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Sexta-feira 18 de Outubro de 2019  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

CHÁ PARA UM LOBO PARTIR

04-10-2019 - Armando Alves

O voo partia às seis. Planeei sair de casa por volta das três, não fosse algo acontecer. Deveria dormir ou não? Eram dez da noite. Liguei a televisão para preencher o silêncio da casa. As malas à porta, ansiosas por partir, pressionavam-me, olhando de esguelha. Dizem que os problemas nos acompanham para onde quer que vamos, mas prefiro arriscar. Para onde quer que olhe vejo um espectro de ti, uma lembrança triste com a qual não consigo comunicar, apenas uma memória. Não arrisco quase nada dentro destas paredes. Abrir uma caixa ou uma gaveta requer toda a minha coragem. Temo as memórias que lá moram recônditas à espera para me emboscar. Levo os dias a esforçar-me por não pensar em ti e o resultado é,naturalmente, o contrário.

Adormeço e sonho contigo. Já não sei se o sonho é bom ou mau, já não importa. Não sei qual dos dois doí mais quando abro os olhos.

Acordo de sobressalto, olhando para os lados de uma maneira tosca como que para perceber onde estou. Olho o relógio, são cinco da manhã! Corro para a porta, as malas olham-me com reprovação. Nelas levo apenas roupas novas que nunca usei a teu lado.

O Subaru que aluguei desliza como um pálido fantasma na madrugada. Ainda vou a tempo de apanhar o avião se for rápido a fazer o check-in. Enterro o pé no acelerador e passo qualquer limite de velocidade admissível. Não posso voltar para aquela casa, não sem ti! Não quero passar nem mais um minuto nesta cidade, neste país!

…Neste mundo.

Chego ao aeroporto e a loucura acalma. As lágrimas que escorriam confortavelmente na solidão acanham-se agora na presença de estranhos atarefados.

Respiro fundo e procuro acalmar-me, faltam menos de dez minutos para o avião partir. Procuro o bilhete nos bolsos mas não o encontro. Revisto-me a mim próprio num movimento involuntário conduzido pelo desespero e acabo por acha-lo na carteira.

No canto de um enorme monitor informativo vejo os números 06:01. Procuro no mesmo monitor o número do meu voo para confirmar que é tarde de mais. Reprimo as lágrimas enquanto penso em voltar para o apartamento e enfrentar mais um dia sem te ter a meu lado.

Foi então que te vi. A olhar o mesmo monitor, lavada em lágrimas, a chorar a minha partida.

“Melissa?” Sussurrei.

“Jonathan!” Gritaste correndo para os meus braços. “Perdoa-me.”

“Perdoo-te, meu amor.”

Armando Alves

 

 

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