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Quarta-feira 13 de Novembro de 2019  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

XIV - HISTÓRIAS DE ENCANTAR
O SEBASTIÃO COR-DE-ROSA CUECA

08-11-2019 - Pedro Pereira

Começou a acordar lentamente. No embalo da dormência do despertar do sono em que ainda se encontrava, foi assolado por uma tremura gélida de frio, como se estivesse ao relento num descampado, no meio do nada, na escuridão, que era afinal aquela em que se encontrava imerso no seu quarto.

Os seus sentidos começaram a despertar, aguçaram-se, num espaço de tempo que lhe pareceu uma eternidade. Então, como que num instante de segundos de um flash a disparar, o tempo congelou.

Foi com um enorme esforço de concentração que quis situar-se. Numa primeira fase não se encontrou. Procurou levantar-se e pôr-se de pé, porém, os membros não obedeceram às ordens do seu cérebro. Uma lassidão imensa tolhia-os.

O pânico tomou-o de assalto.

Na penumbra que o cercava, permitida pelo coar de uma réstia de luz que penetrava por entre uma frincha do estore da janela, apercebeu-se de vultos em movimento silenciosamente felinos em torno de si.

Fazendo um esforço que lhe pareceu sobre-humano, conseguiu abrir um pouco mais as pálpebras e divisar por entre uma bruma filtrada pela parca luz os rostos brancos como a cal, desorbitados, com expressões alucinadas das manchas negras que cirandavam no aposento.

Conforme ia fixando os rostos, um por um, os vultos prostravam-se ajoelhando-se em volta da cama, de mãos postas em reverência.

Somente um rumor baixo de uma ladainha incompreensível, como um cantochão, eles emitiam.

Como vagas lentas que irradiassem dos mesmos, num sem fim e em crescendo, o som do cantochão foi subindo até poder distinguir algumas palavras de entre as demais, como salvador e milagre.

Lentamente sentiu que começava a poder movimentar as pernas, os braços e o pescoço, o que lhe possibilitou poder olhar o seu corpo e tudo o mais que o rodeava de forma mais precisa.

Surpreendido, descobriu-se recoberto por uma reluzente armadura seiscentista. Tanto mais admirado quanto se recordava de se ter deitado trajando uma confortável camisa de dormir cor-de-rosa cueca.

Não obstante continuar a divisar uma neblina no espaço do quarto, a claridade rompia por entre ela com intensidade. O sol da manhã despontava.

Tilintado a chaparia da armadura, levantou-se da cama e dirigiu-se à janela levantando o estore e deixando o sol entrar a jorros. Surpreendido, vislumbrou milhares de vultos negros com olhos desorbitados nos rostos brancos como a cal, pejando o largo fronteiro ao seu palácio cor-de-rosa.

O cantochão que continuava a ser entoado dentro do quarto multiplicava-se agora por milhares de manchas negras, num reverente e alto clamor vindo do largo que já havia sido do rato. Foi então que conseguiu perceber claramente, como se fora uma aclamação mais uma palavra, que pela sua intensidade se destacava de entre as duas que havia percebido ainda dentro do seu quarto. Era ela:

D. Sebastião .

Pedro Pereira

 

 

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