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Terça-feira 19 de Junho de 2018  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

DA EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS (2)

18-05-2018 - Pedro Pereira

Da Exposição de Propaganda Histórica

De estrutura marcadamente ideológica, sobressaiam os temas da fundação, a conquista, a independência, os descobrimentos, a colonização e o império, todos eles com direito a pavilhão ou a monumento comemorativo.

Assinalou-se o percurso da história nacional, os marcos que foram considerados mais importantes pelos feitos heroicos, sem se questionarem as razões que estiveram na sua origem. Desta forma, a história foi encarada como uma sucessão de actos isolados e todos eles baseados na exaltação do conceito da Pátria, um pouco à semelhança das ditaduras europeias de então.

A este propósito recorde-se a afirmação de Salazar: "O Estado pode e deve definir a verdade nacional, quer dizer, a verdade que convém à Nação" (Decreto nº21103 de 7 de Abril de 1932).

Desde o início de 1939, o responsável pela coordenação dos estudos foi Cottinelli Telmo, nomeado arquitecto-chefe da exposição, com ele ficando a trabalhar directamente, os arquitectos António Lino e Paulo Cunha.

O objectivo da Exposição, segundo Salazar, era aproveitar o melhor possível a coincidência dos oitocentos anos da formação de Portugal (1140) e dos trezentos anos da Restauração da Independência (1940) para uma comemoração vincadamente nacionalista que realçasse o próprio regime de Salazar, lhe buscasse raízes no passado heroico e lhe propusesse um futuro tão ou mais heroico.

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Da Arquitectura Nacionalista

O resultado destas preocupações nacionalistas foi, em termos arquitectónicos, bastante ambíguo, com um misto de soluções mais arcaizantes e mesmo com "uma certa propensão para a necrofilia" que já estava patente na escolha dos próprios temas e nas propostas dos monumentos.

Esta Exposição marca uma data muito importante na evolução do regime salazarista que tivemos. Representa um grande esforço da ditadura. Foram muitos metros quadrados de pavilhões alegóricos para "ornamentação" dos quais se chegaram a trazer populações nativas que ali figuravam como outro qualquer objecto de adorno...

Este certame ocupou uma vasta área e toda a sua concepção se assumiu claramente como uma arquitectura de "publicidade" e de "cartaz".

De realçar a extraordinária rapidez com que a Exposição foi montada. Foram cerca de 17 meses, recorrendo-se a uma programação bastante rigorosa e a uma tecnologia expedita de estruturas de madeira, metálicas e paredes de estafe.

Os pavilhões foram, pois, construídos com materiais perecíveis e o seu desmantelamento foi quase totalmente provocado pelo ciclone de 1941, ou seja, mais de um ano após o fim da Exposição. De todo este complexo de edifícios, pouco chegou aos dias de hoje, como os pavilhões mais próximos do rio, e com carácter mais definitivo, o restaurante e o actual Museu de Arte Popular.

No mesmo local, foi refeito em pedra, o Padrão dos Descobrimentos que Cottinelli Telmo e Leopoldo de Almeida ali tinham erguido.

O local da Exposição foi da escolha de Duarte Pacheco que optou pela criação de uma grande praça em frente aos Jerónimos, como centro do evento. Foi assim que nasceu a Praça do Império.

Em torno da Praça do Império, dividia-se a Exposição em quatro grandes núcleos. O da exposição histórica propriamente dita, que ocupava toda a zona central e que tinha por limite norte os Jerónimos e se prolongava até ao Tejo e, com uma certa autonomia, o núcleo das aldeias portuguesas, quase escondido por detrás do Pavilhão dos Portugueses no Mundo, nos terrenos onde actualmente se encontra o Centro Cultural de Belém, e o núcleo da secção colonial, nos terrenos do actual Jardim do Ultramar. Já relativamente marginal, situava-se o chamado Parque de Diversões, cujo acesso era feito pelo sitio onde actualmente existe o Museu de Marinha.

A única representação estrangeira do conjunto era o edifício do Pavilhão do Brasil, cujos interiores da autoria do arqtº. Roberto Lacombe tiveram a sua construção em Portugal orientada pelo arqtº. Flávio Berbosa.

Discutida foi a questão da relação ideológica artista/obra, reconhecendo-se por vezes não haver ligação ideológica entre autor e obra produzida, criticados por não se encontrarem cem por cento afectos ao regime alguns deles, ao que António Ferro respondeu perguntando: "Quem vai hoje fazer um inquérito sobre as opiniões políticas dos operários, dos arquitectos, dos pintores, dos escultores que construíram a Exposição do Mundo Português? A obra no seu conjunto foi uma obra nacional. Mais ainda, nacionalista". (Medina, João, História Contemporânea de Portugal, vol. II, pg. 296).

As Aldeias Portuguesas da responsabilidade do Secretariado de Propaganda Nacional, procuravam ter uma visão do conjunto de Portugal do seu ruralismo, dos seus intimismos serranos, das suas praias e ribas de paisagem, de águas, dos seus montes e das suas planícies, da sua gente, do seu povo, da sua maneira de ser, de sentir, de viver.

Se os núcleos das aldeias portuguesas se basearam numa gramática formal facilmente referenciável e onde a encenação se sobrepôs por completo a qualquer concepção ou ideia de arquitectura, nos pavilhões principais encontravam-se desde algumas formas modernas, à utilização dos mais arcaicos e conservadores simbolismos de raiz histórica.

Na Exposição do Mundo Português trabalharam 5000 operários, 15 engenheiros, 17 arquitectos, 43 pintores-decoradores, 129 auxiliares, mais de 1000 modeladores-estucadores, sob a direcção de 7 chefes.

Pedro Pereira

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