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O Poeta e a Menina
- ou como nascem algumas lendas da nossa terra, se assim quiserem…

25-04-2019 - Pedro Barroso

Para um sector mais cripto-desconfiado ou para leitores mais apressados, muitas vezes me foi posta a questão de considerar a minha canção “Menina dos olhos de água” (também) uma canção de resistência. Explicarei, portanto, antes que me esqueça e possa ficar sem entendimento. Desfibremos e desencriptemos então um pouco o seu significado poético.

Muitas vezes, os poetas usam o paralelismo entre a Natureza e a razão; a paixão e o acreditar; o físico e o metafísico. Camões fê-lo tantas vezes. Diria que quase todos eles o fizeram.

Com essa convivência, interagem, portanto, na arte poética, tanto a face mais visível e de entendimento imediato, como a lucidez do acto crítico intencional, como também o discurso evocativo. Assim acontece neste poema.

Obviamente, não se pretende relevar à exaustão nenhuma vã glória residente de pífia conquista amorosa. Ela está lá, legível e fixada num momento de encanto, muito bem. Existiu.

Mas a verdadeira “menina de olhos de água” - de peito oferecido, cabelos ao vento, lábios que são fontes, olhos que são espelhos e cabelos que são nuvens, não é mais que o apreço e o encanto pela Liberdade. O símbolo e a conquista. O desejo e o sonho.

Com efeito, tal como os primeiros republicanos a representaram com o barrete frígio e seios livres, em imagem plenamente divulgada nos princípios da Republica, também a Liberdade ateia desejo e incendeia a alma. Face ao enquadramento político de um certo retrocesso, - bem sensível nos anos 80 em que foi escrita - há sempre “alguém que não goste”. A esses, o autor deseja que “se não gostam não gastem, mas deixem ficar”.

E continuamos a falar da Liberdade. De resto poucas dúvidas ficam do profundo empenho sociopolítico da canção, quando refere que “aprendi nos Esteiros com Soeiro (Pereira Gomes) e na Fanga com (Alves) Redol”. Dois escritores, dois livros, dois homens da resistência, colhidos para o poema, propositadamente no espaço da luta do povo ribatejano

Quem é pois “a madrugada que aprendi a amar? A que despontou em mim quando sorriu”? Ficam ainda duvidas que seja a manhã de todas as madrugadas em 25 de Abril de 1974?

Ora bem. Fica feita a explicação. A canção terá sido feita em 83/84 circulou, maturou e saiu em LP em 1985. Ora precisamente. O namoro físico escapulira-se sem rasto algum, na ligeireza da sua circunstância e no breve limite do seu significado.

A canção, não. Essa, resistiu. Hoje a “menina” é uma senhora. De uns 40 anos quase.

E continuará a falar-nos, para sempre, da Liberdade maior. A tal que transforma “um rio grande no Mundo inteiro”. Nos “afaga no seu colo”. Que “desponta em nós um sorriso” e nos “dá rumo aos caminhos que escolhemos”. Usufrui-la pois, (à Liberdade) é um dever maior.

Pertencia-me explicar isto. Em nome do que talvez ainda não estivesse evidente para alguns.

Porque, para todos os que haviam lutado pela Democracia, em Abril, nessa amada e única madrugada, todos aprendemos o significado e a força de um rumo colectivo; como se fosse um rio imenso a puxar-nos para um novo modo de vida. Um Tejo imenso desatando em Festa.

E nesse dia todos saboreámos o gosto magnífico do seu beijo.

Pedro Barroso

 

 

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