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Quinta-feira 16 de Agosto de 2018  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

X – HISTÓRIAS DE ENCANTAR - A MÃE DA DESGRAÇA

13-04-2018 - Pedro Pereira

O Gervásio Balbino acordou estremunhado, atormentado por uma aguda e latejante dor de cabeça que lhe tornava difícil abrir bem os olhos na penumbra do quarto.

Havia tido uma noite aziaga, dormido pouco e em sobressalto, dado os uivos sibilantes do vento forte vindo do mar próximo mesmo em frente, rasgando as portadas de madeira que mal protegiam a janela.

Vestiu-se atabalhoadamente depois da rotina da higiene matinal e entrou no primeiro café que lhe ficava mesmo à mão de semear; ao virar da esquina.

Acercou-se do balcão e ficou e ficou a observar uma criatura rombo cúbica vestida com umas calças de ganga coçadas, que a aferir pelas suas dimensões volumétricas deviam de ter sido adquiridas no pronto-a-vestir para elefantes do Jardim Zoológico.

Displicentemente, depois de bambolear ronceiramente o descomunal traseiro umas quantas vezes, fazendo ranger o estrado ao longo da parte de trás do balcão à procura de qualquer coisa que aparentemente não encontrou, a empregada da locanda parou finalmente, arfando, em frente ao senhor Balbino, único freguês à vista. Sem abrir a boca, a criatura abanou a cabeça de baixo para cima num único gesto, não tugindo nem mugindo.

Quem não soubesse podia pensar que a matrafona padecia de qualquer mal no pescoço, ou que fosse um tique nervoso mal esgalhado, no entanto como já estava habituado a observar esse “tique” em muitos atendedores de balcão quando abordavam os clientes, não estranhou, respondendo-lhe igualmente com igual “tique”.

Oscilando as banhas como um leão (neste caso, leoa) marinho, de má catadura, a harpia dignou-se, enfim, botar faladura com voz avinagrada:

- O que quer?...

- Traga-me um café e uma garrafa de água, se faz favor.

A criatura trouxe o café, mas “esqueceu-se” da garrafa de água, virando as costas ao Balbino. Este, com ar patético, engolindo em seco, de dedo indicador espetado no ar, perguntou-lhe timidamente com um fio de voz:

- E a garrafa de água?...

Não obteve resposta, notando que o comportamento do mastodonte era idêntico para com todos os clientes que iam chegando.

Deve de estar a sofrer com alguma menstruação dolorosa, reflectiu Gervásio, condoído, deixando uma moeda de um euro em cima do balcão e saindo da locanda com sede.

Entrou dentro do carro e ala que se faz tarde. Tinha uma longa viagem de muitas centenas de quilómetros para fazer nesse dia, mas antes decidiu para sua segurança substituir dois pneus carecas, tarefa que urgia fazer desde há uns tempos.

Começou a procurar oficinas onde realizassem a tarefa, mas todas elas se recusaram a executar o trabalho de imediato alegando que só o faziam com marcação prévia.

Por fim, entrou em mais uma oficina na qual se encontrava uma única viatura em volta da qual se afanava denodadamente a montar um pneu um valente mocetão trajado de fato-macaco encardido, de tal ordem emporcalhado que não se divisava a cor original.

A olhar para o rapazola revirando os olhos bovinos, de palito entalado entre os dentes com grande mestria e ar de especialista em montador de pneus em todos os chaços, estava pespegada uma imponente barriga, antes, um impante barrigão que se espetava orgulhosamente (muito investimento estava naquele pote de enxundias…) sutentado numas pernas arqueadas.

Encimava esse colosso, um carão vermelhusco com um boné amarfanhado no cocuruto. Era ele o patrão.

Cumprimentando, Gervásio perguntou-lhe quanto custava e se podia montar em seguida os pneus que o seu carro necessitava.

A criatura respondeu-lhe a rir como um asno sem tirar o palito de entre os dentes (um feito artístico notável, sem dúvida):

- Montar, monto, mas só um de cada vez, percebe-me?... ahahahahahaha!...

Face à resposta do avatar “oficinal”, que Balbino considerou de muito mau gosto, meteu-se no carro, fez-se à estrada e decidiu que o melhor era regressar a casa, cancelar as tarefas desse dia e tentar por o sono em dia, que a noite passada não lhe havia permitido.

A manhã estava a correr mal, logo não se auspiciava um dia bom. Aliás, o destino ou lá que raio era, estava a enviar-lhe sinais, por isso só tinha que os saber interpretar.

Meteu a chave na fechadura de casa e subiu o lance de escadas que conduzia ao quarto de dormir. Abriu a porta e na penumbra divisou estirada por cima dos lençóis completamente nua, rechonchuda, reluzente, dengosa… a mãe da sua desgraça, que lhe disse sussurrando com voz de cama:

- Não esperavas esta surpresa, heim? – Deita-te entre os meus braços e esquece o mundo lá fora.

Pedro Pereira

 

 

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