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OS 3 “DDD” DO 25 DE ABRIL DE 1974

17-08-2018 - Manelinho de Portugal

Não obstante ser muito novo à data do golpe de estado de 25 de Abril de 1974, o qual rapidamente se transformou em revolução, bem me recordo de que o MFA -Movimento das Forças Armadas, seu promotor e executor, a título de justificação do mesmo (e que ficou para a História) invocou os “3 DDD”: “democratização”, “descolonização” e “desenvolvimento”.

1º “D” – “democracia”

Este “D” logo nasceu ínvio, pois passados cerca de 5 meses após 25 de Abril, a propósito de uma “inventona” denominada de “Maioria Silenciosa”, que em Lisboa se deveria manifestar na rua a 28 de Setembro contra a “deriva esquerdista” do nóvel regime por parte de alguns sectores do MFA e de partidos como o PCP e UDP (entre outros), e em apoio ao então Presidente da República Gen. António de Spínola, na sua sequência o COPCON – Comando Operacional do Continente, chefiado pelo então major Otelo Saraiva de Carvalho, qual “guarda pretoriana” revolucionária, com os célebres mandados de detenção “em branco”, prendeu centenas de cidadãos de forma absolutamente arbitrária e indiscriminada, que tinham sido funcionários públicos de instituições do regime deposto, membros de organizações do mesmo, como a Legião Portuguesa (que a “25-A “pouco mais era do que uma espécie de Protecção Civil dos dias de hoje) e da Mocidade Portuguesa -tipo “escuteiros”- todos tidos por “fascistas e reaccionários”, e ainda proprietários de algumas grandes empresas e de latifúndios no Alentejo e Ribatejo.

Iniciou-se então o PREC – Processo Revolucionário em Curso, o qual conheceu o respectivo “climax” a 11 de Março de 1975, após uma atabalhoada e caricata “intentona” de golpe de estado promovida pelo Gen. António de Spínola, que a seguir ao “28 de Setembro” se demitiu de Presidente da República, cedendo o lugar ao “esquerdista”, tido por simpatizante do PCP, Gen. Francisco da Costa Gomes.

A partir de tal data, a revolução “acelerou” no sentido colectivista e totalitário de esquerda: foram nacionalizados os grandes grupos económicos, o sector da banca e seguros, ocupadas “selvaticamente” pequenas e médias empresas comerciais ou industriais, bem como propriedades rústicas onde se exerciam actividades agrícolas e pecuárias sitas no Alentejo e Ribatejo. Em todos os casos, sendo supostamente “auto-geridas” pelos seus trabalhadores, a verdade é que tal foi feito por “comissários políticos” sem quaisquer capacidades ou conhecimentos de economia, finanças e gestão, todos eles principalmente militantes do PCP, o que, na esmagadora maioria dos casos, resultou em “falências”.

A resistência militar e cívico-política a tal “estado de coisas” iniciou-se nos meses seguintes, tendo pela parte do MFA e do Conselho da Revolução (seu “braço político”) o denominado “Grupo dos 9” (ala moderada do mesmo), do qual sobressaíram Melo Antunes, Vasco Lourenço, Pezarat Correia, Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves, Sousa e Castro, Vítor Alves e Vítor Crespo. entre outros; e em termos político-partidários o PS de Mário Soares e o PPD de Sá Carneiro.

Durante o denominado “Verão quente de 1975”, Portugal esteve geográfica e politicamente “partido ao meio” -a sul do Tejo continuava a “sanha revolucionária”, com militares organizados em grupúsculos revolucionários como os SUV – Soldados Unidos Vencerão, os quais não obedeciam à hierarquia e, em vez de juramentos de Bandeira, juravam fidelidade à revolução marxista-leninista, como foi o caso do RALIS – Regimento de Artilharia de Lisboa, comandado por Dinis de Almeida.

Aliás, foi neste período que a abandalhada “soldadesca” do RALIS fuzilou um jovem civil que no momento errado ia a passar de carro junto ao mesmo; e os presos políticos seviciados por fuzileiros afectos ao PCP nas prisões de Caxias, Peniche e outras, bem como no Regimento de Lanceiros Nº 2 comandado pelo então Maj. Mário Tomé da UDP.

Com a sublevação de tropas pára-quedistas que tomaram as BasesTancos, Monsanto (Lisboa) e outras, com apoio político de organizações/partidos de extrema-esquerda e do PCP, com vista a um suposto golpe de estado “revolucionário”, o “Grupo dos 9” desencadeou a contra-ofensiva a 24/25 de Novembro de 1975 -a qual ficou conhecida por “25 de Novembro”, comandada em termos estratégico-tácticos pelo então Ten.-Cor. Ramalho Eanes e operacionalmente pelo então Cor. Jaime Neves, comandante do Regimento de Comandos da Amadora. E tendo a mesma saído vitoriosa, iniciou-se o processo de normalização democrático, com a realização de eleições semi-livres (já que partidos houve que nelas não puderam participar por serem considerados “fascistas” ou “reaccionários”, como o Partido do Progresso e o Partido da Democracia Cristã), nas quais foi eleita a Assembleia Constituinte que viria a elaborar e aprovar a actual Constituição da República Portuguesa de 1976 -para além de nesse mesmo ano ter sido eleita nova Assembleia Legislativa, donde derivou o I Governo Constitucional chefiado por Mário Soares, e a eleição do primeiro Presidente da República pós “25-A”, Gen. Ramalho Eanes.

Face ao exposto, o 1º “D” do “25-A” não teve uma execução fácil, a qual durou até cerca de 1979-1980 e à completa desmilitarização do regime com a revisão constitucional de 1982, que terminou com a respectiva tutela militar pelo Conselho da Revolução, então extinto.

2º “D” – “descolonização”

No que a tal concerne, a mesma foi tudo menos isso, pois não só não foi permitido aos “povos” autóctones das ex-Colónias ou Províncias Ultramarinas o exercício do direito de auto-determinação, como se verificou uma vergonhosa debandada administrativa e militar das mesmas por parte das autoridades da Metrópole e a entrega do poder nesses territórios e sobre essas populações aos movimentos marxistas-leninistas, como: o PAIGC - Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, na actual Guiné-Bissau, hoje estado falhado e inviável; o MPLA - Movimento Popular para a Libertação de Angola, que só com a ajuda de tropas cubanas se “conseguiu aguentar” no poder (leia-se Luanda e pouco mais), e sofreu uma guerra civil fratricida durante cerca de 20 anos, e cujo número de centenas de milhar de mortos é impossível de quantificar; a FRELIMO - Frente de Libertação de Moçambique, que durante muitos anos viveu em guerra civil com a RENAMO -Resistência Nacional Moçambicana, e que ainda hoje não é um país sócio-politicamente estável. E, por último, o caso de Timor-Leste, que foi abandonado e entregue à então FRETILIM - Frente de Libertação de Timor Leste, à data marxista-leninista e “inventada” pelos “revolucionários” da Metrópole, o que desencadeou a inevitável ocupação militar pela Indonésia, país que há pouco tempo tinha banido o respectivo partido comunista com o golpe de estado do Gen. Suharto que depôs o Gen. Sukarno -quantos milhares de mortos inocentes conheceu o Povo Maubere durante a ocupação indonésia até à sua independência?

Como se vê, o 2º “D” falhou rotundamente.

3º - “D” – “desenvolvimento”

O “desenvolvimento”, talvez mercê da integração de Portugal na então CEE e hoje EU, verificou-se de alguma forma, principalmente em termos de infraestruturas, de educação e de saúde. Porém, desde “25-A” já conheceu duas “bancarrotas”, uma em 1983 com Mário Soares, e resgatado pelo FMI, e outra em 2011 com José Sócrates, em que a famosa Troika (EU, BCE e FMI) intervieram, e da qual, de todo, o País e os portugueses ainda não se livraram.

E, para grande frustração dos que há 44 anos (e de muitos outros, ao longo desse tempo) acreditaram que o seu nível de vida iria melhorar e aproximar-se da média dos países da EU, o que se tem vindo a assistir é a um afastamento da mesma.

Portanto, pelos vistos, o 3º “D” também não foi conseguido, ou, quando muito, em termos parciais.

Ponto final – “liberdade”

Para terminar, voltando ao 1º “D” de “democracia”, a qual implica verdadeira liberdade de expressão e participação política nos vários órgãos da Comunidade, verifica-se que hoje se vive num Estado orwelliano, onde tudo e todos são directa ou indirectamente controlados por um Estado que, raptado e sequestrado pelos “donos disto tudo” (leia-se PS e PSD, mas também todos os outros partidos com assento parlamentar), não conseguindo, ou não podendo, questionar o poder dos mesmos. E ainda, para pior, sujeitos aos ditames de uma nova “classe bem pensante” totalitária do “politicamente correcto”, autónoma e também infiltrada nesses partidos.

Ora pior do que a censura, ou “visto prévio” de ante “25-A”, imposta de fora para o jornalista ou comentador, hoje são estes que se auto-censuram, obedecendo cega e “religiosamente” a tal “correcção política”, por medo de perder o emprego ou a avença. E os cidadãos comuns, que usam as redes sociais, como último recurso para exprimirem livremente as suas ideias, vêem-se também tolhidos na sua liberdade, pois se os seus comentários e partilhas forem “desalinhadas” com os “códigos pseudo-éticos” das respectivas administrações “politicamente correctas”, são censurados, suspensos de poder publicar nas mesmas, ou pura e simplesmente banidos.

E por ora basta, deixando-vos com as palavras já velhinhas de Sérgio Godinho: “a liberdade (não) está a passar por aqui”, e do Zeca Afonso, que para lutar contra “isto”, “traz um amigo também”.

Manelinho de Portugal

 

 

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