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Segunda-feira 17 de Junho de 2019  
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CPCJ

14-12-2018 - Francisco Pereira

Um destes fins-de-semana, fui a Lisboa, andava eu a passarinhar na estação do Oriente, que costuma ter feiras do livro interessantes, os preços nem tanto mas o que por lá de quando em vez se encontra vale a pena, quando topo uma cara conhecida.

Não via a Raquel há uns 20 anos ou coisa que o valha, foi minha colega na Universidade, não era do meu curso mas fez connosco umas cadeiras já não me lembro quais, rapariga algarvia de verbo fácil, está igual, o tempo parece que não passou por ela.

Sentámo-nos à conversa, estivemos bem umas três horas a dar à taramela, e é dessa conversa que vos quero falar. A Raquel, trabalha numa CPCJ, quando me confidenciou a medo essa informação, franzi logo o sobrolho – também tu – atirou-me ela logo de chofre.

Respondi-lhe que sim, também eu, a CPCJ é algo que goza de uma fama pouco edificante junto da populaça onde claro está, me incluo, coisas que vou vendo ainda me fazem ficar com pior imagem disse-lhe.

A Raquel olhou para mim, recostou-se na cadeira, dizendo-me calmamente – tu nem sabes da missa a metade meu amigo! – acredito que sim retorqui-lhe, olha aproveita que estamos aqui e elucida-me. A Raquel respirou fundo e as três horas seguintes de conversa foram para mim uma epifania, também eu seguia pela estrada cego e depois vi a luz, “mea culpa, mea máxima culpa”.

Depois daquela conversa, fiquei convicto de uma coisa, a CPCJ, por muito má que seja a sua actuação, em muitos casos é-o de facto, ainda assim é melhor do que não possuir nada.

As várias CPCJ espalhadas por este país, não são uma entidade homogénea, existem realidades diversas, quer quanto a meios, escassos em todas, quer quanto a recursos humanos, quer quanto à qualidade desses mesmos recursos humanos, pois como em qualquer outra instituição, existe gente excelente, mas também existe gente que não devia estar ali, porque não tem perfil para desempenhar tais funções.

A maioria das pessoas das CPCJ, tenta pois desempenhar o melhor que sabe e consegue as suas funções, no entanto confrontam-se com a já costumeira ineficácia da máquina do Estado, começando numa Justiça lenta, desadequada, muitas vezes com gente pouco competente que entrava processos, que arquiva processos, em mais um exemplo de uma sub-cultura de impunidade que grassa por toda a sociedade.

Se as CPCJ não desenvolvem mais e melhor serviço, a culpa é tão somente do Estado, leia-se dos políticos e da sociedade em geral que tão mal tratam as crianças, Portugal é um país que trata mal as suas crianças, disso não tenho absolutamente dúvida nenhuma, ao falar com a Raquel ainda fiquei mais convicto disso.

Quem trabalha nas CPCJ assiste quase diariamente ao miserabilismo social que infesta este país, assiste à violência gratuita, ao tráfico e sobretudo a essa cultura de impunidade que conduziu uma parte da sociedade a viver de subsídios sem ter responsabilidades. Quem trabalha nas CPCJ é espectador privilegiado e por vezes actor da degradação moral de uma sociedade à beira de implodir, de mudar de paradigma, esqueçam os tais ”brandos costumes” coisa que aliás nunca existiu. Por outro lado também percebi que como em qualquer outra actividade humana há o excelente, o bom e o atrozmente medíocre, sendo a nossa tendência avaliar pela rama, critique-se sempre que se deva, enalteça-se quando for o caso, a cidadania faz-se de intervenção e de questionarmos os “poderosos” sobre aquilo que fazem ou não usando o nosso nome.

A conversa com a Raquel serviu para me “abrir os olhos” para uma realidade da qual só conhecia o superficial, mudando radicalmente a minha percepção sobre as pessoas e a instituição, endereço pois um grande «Bem Hajam» às pessoas que fazem das tripas coração e se levantam todos os dias para ir trabalhar numa qualquer CPCJ.

Francisco Pereira

 

 

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