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ÉTICA OU PARVOÍCE

30-03-2018 - Henrique Pratas

Ao pensar num motivo para partilhar episódios que ocorreram na minha vida, lembrei-me de um que é particularmente peculiar entre muitos outros que me aconteceram na minha vida.

Estávamos no ano de 1977, entrada para a Faculdade de Economia em Lisboa, mais propriamente designada por nós, como simplesmente Económicas. A minha sala de aulas era no que designávamos por catacumbas. Eram umas salas de aulas que ficavam por baixo do bar, onde descíamos umas escadas que não tinham fim e as condições para estar atentos e em condições mínimas para podermos aprender o que os professores tinham para nos ensinar não reuniam as condições mínimas exigidas, mas era o que tínhamos e a vontade de fazer o curso era muita e sujeitávamo-nos a tudo, até à falta de condições.

No primeiro dia de aulas lá estava eu mais um “amigo” meu na sala de aulas, ao tempo formavam-se grupos e o processo de aprendizagem desenvolvia-se em grupos. As aulas começavam às 8 horas da manhã e eu lá estava com o meu “amigo” que nos conhecíamos há muito tempo há espera que o professor chegasse e falarmos com os outros companheiros de curso para ver quem se encaixava melhor no nosso grupo, eis que vejo no fundo do corredor avançar um senhor de uma respeitável idade acompanhando a sua filha, fiquei expectante e admirado, pois mais nenhum pai tinha acompanhado os filhos à sala de aulas no primeiro dia. Fiquei atento e com a curiosidade própria de ver o que se iria passar. O senhor entra na sala de aulas e dirige-se a mim e pergunta-me se a sua filha poderia ficar no meu grupo, eu não conhecia o senhor de lado nenhum, mas como não tenho ideias preconcebidas ou quaisquer tipo de preconceitos, respondi-lhe imediatamente que sim, mas com a interrogação na minha cabeça porque é que ele se dirigiu a mim e não aos meus companheiros de curso que se encontravam na sala de aulas, achei muito estranho, mas ao longo da minha vida tenho-me apercebido que podem estar milhares de pessoas mas se aparece alguém a pedir alguma coisa, um esclarecimento ou qualquer outro tipo de informação é a mim que se dirige, será sina, como o povo diz, não sei mas que é verdade é, em futuros textos descrever-vos-ei, outros episódios, mas eu questiono sempre mas porquê a mim, ainda não encontrei resposta para esta minha interrogação.

Bem a filha lá integrou o nosso grupo que era composto por quatro (4) pessoas porque assim o entendi tudo o que fosse mais do que este número já era muita confusão, assumo-o agora como o assumi na altura. O primeiro decorreu de uma forma normal, tendo ocorrido um outro incidente que vos dou conta. A uma cadeira que se designava por “Teoria Geral das Formações Sociais” e a “Métodos Matemáticos” tínhamos dois professores um homem e uma senhora, bem interessante, que tinha ficado em segundo lugar num concurso a Miss Portugal e que trabalhava no São Carlos. O primeiro devido às minhas intervenções na sala de aulas discordando quando tinha que discordar no final do ano queria dar-me 15 valores a mim e ao restante do grupo 13 valores e eu dentro dos meus valores, respondi-lhe imediatamente, em frações de segundo, que ao dava 15 a todos ou 13 valores, também a todos. Já nesta altura era parvo, mas fiel aos meus princípios e valores que incutiram, se fosse hoje voltaria a fazer tudo da mesma forma. Para melhor entenderem o conteúdo da disciplina e das matérias ela tinha muito a ver com a área da Ciência Politica e das diferentes formulações dos grandes pensadores políticos e filósofos, eu nesta matéria já tinha algum avanço, porque desde muito cedo me interessava por estas matérias e já tinha lido muitos autores consagrados outros não tanto mas sabia da poda e quando o professor dizia alguma coisa que eu não estava de acordo, lá estava eu em cima, para lhe dar nos machinhos, mesmo que faltasse 5 minutos para a aula acabar, era e sempre fui muito interventivo, defendia os meus pontos de vista e as minhas opiniões sem qualquer tipo de subserviência ou de ideia preconcebida, sempre pensei em ser um Homem Livre e nunca desisti dessa ideia, é certo que as faturas que tenho pago têm sido muito caras mas mantenho-me fiel aos meus valores e princípios.

No que concerne à professora de “ Métodos Matemáticos” era queria dar-me 19 valores, mas para isso teria que fazer uma discussão com ela, ora isto acontecia em pleno pico do Verão fazia calor e na altura a mim só me apetecia praia, quando ela me disse que me dava 15 valores, mas se eu quisesse poder-me-ia dar 19 valores, só que teria que fazer um prova oral com ela, também a minha resposta não se fez esperar, apesar de a senhora ser muito tentadora, de imediato lhe respondi que naquela altura do ano só queria era praia e que o 15 me ficava muito bem, porque sempre pensei, mal, que não são as notas que os professores nos atribuem que definem que somos bons ou maus alunos, nunca andei atrás de nenhum professor a “chorar” as notas que foram dadas, hoje reconheço que as coisas não são bem assim, porque a sociedade evolui de uma forma diferente do que eu pensava, pois conhecia muitos alunos que tinham terminado os cursos com médias baixas, mas que em termos profissionais eram muito competentes e continuo a achar que uma coisa não tem nada a ver com a outra, quero eu dizer ter notas altas não quer dizer que em termos profissionais ou académicos essas pessoas venham a ser grandes profissionais, porque a atribuição de notas em muitos casos são muito subjetivas. Conheço muitos casos de alunos, particularmente em Medicina, que terminaram o curso com médias que não ultrapassam os 13 valores, só que em termos do exercício profissional são excelentes profissionais e muito competentes, este foi mais um estigma que a sociedade criou, boas notas igual a excelente aluno, isto é uma falácia e há-de continuar a ser enquanto não se alterarem os critérios de avaliação entrando com a componente de orientação profissional, existem pessoas que têm boas notas e quando são colocados em posições de chefia nunca chegam ou os colocam num lugar de decisão não são capazes de tomar decisões ou decidir o que quer que seja porque nunca viveram a vida.

Mas voltando ao meu episódio, lá passámos para o 2.º ano e os grupos mantiveram-se e eu comecei a ganhar alguma afeto pela minha colega que o pai tinha acompanhado até à sala de aulas, mas como o meu “amigo” me disse um dia que tinha um sentimento especial por ela, eu dei um passo à retaguarda porque gosto muito de respeitar o espaço dos outros. Só que eu pensava que ele era meu “amigo” e mais tarde vi a ter a certeza de que era mais um conhecido do que outra coisa, como lhes disse eu afastei-me mas como a “oferta” era muita orientei as minhas opções para outra área que foram arranjei uma colega de curso que já possuía viatura e vi ali uma janela de oportunidade para deixar de andar de transportes públicos. Ela ia-me buscar e por a casa, que mais queria eu, naquela altura sentia-me um privilegiado. Relativamente à minha colega de grupo e outras raparigas quando souberam que eu tinha feito esta opção, muitas deixaram de me falar, e eu nunca me tinha apercebido que tinha assim tanta procura, mas um homem nunca conseguirá entender uma mulher, é uma coisa completamente fora do nosso alcance. O meu “amigo” que nunca acabou o curso porque fez uma outra opção que foi começar a trabalhar e teve muitos bons empregos, iludiu-se com o dinheiro e as mordomias que lhe foram dadas, nunca chegou a fazer nada, tentou também fazer Direito, mas nada, o dinheiro falava mais alto, até que um belo dia num almoço que fizemos os dois ele volta-se para mim e diz-me para eu daí para a frente, se não me importasse, o tratar por Dr., fico estarrecido não esperava isso vindo dele, a partir dessa data nunca mais lhe falei, porque não queria participar numa farsa, mais tarde na sessão de encerramento do curso de Direito da Lusíada do seu filho, lá aparecia o nome dele precedido do título académico como palestrante no final do curso académico. Aí quase que vomitei e fiquei perfeitamente enojado com o que se estava a passar, os Relvas e quejantes não são só de agora, já existem há muito tempo como podem verificar e o interesse que o meu suposto amigo tinha pela minha colega desvaneceu-se, porque ele só pensava no vil metal e veio a casar com uma filha única, bem abastada e até se sujeitou a viver no mesmo apartamento com a sogra.

O intuito deste meu texto é demonstra-vos o outro lado de algumas pessoas, que nós nunca conhecemos, ontem o Presidente da República apelou a que os detentores públicos ou políticos praticassem mais voluntariado, em meu entender para além de ser mais uma imiscuição do Presidente da República no poder politico encaro-o como um recado a essas personagens para não pensarem tanto no seu umbigo e olharem mais para a gestão da coisa pública, pois alguns deles só se encontram no exercício de cargos políticos porque não sabem fazer rigorosamente mais nada e estes cargos caíram-lhes do Céu, por terem pertencido às diferentes Juventudes partidárias ou por terem exercido as funções de acólitos de alguns candidatos a deputados, com a possibilidade de virem a ser Primeiros-Ministros, Ministros ou Secretários de Estado.

O nosso País no que concerne aos detentores de cargos ministeriáveis, cargos públicos ou políticos está cheio, mas cheio, de mação podres.

Henrique Pratas

 

 

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