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EVOCAÇÃO DO DIA 25 DE ABRIL

06-04-2018 - Cátia Vanessa

O dia 25 de Abril de 1974 foi um acto de ressurreição e simultaneamente de redenção. Ressurreição, porque representou o ressurgimento da Nação portuguesa, a passagem de um longo período de trevas – das mais negras da sua História – para a luz do dia. A passagem de um sistema político totalitário, de uma ditadura para um sistema aberto, de liberdades democráticas.

Redenção, porque foi a mesma estrutura formal que em 28 de Maio de 1926 instaurou uma ditadura militar que abriu caminho ao Estado Novo salazarista, que acabou com o regime do qual foram progenitores: as forças armadas.

A passagem de um regime autocrático, fechado, proteccionista, para um regime aberto em que o povo reconquistou a voz, haveria necessariamente de causar – como causou – sérias convulsões na sociedade portuguesa, tanto mais agravadas quanto alguns importantes sectores da sociedade se sentiram do estado de orfandade em que haviam caído, ou seja, todos quantos beneficiavam (e beneficiaram) com a ditadura.

O regime era pai, protector, mas autoritário, porque os filhos só faziam aquilo que o pai deixava ou queria que eles fizessem. A falta de liberdade nos seus múltiplos aspectos: censura, cerceamento das liberdades cívicas, de criação intelectual e artística e até empresarial com os seus limites bem definidos, transmitiam contraditoriamente um forte sentimento de segurança, no sentido em que a sociedade, a vivência do quotidiano de aparentava imutável.

Será com a morte do pai do regime – Salazar – que a paz podre vai estilhaçar.

O seu sucessor, Marcelo Caetano, um intelectual de uma geração mais nova, com menos pulso que o seu antecessor, não foi capaz de aguentar a nau tormentosa em que Portugal se havia tornado, agravada por uma crise económica mundial iniciada em 1973, nem tão pouco compreender ou ter tido a coragem de empreender as reformas profundas que urgiam ser feitas.

O regime estava velho, caduco, tal como os seus chefes, mas quem dava o corpo por eles, pelo regime, eram os jovens nas três frentes de combate em África (Angola, Moçambique e Guiné).

Aqueles que eram apanhados em fuga ao serviço militar obrigatório, esperava-os, quando eram apanhados pelas autoridades policiais, as unidades militares correccionais - ou campos de concentração - em Elvas ou Penamacor, hoje, propositadamente(?) esquecidos. Os que logravam pôr-se a salvo indo para além dos Pirenéus, escapavam a um destino mais que incerto, nebuloso. Curioso é que vários desses indivíduos (refractários e até os desertores) recebem hoje pensões do Estado por «serviços relevantes prestados à pátria».

E a solução não se vislumbrava. Era uma luta sem brilho nem glória, tão só, triste, amarga, sofrida, envergonhada. Uns quantos milhares de homens tombaram para sempre nas terras do ultramar. Muitos mais regressaram estropiados do corpo e da mente. Quantas mães sem filhos, quantas noivas por casar, quantas viúvas sem marido e quantos filhos sem pai ficaram.

De forma estranha porque era primavera, o velho regime caiu de maduro. Seria mais natural no Outono... A rendição simbólica do regime no Quartel da GNR no Largo do Carmo, em Lisboa, assemelhou-se a um acto de opereta. Cercados por uns quantos militares mal municiados, sem recruta feita, montados em velhas Chaimites, armadas de canhões e metralhadoras obsoletos, os dignitários do regime renderam-se sem muita dignidade – diga-se de passagem - com excepção do seu chefe.

O Estado Novo caía de podre, decrépita. A maior parte dos pides recolhiam à prisão, reclamando-se de vítimas, pois se afinal até “eram todos escriturários e por isso, nunca tinham perseguido nenhum cidadão”, segundo diziam muitos deles!...

No Ultramar, as tropas recusavam-se a combater sem objectivos. As que estavam na metrópole furtavam-se a rendê-las. Depois, foi a «descolonização exemplar» que se sabe: um desastre, quer para os descolonizados, quer para os descolonizadores.

Quarenta e quatro anos se passaram. Muitas personagens a quem Salazar ou Caetano não reconheceriam competência sequer para lhes apertarem os atacadores das botas, são hoje “dignitários” do regime dito “democrático”; membros de governos, presidentes de autarquias, etc., etc.

Os capitães de Abril acabaram na sua maior parte triturados pela engrenagem da História. Vários pides famosos, com o tempo viram reconhecidos - e até foram recompensados - pelos governos do novo regime, com base na sua destacada actividade profissional no Estado Novo, de que é exemplo um ex-inspector que, de acordo com o noticiado no jornal Público de 16 de Abril de 1992 (entre outras notícias de semelhante teor) passou a receber uma pensão por «serviços excepcionais e relevantes prestados ao país» (sic). Enquanto o mais lídimo e puro representante dos capitães e dos ideais de Abril (Salgueiro Maia), pouco antes do seu falecimento viu ser-lhe negada essa justa distinção pelo governo capitaneado por uma das mais sinistras e medonhas figuras políticas produzidas pela “democracia”; Cavaco da Silva.

Porém, um facto é certo: nada voltará a ser como antes. O Portugal de hoje não é mais o de ontem, este é um país atascado numa crise profunda, social, económica, política e de valores onde campeia a venalidade, a subversão de valores fundamentais, a falta de ética, e onde a corrupção é uma forma de ser e de estar por banda de grande parte das classes dirigentes políticas, calamidade que a sociedade encara assim a modos como que uma fatalidade.

O Portugal dos tempos que correm é um país com enormes assimetrias sociais, mais profundas que em 1974, onde existe uma classe de novos-ricos muito mais numerosa que nos tempos da ditadura e uma classe de pobres igualmente muito maior, sendo que os que se encontram no meio – a classe média - caminham a passos largos para o lugar da segunda.

A liberdade de expressão e de escrita estão a caminho dos índices de repressão que vigoravam em 1974. Enquanto até essa data existia a censura prévia oficial, hoje, existem outras formas de censura, encapotadas, mais sofisticadas… com ameaças de processos judiciais e desemprego em nome da “democracia”. Que o digam os jornalistas honestos, por exemplo.

O golpe de Estado militar de 25 de Abril de 1974, assemelha-se de certo modo – mau grado as comparações - ao golpe militar de 28 de Maio de 1926, porque, tal como então, o golpe militar de Abril contou com o apoio das classes sociais intermédias e até da classe operária; operários industriais e assalariados agrícolas.

Foi um movimento eivado de equívocos e é nesse sentido que se explica que a ele tenha aderido muita gente, de boa fé, que lenta e gradualmente nos tempos que se seguiram se irá afastar ou ser afastada da tomada do poder pelos sucessivos governos.

Porém, a História se encarregará de enaltecer os seus heróis, enquanto que os nomes de todos os políticos (e políticas) de pacotilha e quejandos que vem pululado desde então por aí engordando os seus pecúlios, acabarão irremediavelmente diluídos no limbo dos tempos vindouros e deles nada mais restará nos manuais de história após o demo os levar, do que umas nódoas negras sebosas atrapalhando a leitura.

Cátia Vanessa

 

 

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