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Sexta-feira 26 de Abril de 2019  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

AMOR, CI┌ME & CRIME └ PORTUGUESA (I)

12-04-2019 - Pedro Pereira

Caro leitor,

Encetamos neste número de O Notícias de Almeirim, uma série de artigos que irão ser publicados nas semanas que se seguem.

Trata-se de um trabalho de investigação sobre crimes passionais e de violência conjugal ocorridos em Portugal nos alvores do século XX, com base em notícias publicadas no extinto jornal diário O Século, periódico de grande prestígio, fundado em 8 de Junho de 1880 por Sebastião de Magalhães Lima, e encerrado pelo governo em 12 de Fevereiro de 1977. Foi seu “coveiro” o secretário de Estado da Comunicação Social de então, o poeta Alegre.

A escolha da consulta deste periódico teve por base o facto de constituir então, de entre as publicações diárias, o jornal em que eram dados à estampa com mais frequência e profusão de detalhes, os crimes passionais e outros de violência quotidiana.

Salientam-se nos relatos dos crimes, a pormenorizada descrição dos intervenientes e o lado humano com que eram apresentados, quer os criminosos quer as vítimas. Não havia “presumíveis”, como ocorre nas notícias publicadas nos tempos de hoje em Portugal, relativamente às mais diversas tipologias de crimes.

Nos alvores do século XX os “criminosos” eram assim denominados. Tal como as vítimas, também não eram presumíveis. Tinham nomes e humanamente eram tratados pelos jornalistas nos seus relatos, que não tomavam posição sobre qualquer um dos intervenientes nos ocorridos nem reprovavam quer os adúlteros, quer os assassinos.

Não havia sofismas nestes assuntos. Os “bois” eram chamados pelos nomes, conforme nos relatam os jornalistas nas locais que se seguem:

«O photografo e antigo carteiro Antonio Marcello, de 22 annos, natural de Lisboa, residente no Alto dos Sete Moinhos, e que, como O Seculo referiu, oportuna e desenvolvidamente, aggrediu, na tarde de 3 de Novembro ultimo, com 22 facadas nas costas, cabeça e rosto, a sua ex-amante Emilia de Jesus Pereira, a Emília do Quatorze, caso que se deu na rua das Fontainhas, a S. Lourenço, apresentou-se hontem, a responder no 1º districto criminal, perante o sr. Conselheiro Pina Callado, em um processo de queixa, pois que, já no corpo do delicto, se provara que procedera sem intenção de matar.»

(O Século, 12.01.1910, p.2.)

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«No ultimo andar do predio nº 1 da rua Renato Baptista, vive com certo indivíduo uma mulher, que mantem relações amorosas com um sapateiro, conhecido pelo Alfazema, o qual tem por costume ir para a porta do animatographo do Intendente trocar signaes com a perjura.

Informada do caso a mulher do Adonis, foi hontem esconder-se na escada do nº 22 da rua Nova do Desterro, a fim de o surprehender, mas tendo a mãe delle sabido do laço, correu ali a prevenil-o, dando-se o caso de que o chamou para o pé da mesma porta onde estava occulta a mulher.

Esta, ouvindo o aviso, saiu a descompôl-o, e ele ouviu e entrou a zurzil-a, pelo que acudiu a municipal do posto próximo, contra a qual o encravado amante se atirou, agarrando-se ao cabo, dando um pontapé na sentinella e fazendo tropelias de três em pipa.

Foi um trabalhão enorme para o conduzir ao calabouço do quartel do Cabeço da Bola».

(O Século, 15.01.1910, p.2.)

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Em Fevereiro de 1910, tem lugar no Porto um drama que irá apaixonar a opinião pública, pelo facto dos intervenientes serem bastante jovens. Nos dias 3 e 4 desse mês, a notícia do duplo suicídio, incluindo o contexto e a descrição do estado dos mortos encontrados num descampado perto de Paranhos vão comocionar a opinião pública.

Foi o caso de dois namorados, protagonizados pela “D. Ludovina Augusta Mendes, de 22 annos de edade, filha do inspector dos impostos, sr. João Mendes, com residência em Villa Nova de Gaya”, e do seu namorado, “Alvaro Correia Coelho, tambem de 22 annos, caixeiro da livraria Lopes & Cª».

A jovem, de Vila Nova de Gaia, ao ser rejeitada pelo homem que desejava, aceitou namorar com outro, instilando-lhe a ideia de um duplo suicídio, depois de lhe ter declarado que nunca seria dele, uma vez que o seu verdadeiro amor se havia desfeito.

Relata a notícia a dada altura:

«São singularmente interessantes os pormenores do trágico drama que se desenvolveu no Porto, conforme o Século hontem noticiou e que, pelo que tem de romanesco e emocionante, impressionou vivamente a população portuense, que mais de perto teve imediato conhecimento do facto, o qual reveste, na verdade, as cores passionaes do que de mais extraordinário possa phantasiar o espirito de um novellista romântico e sonhador.(…) Ella, desilludida, sonhara a morte, mas queria morrer às mãos do Luiz, a quem amava loucamente. Há tempos falou-lhe n‘isso, propoz-lhe, pediu-lhe mesmo que a matasse, ao que o rapaz respondeu com uma formal recusa e conselhos que tivesse juizo. A ideia terrível, porem, não a abandonou, assim como ao Alvaro (…).

Em face da negativa do homem que amava e que se recusava a acompanhal-a na vida e na morte, voltou-se para o Alvaro, que ella não queria seguir na vida, mas que não se importou de a seguir para a morte… triste destino!

No domingo o Alvaro voltou a casa de Ludovina e com ella esteve conversando, insistindo na proposta de se matarem, vendendo todas as hesitações que ainda havia no espírito da pobre rapariga. Na manhã de segunda-feira, seriam 8 horas, a Ludovina saiu de casa e ao sair disse para uma prima que lhe perdoassem todos se porventura morresse cá por fora». (…) «Ella estava deitada sobre um sobretudo e elle, a pocos passos, com um revolver na mão. Verificou-se que a rapariga tinha levado um tiro no ouvido esquerdo e elle outro no direito.

Ao lado estavam um chapéu e cartas rasgadas, tendo os envelopes inteiros (…).

O sobretudo do rapaz, cuidadosamente estendido, servia de alcatifa ao corpo de Ludovina, ao lado d’este o seu chapéu e junto umas luvas de fio de Escócia e uma pequena saca de couro».

(O Século, 03 e 04.02.1910, ps.1 e 2 respectivamente)

Continua no próximo número

 

 

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