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Sexta-feira 17 de Agosto de 2018  
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XI – HISTÓRIAS DE ENCANTAR - A POSSESSÃO DEMONÍACA DE EVANGELINA

08-06-2018 - Pedro Pereira

A afamada e altamente turística cidade da Gandaia, também conhecida pela terra Cor-de-Rosa, situada no espectacular país onde reina a felicidade, de nome, Papolândia, no sexto continente, tem por chefe máximo a Dª Evangelina dos Prazeres*, senhora de excelsos predicados criada e havida num virtuoso colégio de freiras da Irmandade da Luz Oculta, onde a esmerada educação nele ministrada contribuiu decididamente para fazer dela uma estratega política de primeira linha. Até poderíamos acrescentar que fez dela uma águia das andanças politiqueiras dada a esperteza e audácia dessa ave, não fora o enorme peso associado à sua forma física, cilíndrica, mastodôntica o que torna difícil a comparação metafórica com esse passarão de rapina.

Pois bem, dito e feito começou a reproduzir na Câmara Municipal de Gandaia para a qual foi eleita presidenta, os hábitos de disciplina que as suas superioras de ensinança (e outras cavalices) lhe houveram inculcado.

Assim, não cumprimentava nenhum dos funcionários a quem se referia com indisfarçável desdém, “os meus subordinados”, como se fora uma patroa de casa de alterne… salvo seja!

Só interagia com alguns deles caso fossem chefes nomeados e amestrados por ela e mesmo assim somente quando era urgente tratar de assuntos camarários, sobretudo aqueles que lhe podiam dar visibilidade pública como se fora uma artista de variedades de feiras e romarias da afamada aldeia de Coina. Nessas alturas, antes de os/as receber, empinava as mamas, empertigava o nariz e faladrava, perdão, falava aos berros com as criaturas como que a imitar um velho sargento de cavalaria a dar instrução aos equídeos e outros quadrúpedes.

Não o fazia por mal, coitadita, mas porque tinha sido essa a educação que lhe haviam ministrado as suas velhas mestras da Irmandade, e por outro lado, porque uma malfadada surdez a vinha acometendo desde que havia tropeçado nos seus próprios pés a quem os seus correligionários do Partido Xoldrista chamavam carinhosamente de presuntos, e batido com a cabeça no lajedo da igreja onde cantarolava aos sábados e coisa e tal, quando se encaminhava com ar contrito para receber a saborosa hóstia das mãos do seu querido cura careca. A partir dessa fatídica queda perdeu a noção do volume sonoro e por isso, pensando que falava em tom normal com os seus interlocutores, passou a berrar como uma possessa e como é uso as alimárias comunicarem entre si. Pobrezita.

Pouco tempo passado após ter sido eleita presidenta, Evangelina começou a evidenciar publicamente através de actos, atitudes e comportamentos para com os seus concidadãos, sinais semelhantes a uma criatura possuída por um espírito maligno, a modos até que pelo demo (cruzes canhoto!).

Os seus modos intempestivos, o olhar alucinado, as risadas sarcásticas mais aparentando a guinchos de uma criatura vivente nas profundezas do inferno, trazia muita boa gente cristã temerosa dos contactos com ela, até da sua aproximação, inclusivamente por banda dos seus opositores políticos.

Preocupado, o bom povo da cidade da Gandaia começou a evitar cruzar-se com a Evangelina dos Prazeres. Só os seus correligionários políticos, os subsídio-dependentes e as almas caridosas afreguesadas nos ofícios divinos da igreja frequentada pela criatura é que, aparentemente, não reparavam na sua brutal mudança de comportamentos e atitudes. Os primeiros, porque atribuíam essa evidência aos acasos da sua fulgurante e rápida ascensão política/social, e os segundos, pela mesma razão, acrescido o facto de (falsamente) se sentirem a salvo das artes do maligno debaixo das telhas do Senhor.

Bem, mas como íamos dizendo, a Dª Evangelina, como normalmente acontece com os grandes líderes políticos deste mundo e do outro, necessitava de apoio para a execução das suas funções públicas & correlativas, sobretudo em actos onde estivesse presente população potencialmente eleitora.

Mulher eivada de grande espiritualidade, ungida que afirmava ter sido pelo Senhor, associou as suas actividades políticas de rua ao padre cura careca, vendedor de calhambeques em part-time, que indisfarçavelmente a idolatrava dada a dedicação que esta manifestava relativamente aos assuntos da igreja o que muito aprazia ao ministro das coisas do Além.

Deste modo, em tudo o que fossem inaugurações e outras acções políticas viradas para os papalvos, transportava à ilharga o cura careca que tinha por elevada missão aspergir com água benta tudo o que se mexesse ou fosse imóvel a torto e a direito, arremessar benzeduras e bolsar frases ininteligíveis para cima dos incautos fiéis.

Como «amor com amor se paga», por seu turno, o cura levava colado aos seus calcanhares essa grande estadista provinciana sempre que havia procissões e outros pios eventos públicos. Era vê-la ressumando água benta dos artelhos ao cocuruto, trajando uma opa por cima do lombo, perdão, das costas, acoitada debaixo do andor que ia deambulando pela zona velha da Gandaia.

Ei-la nessas passeatas acolitando o cura, revirando os olhos aos céus cantando salmos e melopeias, ora com ar compungido cravando o nariz no chão, ora revirando os olhos desorbitados ao alto.

Esta santa beatice assumida por parte da Dª Evangelina incomodava, porém, muitos papalvos, gente fanaticamente dedicada ao futebol e aos petiscos a quem lhes provocava urticária a visão da mistura entre o sagrado e o profano, sobretudo quando este se apresentava com face de propaganda política.

Na Gandaia as ruas estavam na sua maior parte escalavradas, esburacadas, muitas delas com crateras de profundidades insondáveis e misteriosas que não eram tapadas com massa asfáltica ou betuminosa, antes, decoradas com flores, o que dava um permanente ar festivo e naif à cidade, mas que obrigava os condutores dos veículos a contornar esses motivos decorativos como se fora uma gincana automobilística.

O mato crescia desalmadamente por tudo quanto fosse espaço verde da urbe, de molde a poder acolher com desvelo os caracóis, lesmas, cobras, ratos e outros animais domésticos sem-abrigo. As rotundas, normalmente pasto de matagal, a dada altura, graças a uma ideia luminosa saída do bestunto da Evangelina dos Prazeres, foram entregues para adopção a sociedades protectoras de animais para delas cuidarem.

Estas eram, sem dúvida, algumas das grandes estratégias de gestão da notável presidenta, que tinha como uma das suas grandes preocupações e prioridades o bem-estar e a saúde dos animais domésticos.

Pedro Pereira

* cf. VIIHistórias de Encantar - O Casal Maravilha, publ. neste jornal.

 

 

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