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Sexta-feira 18 de Outubro de 2019  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

A DOR DO GATILHO

12-07-2019 - Armando Alves

Ozori Nagu levantou-se nessa manhã antes do sol nascer como fizera as últimas duas semanas da sua vida. O acto de adormecer tornara-se uma tarefa imensamente penosa e não se esforçava por voltar a fazê-lo quando os primeiros sons da manhã o despertavam do sono leve para o mundo que aprendera a odiar. Nunca tinha pensado muito sobre a dicotomia entre o bem e o mal, o certo e o errado até ao fatídico dia a que as memórias o reportavam continuamente desde que sucedera. Era um jovem ambicioso, sempre o fora e sempre procedera de forma escrupulosa. Qualquer um que o conhecesse o descreveria como um rapaz bondoso, um título atribuído de forma demasiado leviana nos dias que correm, pensava Ozari para si próprio. O humano descreve-se sempre como bondoso, porque o humano percebe-se a si próprio, a infindável empatia do cogito. Os actos negativos são reprimidos para nos convencermos de que somos melhores do que a nossa pior faceta e tão bondosos como a melhor.

Quanto a idade chegou, Ozari Nagu, tal como o seu pai, Henari Nagu, alistou-se nas forças da CAIA combate aos avanços da inteligência artificial. Era uma causa nobre. É fácil deixar que instituam em nós o que consiste numa causa nobre. É fácil viver de acordo com um regime de valores morais imposto e comum a uma comunidade em que estamos inseridos. Optou pelas operações especiais, pois era mais dinâmico que o seu pai que ingressou nos serviços administrativos e não queria qualquer facilidade de ingresso, era um homem de honra. Superou as provas com distinção e rapidamente estava a comandar um pelotão em pequenas missões de reconhecimento. Mas a ambição de Ozori prometiam uma evolução rápida. Com um talento natural para a liderança, transformou o pelotão numa família e contagiou cada um dos seus doze soldados com a motivação de crescer. Finalmente chegou o dia por que tanto esperava, a apreensão de uma unidade RIB. A operação revelava-se mais simples do que muitas operações de menor relevância que o pelotão 434 estava habituado a executar. A unidade vivia numa pequena aldeia a leste de Tiria onde o avanço tecnológico da cidade parece esbater-se. Numa pequena casa de duas divisões vivia uma jovem mãe em condições precárias e uma criança de três anos.

Myria.

Tinha uns olhos brilhantes com uma cor que dançava entre o castanho das rochas do deserto e o verde prometido de prados que Ozori nunca vira. Aqueles olhos assustados perseguir-lhe-iam para o resto da vida.

Debaixo da mira de doze guerreiros armados, uma mãe indefesa chora a sua alma abraçando a sua cria.

- Unidade 434, missão RIB 23. Situação: contacto visual com o alvo. - A voz de Ozori saia-lhe automaticamente. O soldado voltou a ser criança e escondeu-se num canto do seu ser, deixando o corpo ao controlo de uma estrutura fria de ordens e procedimentos que aprendera a cumprir.

- Unidade 434 - soou o rádio tão alto como o bater do coração de Ozori - permissão para abater o alvo. Desde pequeno que pressionara inúmeras vezes o gatilho de uma arma, antes mesmo de saber falar, pressionava um gatilho imaginário que o fazia sonhar, mais velho, caçara com o seu pai para alimentar uma mãe orgulhosa, já adulto, o pressionar do gatilho fê-lo passar com distinção nas provas de tiro, e ainda no dia anterior tinha com aquela mesma arma protegido a vida dos homens que o olhavam como um herói. O soldado que era agora criança no fundo do seu ser tapou os ouvidos e murmurou uma música que costumava ser alegre. O pressionar do gatilho que tiraria uma vida e destruiria a sua foi fez partir o projétil com um som ensurdecedor. O mundo parou com o arrependimento de quem daria tudo para mudar o último milésimo de segundo da sua vida. Mas era tarde demais. No chão, os olhos outrora carregados de cores e sentimentos eram apenas cinzentos. O choro desesperado de uma mãe dividida entre a dor e a revolta devolveu ao tempo a sua continuidade.

Presa numa jaula pequena demais, após horas de acusações e medidos para acabarem com a sua própria vida, a jovem mãe pareceu abandonar o corpo e deixá-lo caído, esgotado. Ozari não se permitiria ao desespero até ser contemplado com o privilégio da privacidade. As unidades RIB são a maior ameaça A.I, repetia a si próprio, tentando procurar forças para voltar a encarar os companheiros nos olhos. O silêncio era partilhado por todos sem excepção, cada um enfrentando a sua própria luta interior, mas nenhum demónio era tão grande como o de quem premiu o gatilho.

Armando Alves

 

 

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