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Martins da Cruz compara José Eduardo dos Santos a Mandela

25-08-2017 - Leonor Riso e Alexandre R. Malhado

O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e observador internacional em Luanda considera que o processo eleitoral "tem sido impecável". Francisco Louçã, conselheiro de Estado, crê que João Lourenço tem uma escolha.

"Evolução na continuidade". Era este o lema da Primavera Marcelista e, agora, a que pode acontecer em Angola. Hoje vivem-se as primeiras eleições, desde 1979, em que José Eduardo dos Santos não integra as listas de candidatos. Pelo MPLA, o partido no poder desde a independência, concorre o general João Lourenço - para muitos, o provável vencedor.

Martins da Cruz, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, é um dos observadores internacionais das eleições no terreno. Foi convidado pela Comissão Nacional Eleitoral de Angola e à SÁBADO, compara José Eduardo dos Santos a Mandela. "É uma figura presente em Angola há 38 anos. É o mais velho, o que tem muita importância na sociedade africana. José Eduardo dos Santos retirou-se da política activa, mas vai continuar a ser uma referência em Angola tal como Mandela foi uma referência na África do Sul quando se retirou", afirma à SÁBADO. "Mais do que em Angola, na região. Em termos políticos, José Eduardo dos Santos continuará a ser uma referência política tal como Mandela foi na África do Sul."

Apesar desta herança, o novo presidente angolano terá de imprimir o seu ritmo e dinâmica. Segundo Martins da Cruz, que acredita na vitória do MPLA, o general João Lourenço reúne o consenso entre as Forças Armadas e o seu partido (de que foi secretário-geral entre 1998 e 2003). "É uma pessoa muito calma, com profundo conhecimento da política de Angola, muito interessado nas relações externas", caracteriza. "Está muito atento de forma positiva às relações Portugal-Angola."

Enquanto observador, Martins da Cruz considerou que o processo eleitoral "tem sido impecável". "Luanda hoje está tranquila, devido à tolerância de ponto decidida para o dia de amanhã [hoje] muita gente não trabalha", contou. Mas os partidos da oposição lamentaram a falta de credenciação de delegados de lista de cada partido, que fiscalizam a votação. Numa reunião com elementos da oposição, o observador português foi informado que, na Comissão Nacional Eleitoral, só se inscreveram 160 mil dos 300 mil a que os partidos tinham direito. "Não receberam ainda credenciais porque tinham um prazo que terminava na semana passada para se inscreverem no site da Comissão. Como não havia os tais 300 mil, decidiu-se prolongar o prazo até ontem. Garantiram que hoje até as 16 horas todos recebiam as credenciais", afirmou.

Francisco Louçã, membro do Conselho de Estado, crê que as eleições angolanas significam mesmo "o fim do ciclo político de José Eduardo dos Santos, um homem que esteve 38 anos à frente da presidência do país, vencedor da guerra civil e organizador de um gigantesco saque à riqueza de Angola". Caso vença, João Lourenço pode ou "ser um assessor de José Eduardo dos Santos" ou "um presidente com o seu poder próprio". Tem o "poder formal" para essa escolha, considera.

Nesta votação, o descontentamento com o regime está representado por candidatos como "o Justino Pinto de Andrade, que pode ser eleito, militou no MPLA, esteve no Tarrafal muitos anos, e hoje é um dos opositores". "Angola é um país demasiado pobre para tanta riqueza. A riqueza de Angola tem de ser usada para o bem-estar do seu povo", defende.

Bonga, angolano de Kipiri, defende que o candidato do MPLA, João Lourenço, "é como se fosse uma marioneta, não acredito que tenha força suficiente para rebentar com a corrupção e montar a estrutura do MPLA afastando Eduardo dos Santos".

Também acredita que as eleições angolanas não representam nenhuma ruptura com o presidente cessante. "É o homem máximo do MPLA. E o MPLA continua a dirigir Angola, com tudo quanto fizeram ao longo destes anos e que foi conseguido através das iniciativas de Eduardo dos Santos, para proteger a sua elite sociopolítica e principalmente os seus filhos", lamenta.

Sem maioria absoluta, tudo mudaria com a força dos partidos da oposição "para passar a vassoura por cima daquilo tudo, limpando a casa para a gente respirar um bocadinho", considera o músico. Mas no acto eleitoral "as coisas estão de tal maneira viciadas", avisa. Nas últimas eleições, "foi uma roubalheira absoluta, com o beneplácito de muitos que dizem gostar de Angola, e que têm contratos chorudos assinados com o poder".

Enquanto residente no estrangeiro, Bonga não pode votar: "Isso é muito triste. Ficamos limitados nas nossas opiniões porque vivemos em países onde há democracia, liberdade, paz, harmonia, mas em relação ao nosso país de origem não somos tidos nem achados, o que é muitíssimo triste."

No geral, passando pela saúde, pela educação, e pela distribuição da riqueza, "há tanto negativo no passado recente que estas eleições deviam ser uma viragem total", deseja.

José Eduardo dos Santos "deixa uma herança muito complicada porque os angolanos estão muito divididos uns com os outros". "Deixa um povo dividido para o futuro. Como é que vamos construir a nossa terra?", questiona o músico. "Eu não quero ver Angola sofrer."

Fonte: Sabado.pt

 

 

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