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A ARTE DA MANIPULAÇÃO DE MASSAS
01-09-2017 - Álex Grijelmo*
Com a devida vénia transcrevemos (traduzido) este artigo publicado em «El País» no dia 22 deste mês de agosto, dado considerarmos o tema de extrema importância para os tempos que se vivem nos dias que correm.
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As técnicas para mentir e controlar as opiniões aperfeiçoaram-se na era da pós-verdade: nada é mais eficaz que um engano baseado em verdades, ou subtilmente envolto nelas.
A era da pós-verdade é, na realidade, a era do engano e da mentira, porém, a novidade que a associação a esse neologismo consiste na massificação das falsas crenças e na facilidade com que os furúnculos prosperam.
A mentira deve ter uma alta percentagem de verdade para resultar mais credível. E uma maior eficácia alcançará ainda a mentira que seja composta a cem por cento por uma verdade. Parece uma contradição, mas não o é.
Analisaremos em seguida como é que isso pode ocorrer
A pós mentira
Os que se manifestam à margem da tese dominante recebem uma desqualificação ofensiva que atua como aviso para outros navegadores.
Hoje em dia tudo é verificável, e, portanto, não é fácil mentir.
Sem dúvida, essa dificuldade pode ser superada com dois elementos básicos: a insistência na mentira falsa, pese os desmentidos fiáveis; e a desqualificação dos que a contradizem. A isto une-se um terceiro fator: milhões de pessoas tem prescindido dos intermediários, de garantias (previamente desprestigiados pelos mentirosos) e não se informam pelos meios de comunicação rigorosos, mas sim diretamente nas fontes manipuladoras (cíber páginas afins e determinados perfis nas redes sociais).
Assim se conforma a era da pós-mentira.
Deste modo, milhões de estadunidenses acreditaram numa comprovada falsidade com a afirmação de Donald Trump de que Barak Obama é um muçulmano nascido no estrangeiro e milhões de britânicos estavam convencidos de que com o Brexit o Serviço Nacional de Saúde dispunha de 350 milhões de libras adicionais por semana (432 milhões de euros). A tecnologia permite hoje manipular digitalmente qualquer documento (incluindo imagens) e isso avaliza que se apresentem como suspeitos aqueles que reagem com certos dados perante as mentiras, porque as suas provas não têm um valor notarial. A isso se soma a perda de independência dos meios de informação com a crise económica.
O numero de jornalistas foi reduzido quer em relação aos leitores, mas também os proprietários e os anunciantes.
Além do mais, em certos casos utilizam técnicas sensacionalistas para obter postagens nas redes sociais, que redundam na sua menor credibilidade.
Com tudo isto, chegou-se à situação paradoxal de que as pessoas já não acreditam em nada e são capazes de acreditar em qualquer coisa.
Muitos periódico dos Estados Unidos tem verificado que dezenas de falsidades tem sido difundidas pelo presidente Trump (em janeiro já levava 99 mentiras segundo o New York Times), porém isso não os desmotivou. E a imprensa britânica, pela sua parte, desmontou os enganos dos que propugnavam a saída da EU, porém isso não desanimou os milhões de votantes.
A pós verdade
A mentira é sempre arriscada e requer meios muito potentes para se sustentar. Por isso costumam resultar mais eficazes as técnicas do silêncio: emite uma parte comprovável da mensagem, porém não omite outra igualmente verdadeira. Eis aqui alguns exemplos:
A insinuação.
Não faz falta usar dados falsos. Basta como sugeri-los. Na insinuação, as palavras ou as imagens expressas detém-se num ponto, porém as conclusões que se extraem delas inevitavelmente, vão muito mais além.
Sem dúvida, o emissor poderá escudar-se em que só diz o que diz e que só mostrou o que mostrou. A principal técnica da insinuação nos meios informativos parte das justaposições: quer dizer, uma ideia situada junto a outra sem que se explicite relação sintática ou semântica entre ambas. Porém a sua continuidade obriga o leitor a fazer uma dedução vinculativa.
Isto sucedeu em 4 de outubro de 2016 quando Iván Cuéllar, o guarda-redes do Sporting de Gijón, saía do autocarro da equipa para jogar no estádio de Riazor. Recebido por apitos dos adeptos da equipa adversária. Cuéllar deteve-se e olhou fixamente para os adeptos. A Câmara só o focava a ele e isso fez deduzir uma atitude de provocação ante os assobios.
E, como tal, foi apresentado num vídeo de um meio de informação das Astúrias. Desta forma, dois fatos justapostos foram mostrados: os aficionados rivais e o jogador que olhava para os fãs. Logo veio a acusação de que Cuéllar foi um provocador irresponsável.
Houve algo que aquelas imagens não mostraram: entre os aficionados havia quem hovesse sofrido um ataque epilético e isso chamou a atenção do goleiro do Sporting que olhou fixamente para ver se o fã estava sendo atendido (pelo próprio serviço médico do clube). Uma vez que verificou que assim sucedia, seguiu o seu caminho. Tanto a presença dos fãs como os seus apitos e o olhar do futebolista foram verdadeiros. No entanto. A mensagem foi alterada – e, portanto, a realidade percebida – ao justapô-los roubando um facto relevante.
O pressuposto e o entendimento.
O pressuposto e o sublinhado compartilham alguns traços, e são baseados em dar algo claro sem questioná-lo. Por exemplo, no conflito catalão o pressuposto foi estendido que votar é sempre bom. No entanto essa afirmação não pode ser universal uma vez que não se aceitaria que o governo espanhol quisesse colocar as urnas para que os seus cidadãos votassem se desejassem ou não a escravatura.
Só o facto de admitir essa possibilidade já seria inconstitucional, por muito que a resposta se esperasse negativa. Primeiro haveria que modificar a Constituição para permitir a escravatura, e então já se podia votar sobre isso. Portanto criou-se o pressuposto de que votar é sempre bom, quando a validade da consulta está ligada à legitimidade e à legalidade democrática submetida à votação.
Por vezes os subentendidos surgem a partir de antecedentes que, reunindo todos os requisitos de veracidade, projetam-se sobre as circunstâncias que só parcialmente coincidem com eles. Por exemplo, nos denominados papéis do Panamá foram denunciados casos verídicos de ocultação fiscal. Uma vez expostos os casos reais e criadas as condições para a sua condenação social, foram adicionados à lista outros nomes sem relação com a ilegalidade; porém, o subentendido transformou a frase “tem uma conta no Panamá” numa figura de delito que contribuiu para criar um estado geral de opinião falsa. Não é delito fazer negócios no Panamá e abrir contas por lá; porém, se isso não se expressa com essa frase suspeita, o legal converte-se em condenável por via do pressuposto.
A falta de contexto
A falta de contexto adequado manipula os factos. Assim sucedeu quando o deputado independentista catalão Lluís Llarch recebeu ataques injustos por umas declarações sobre o Senegal. Em 9 de setembro de 2015, um jornal de Barcelona colocava o seguinte título, posto na boca do ex cantautor: “Si la opción del sí a la independencia no es mayoritaria, me voy a Senegal”.
De tal se podia deduzir que ir ao Senegal era assim como que um ato de desespero (e uma ofensa para aquele país africano). Desse modo o interpretaram alguns colunistas e centenas de comentários publicados sobre essa informação. No entanto, esta havia omitido um contexto relevante: Llarch criou anos antes uma fundação humanitária para ajudar o Senegal, e, portanto, longe de expressar desprezo as suas palavras, mostrava o seu desejo de voltar-se para essa atividade se o seu empenho político fracassasse.
Essa falta de dados de contexto pode-se incluir na omissão cada vez mais habitual das versões e opiniões – que deveriam ser recolhidas com neutralidade e honra – das pessoas atacadas por via de uma notícia ou opinião.
Inversão da relevância
Os beneficiários da era dos pós-verdade nem sempre dispõem de factos relevantes para com eles atacar os seus adversários. Por isso, frequentemente socorrem-se de aspetos muito secundários… que convertem em relevantes. Os costumes sociais, as roupas, o penteado, o caráter de uma pessoa e o seu contexto particular, um detalhe menor de um livro ou de um artigo ou de uma obra (como o caso das marionetes em Madrid) … adquirem um valor crucial na comunicação pública, em detrimento do conjunto e das atividades de verdadeiro interesse geral e social. Desse modo, o opinável, o subjetivo sobre esses aspetos secundários apresenta-se então como noticiosos e objetivo. E, portanto, relevante.
A pós-censura
Até aqui analisaram-se sumariamente (por razões de espaço e de lógica jornalística) as técnicas da pós-mentira e da pós-verdade. Porém, os efeitos perniciosos de ambas recebem o impulso da pós-censura, segundo é retratado e definido por Juan Soto Ivars en Arden nas redes (Debate, 2017).
Neste novo mundo de pós-censura, quem se manifesta à margem da tese dominante receberá uma desqualificação muito ofensiva que atua como aviso para outros navegadores. Assim a censura já não é exercida pelo governo nem pelo poder económico, mas sim por dezenas de milhar de cidadãos que não toleram uma ideia discrepante, que se realimentam entre si, que são capazes de linchar quem em seu juízo atenta contra o que eles consideram incontroverso e que exercem o seu papel de turbamulta incluindo sem saber muito bem o que estão a criticar.
Soto Ivars detalha alguns casos espinhosos. Por exemplo, o espancamento verbal sofrido pelos escritores Hernán Migoya e María Frisa a partir de expressões diversas daquelas que os seus personagens de ficção expressaram, diferentes com o que pensava o respetivo criador e que foram secundadas de imediato por uma multidão endogâmica de seguidores que apontaram o bombardeamento sem comprovação alguma. O mesmo fizeram alguns jornalistas que, para não ficarem fora da corrente dominante, recorreram sem mais delongas às redes e manipulação escandalosa, branqueando assim a mercadoria avariada.
Esta inquisição popular contribui para formar uma espiral de silêncio (como a definiu Elisabeth Noelle Neumann em 1972) que acaba criando uma aparência de realidade e de maioria cujo fim consiste em expulsar do debate as posições minoritárias. Nesse processo as pessoas dão-se conta de que é arriscado sustentar algumas opiniões e desistem de as defender para maior glória da pós-verdade e da censura. Desta forma de encerra o círculo da manipulação.
*Álex Grijelmo é autor de “La información del silencio. Cómo se miente contando hechos verdadeiros”, (Taurus, 2012).
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