homem" sem ter de ponderar sobre a verdade por detrás de cada acto que pratica. Chamei-lhe de vil à pouco, foi um erro. Para ser vil é necessário ter personalidade, mas o mesmo se aplica à bondade. O Sam não sabe o que serve e o porquê de o servir é muito pouco nobre. Serve porque paga as contas, serve porque lhe ensinaram que era correcto servir. Fala-me com a arrogância de mil homens quando julga os meus "crimes" mas eu sei porquê que os cometi. Eu meço a extensão dos meus actos e avalio o peso dos mesmos na estrutura que segura este mundo. O Sam não merece esse olhar de superioridade, como se lutasse por uma causa justa quando não sabe por que causa luta. Tivesse sido outro o desfecho da guerra, fosse este país governado por liberais que lhe oferecessem o mesmo cargo com um conjunto de leis diferente e o texto do grande Oficial Samari Rondial seria o mesmo, apenas os condenados seriam diferentes e provavelmente a cor da farda. É isso, a cor da farda. Samari, o senhor está neste mundo para vestir a farda de oficial, não se lhe importa a cor e é isso que me leva a desprezá-lo infinitamente mais do que eu seu tirano líder.

- És jovem rapaz. És apenas jovem. Existe verdade nas tuas palavras e essa verdade magoa-me profundamente, mas eu luto pela ordem. O mundo seguirá o seu curso independentemente da ideologia que nele vingar mas um homem pode sempre optar por manter a ordem, seja ela qual for. Sargento Soro, leve este rapaz para ser interrogado formalmente, o espírito dele não será quebrado tão facilmente.

Armando Alves

 

 

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