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GREVE DOS MOTORISTAS DE VEÍCULOS DE MATÉRIAS PERIGOSAS
(a cobardia e hipocrisia da esquerda)

23-08-2019 - Francisco Garcia dos Santos

Não me recordo de, desde os tempos conturbados do PREC e da consolidação da democracia pluralista em Portugal em meados da década de 80 do século passado, ter havido um governo, aliás “frentista” de esquerda, que se tivesse deparado com tantas greves -nem tampouco, sublinhe-se, no do PSD/CDS de Passos Coelho e Troika- como o atual socialista do Costa, que, aliás, tem governado em tempo de “vacas gordas”.

Ao tempo de Passos Coelho, devido a greve de trabalhadores da transportadora aérea nacional TAP, que pôs em causa o transporte de milhares de portugueses e turistas, o Governo recorreu à figura da “requisição civil”, aliás a única tomada pelo mesmo.

Tal decisão fez levantar um enorme “coro” de protestos e de “rasgar de vestes” por parte do PS de Costa, do PCP de Jerónimo e do BE de Catarina, todos considerando a mesma antidemocrática e violadora do constitucional direito à greve.

As reivindicações mais ou menos justas e legítimas de muitas classes profissionais, não se devendo olvidar as corporativas dos juízes e procuradores do Ministério Público (os funcionários do Estado melhor remunerados) que acabaram de obter novos estatutos profissionais que lhes permitem nos escalões superiores chegar a auferir aumentos líquidos de cerca de € 700,00 (setecentos Euros! – o ordenado mínimo nacional é de € 600,00 ilíquidos), com ou sem greves, têm-se vindo a acumular. Mas nada disso tem causado “escândalo”, inquietação ou alarme por parte do governo e dos seus compagnons de route comunistas e trotskistas.

Ora foram necessárias duas greves de motoristas de veículos pesados de transporte de matérias perigosas, como os combustíveis, que, principalmente nesta última, fizeram o governo amedrontar os mais incautos, causar alarme social e entrar em histeria política, recorrendo a condutores das Forças Armadas, da PSP e da GNR (de duvidosa habilitação e experiência para o fazerem), mais à figura extrema da “requisição civil”, com ameaças de prisão para os grevistas -alguns já foram detidos pela PSP ou GNR. Tudo, segundo o Governo, em nome da normalidade da vida dos cidadãos e da economia do País. Isto faz-me lembrar o famoso slogan salazarista de que “os portugueses deviam viver habitualmente”.

Quanto à justeza das reivindicações laborais dos grevistas, ainda que concorde plenamente com as mesmas, sobre elas não me deterei. O que me interessa frisar é o aspecto político-sindical da questão.

Mas antes disso, apenas a título de exemplo, recordemos algumas das greves ocorridas durante o “governo Costa” que, segundo o mesmo, parecem não ter afectado a vida normal da sociedade portuguesa:

- greves de trabalhadores da CP que reduziram drasticamente o número de comboios em circulação tanto a nível dos grandes centros urbanos como em termos nacionais, fazendo do já habitual sacrifício de quem os usa para ir trabalhar, um verdadeiro inferno;

- greves dos professores que atrasaram substancialmente a atribuição das classificações dos alunos do ensino secundário no final dos anos-lectivos para se poderem candidatar à frequência do ensino superior;

- greves de médicos e enfermeiros, em que as já (a)normais listas de espera são enormes, não só para simples consultas de clínica geral, mas também para cirurgias, muitas delas urgentes, se viram drasticamente aumentadas;

- greve da Autoeuropa que causou grandes prejuízos para a economia (indústria exportadora) nacional;

- greve dos estivadores do Porto de Setúbal, pelo qual, por via marítima, é exportada a grande maioria da produção de automóveis da Autoeuropa, tendo a Base Aérea Militar do Montijo servido de enorme parque de estacionamento para os veículos em espera de embarque;

- greves sucessivas de guardas prisionais que impedem o legal e legítimo direito dos reclusos receberem visitas dos seus advogados e dos respectivos familiares;

etc.!

E não nos esqueçamos de que essas greves -se não quase todas-, foram consideradas justas (não cabe aqui aferir se o foram ou não), fomentadas e apoiadas por sindicatos afectos à CGTP-IN/PCP, à UGT/PS (?) e alguns activistas do BE (caso da Autoeuropa), sempre que tal, em termos de estratégia ou tática político-partidádia lhes conviu.

Ora, se todas essas greves não incomodaram o governo, por que motivo esta dos camionistas de veículos de transporte de combustíveis surtiram tal efeito?

E por que motivo os partidos de esquerda PCP e BE, suportes do “governo Costa”, não obstante a “requisição civil”, estiveram tanto tempo calados face a tal greve, tendo até o camarada Jerónimo vindo a “terreiro” declarar que a dita prejudicava mais o povo do que beneficiava os trabalhadores? E só depois de vários dias de ensurdecedor silêncio se manifestaram timidamente a favor dos grevistas?

Coitado do Álvaro Cunhal, que deve estar às voltas na tumba!

A resposta, na minha modesta opinião, é simples!

Os sindicatos dos camionistas (ou o principal) e seus líderes, por serem independentes, “fugiram” ao “controleirismo” das centrais sindicais, ou seja, da CGTP-IN/PCP e da UGT/PS, bem como marginalmente de alguns inexpressivos activistas “trauliteiros” do BE, o que tornou a sua acção imprevisível e “descontrolada” politicamente.

E se Jerónimo disse o que disse, algum membro do PS, do PCP ou do BE veio contradizê-lo? Claro que não! É que em tempo de férias (para quem as pode gozar fora de casa), o povo gosta de poder livremente atestar de gasolina e gasóleo os depósitos dos seus automóveis, o que, para estes, torna a greve dos camionistas impopular e ignaramente aplaude toda e qualquer medida do Governo que coarte o legítimo direito à greve e reprima os grevistas, sendo que PS, PCP e BE sabem muito bem tirar partido desse descontentamento com vista à obtenção de votos nas muito próximas eleições legislativas.

Que a maioria dos atuais PSs andassem de cueiros ao tempo do 25 de Abril, e as fedelhas do BE talvez ainda nem tivessem nascido, portanto apenas conhecendo só por “ouvir dizer” ou ler sobre a proibição da greve no Estado Novo e repressão das que ocorriam pela Polícia de Choque da PSP, da GNR e prisões de dirigentes grevistas pela PIDE, estejam em silêncio, ainda que não se aceite, pode compreender-se. Agora o Jerónimo de Sousa, metalúrgico, que viveu nos tempos da autocracia salazarista vir encapotadamente apoiar o Costa na repressão aos camionistas, mais do que oportunístico, é vergonhoso e obsceno!

Moral da estória: à esquerda, quando as greves lhes convêm do ponto de vista estratégico e tático-político, e por si são instigadas e controladas, são boas; quando o não são, são más!

É esta a cobardia e hipocrisia política da esquerda!

Francisco Garcia dos Santos

 

 

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