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Sábado 24 de Fevereiro de 2018  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

Coisas e descoisas do entendimento

09-02-2018 - Pedro Barroso

Já me anda a apetecer pouco ser muito explicativamente lúcido no sentir. Também não poderia. Não é possível, quase diria, comentar a explosão de sensibilidade oculta no borrão de tanta chama.

Perco a vergonha e trepo o vento pelos ramos da árvore proibida. Fujo.

Não há palavras para as palavras que diariamente tento, fugitivas e mergulhadas, a volta das coisas e descoisas do entendimento.

Os poetas maiores são sempre os que não vêm no manual da celebração, porque toda a sua celebração é profunda e esplendidamente interior. Não está no alcance imediato da primeira esquina. Exige argumentos de saber, ternura e atenção. Não colhe maresia e flores campestres em rima de pé quebrado. Fala da raiva do viver e da cortina dos dias; de ter de cavar a terra do preconceito e da mudança. Gritam paixão e de certo modo, angústia de não ser.  

Medo talvez de tudo, afinal, aparentemente, acabar assim.

Porque tudo o que se sonha e nunca se cumpriu deveria ser a alavanca imensa que, fizesse as palavras transcender da semântica; e construir outro mundo melhor, onde, ao invés da norma, apenas nos escandalizasse o bom comportamento sindical das palavras domesticadas. Porque elas são, cada uma, um grito de alma próprio na junção da ideia. Uma pincelada do sentir.  

Há sempre uma luta pelas palavras, em nome de todos os beijos que nunca recebemos. Poesia é isso. A cobrança dos sentimentos não vividos.

Deixemos pois os tristes profissionais, os cinzentos e proxenetas das carpetes cor-de-rosa. Parecem felizes e sempre freneticamente ocupados.  

Mas eles, na sua luzida frivolidade, nada sabem do que nós sabemos que eles não sabem. Palavras encontro esculpidas, bem dignas de integrar outra catedral. Sem valor nem comenda maior q a discreta e quase inútil satisfação de saber q as escrevemos.

E q circulam livres, por aí. Ao arrepio dos donos da opinião, dos mestres tutelares e dos deuses de quotidiano. Valha-nos isso.

Frágil cultura - ingrata lavoura, a das palavras.

Pedro Barroso

 

 

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