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Sábado 24 de Fevereiro de 2018  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

SUNITAS E XIITAS - AS GRANDES DIVISÕES
Parte 3

02-06-2017 - Jorge Duarte

Mas a nacionalização do Suez por Nasser, o seu socialismo, laicismo e pan-arabismo que o notabilizaram, não foram suficientes para a transcendente humilhação da derrota na guerra dos seis dias (1967) contra Israel, que fez desaparecer toda a força aérea egípcia em duas horas, os aliados egípcios: Jordânia, Síria e Iraque numa tarde e a ocupação de Jerusalém, Sinai, Cisjordânia e montes Golan nos dias seguintes. Foi o apocalipse. Os judeus que o islão sempre perseguiu e facilmente esmagou em Medina catorze séculos antes, um estado minúsculo com uma população irrisória, torna-se agora num carrasco implacável e invencível e impõe a sua supremacia no Médio Oriente.

Ao momento da sua morte repentina com um ataque cardíaco, Nasser, apenas dois anos depois, seria uma sombra de si mesmo. Há quem diga que até hoje o mundo árabe, não ultrapassou o choque e trauma deste humilhante colapso. Uma sedução também para as motivações fundamentalistas em cujo extremismo encontram algum consolo. Porque esteve Deus do lado do inimigo? Porque o islão estava corrompido; é necessário retornar ao islão puro, concluem os islamitas.

Com Anwar al-Sadat, veio a viragem para os EUA, o estabelecimento da paz com a Irmandade e a libertação dos islamitas. Mas também a guerra de Yom Kippur (1973) com uma semi-vitória. Todavia, essa margem de manobra foi curta e sem satisfação das exigências da Irmandade que se agravou com a prisão de milhares de opositores políticos, religiosos e islamitas. A separação da política da religião tal como a abolição do niqab, foram actos de heresia do presidente face aos fundamentalistas e um convite ao seu assassínio.

As condições do acordo de paz com Israel para a devolução do Sinai foram igualmente intoleráveis e em 6 de Outubro de 1981, Sadat foi assassinado no Cairo por um comando da Irmandade, numa parada durante um desfile militar.

A política igualmente repressiva de Hosni Mubarak não alterou grandemente este quadro, ordenando, de imediato, a prisão de milhares de conspiradores. Durante as décadas de regime repressivo que se seguiram até à Primavera Árabe de 2011 e as manifestações da Praça Tahir, no Cairo, a população egípcia não ultrapassou o estado crónico de atraso não obstante conhecer a partilha opulenta das riquezas do país entre a elite no poder.

O Afeganistão, majestoso e bravio, terra do lápis-lazúli, destino de invasores e porta de entrada para a Índia, é a torrente que fecundou toda a espécie do moderno terrorismo. A invasão soviética no Natal de 1979 motivou o pânico saudita. Acreditava-se que os russos só parariam no Golfo Pérsico e com o controlo das maiores reservas de petróleo do mundo. Milhares de jovens, de Marrocos ao Paquistão responderam ao apelo desesperado de mobilização do carismático xeque Abdullah Azzam. Palestiniano, doutor pela universidade de A-Azhar, místico e palestrante em mesquitas de todo o mundo, exercia o fascínio e a sedução da jihad nos jovens que o escutavam ou ouviam as suas cassetes no momento em que o islão estava a ser atacado. O próprio Bin Laden, salafista convicto, se rendeu também.

O Afeganistão era o destino desses jovens voluntários e dos milhões de dólares da Arábia Saudita e de Bin Laden. Milhares de mujaehidin tornados guerreiros sagrados profissionais. Durante dez anos a combater já nada sabiam dos seus países de origem quando a guerra terminou. Pior, os próprios países já não os queriam de volta. Monarquias, ou repúblicas eram regimes contra os quais o mujaehidin deveria fazer jihad até os derrubar e conquistar o poder. E esta massa errante de jovens apátridas e doutrinados respondendo a vozes de comando organizado foi aparecendo nos diversos palcos onde afloravam conflitos. Paquistão, Caxemira, Kosovo, Bósnia, Chechénia ou guerra civil argelina, são alguns exemplos (hoje, é a Síria a grande escola da jihad e a Europa o seu destino, como o fora antes para os mujaehidin recusados nos seus países).

O xeque Azzam, da Irmandade Muçulmana, integra o grupo fundador da Al-Qaeda e ajuda a fundar o importante movimento de resistência palestiniano Hamas, como continuação da jihad afegã mas desta vez na luta contra a destruição do Estado de Israel. Subsidiário da Irmandade Muçulmana, o Hamas opõe-se à OLP do falecido Yasser Arafat contra o seu laicismo. Nas eleições legislativas de 2006, o Hamas vence com maioria absoluta a Fatah, ligada ao movimento Organização para a Libertação da Palestina, na Faixa de Gaza, separando-se da Cisjordânia. Pré-guerra com a Fatah e guerra com Israel mantêm até hoje o Hamas ainda com o domínio da faixa de Gaza.

O Médio Oriente actual junta as condições das piores pulsões do género humano: a violência, a desigualdade, as lutas étnicas e religiosas, a ganância e a barbárie. São imensas as suas raízes históricas. Não só as divisões sectárias iniciadas no séc. VII como as invasões, o passado colonial, a disputa pelos recursos naturais, as disputas regionais e as disputas globais. Na Primavera Árabe desembocaram as forças eruptivas dessas tensões acumuladas e a Síria é o espelho que reflete a tragédia dessa região em toda a sua magnitude.

Como protagonistas das principais forças em confronto pelo domínio regional encontram-se a Turquia, o Irão, a Arábia Saudita, o Egipto e…Israel. E dentro deste quadro de forças, outros quadros se desenrolam em paralelo.

Genericamente:

Turquia-Irão : Herdeiros de impérios, Otomano e Persa. Nostálgicos desse passado e insubmissos, aspiram ao domínio; a Turquia, laica e sunita como farol do mundo sunita e o Irão como líder dos xiitas.

Irão-Arábia Saudita : Irão como líder dos xiitas e dos países do seu círculo de influência , Iraque, Síria, Líbano e Iémen, possuidor dos lugares sagrados dos xiitas e Arábia Saudita, pretendente a líder das nações sunitas como o Egipto e disseminação da sua escola ultraortodoxa hanbalita/ wahhabita, detendo no seu território os dois locais mais sagrados do islão, Meca e Medina.

Egipto : Com os seus 90 milhões de habitantes e sete mil anos de história mantendo a sua integridade territorial e identidade, impõe a sua cultura a sua inteligência e sede do nacionalismo árabe.

Irão-Israel : ambos protagonizam uma luta pelo domínio regional; Israel com o apoio ocidental e supremacia militar através do nuclear e o Irão na disputa de o possuir também.

Entre estes protagonistas há toda uma rede de velhas ou novas alianças quer regionais quer de potências exteriores que tornam a governabilidade dos estados nos limites do impossível ou, do possível autoritário e repressivo, com extremas vantagens para os governantes e miséria para os governados.

No domínio dos recursos naturais, a região atraía a si, em tempos de “Guerra Fria” a divisão entre as duas potências que a protagonizavam: EUA e União soviética. Acresce agora uma terceira não menos sedenta, a China. Porém, num quadro de ainda maior stress de recursos e de instabilidade.

Um dos maiores motivos de tensão do presente e do futuro diz respeito ao recurso mais importante de todos: a água. A disputa pela fonte da vida sobrepõe-se a todas as outras, agudizando-se com a escassez da produção alimentar e terras férteis e a explosão demográfica que se verifica. É uma das principais disputas entre a Turquia, Israel e Síria sobre a água dos rios.

Mas a segurança e a paz não são negócio. É a oportunidade para explorar, dividir e constituir novas alianças e grandes máquinas militares a pretexto da garantia dessa “segurança” e “paz”. É ver a corrida ao armamento, o aumento da contribuição dos PIB´s nos orçamentos para a defesa e o recém-milionário acordo de fornecimento de equipamento militar dos EUA à Arábia Saudita, negociado por Tramp. Como se o estilhaçar de países como o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e a Síria não nos fossem já suficientes: o Afeganistão pai da al-Qaeda, o Iraque pai do Daesh, a Síria, mãe da Frente Al-Nusra e a Líbia ama do Boko Haram, todas sunitas e sobejamente conhecidas.

Aqui chegados, cabe tecer algumas considerações breves acerca da presente situação da Europa face ao embate com o islão dentro das próprias fronteiras internas com a entrada de milhares de refugiados. Externamente, e historicamente, esse encontro sempre foi violento e deixou marcas profundas na memória dos europeus.

Como por ironia, dá-se agora uma inversão dos acontecimentos, passando de antigos colonizadores a colonizados.

Uma coisa são os fluxos normais das migrações que em todos os tempos aconteceram, outra, é um êxodo bíblico que transporta consigo forças desconhecidas dos europeus no seu próprio espaço, com a chegada de milhões de imigrantes numa torrente contínua e muitos deles radicalizados.

Verdadeiramente, a Europa não estava preparada. Uma Europa que foi durante séculos o farol das ideias, da inovação e dos valores do homem, foi apanhada no seu pior momento de escuridão, de desunião, e incapaz de discernir, honrar o seu passado e assumir responsabillidades. A inaptidão das lideranças, a perda dos valores e da sua identidade fundacional, a descrença e o cepticismo, conjugados com o grave declínio populacional, dão lugar à insegurança e ao medo. Já André Malraux dizia há cinquenta anos que «somos a primeira civilização que não se encontra de acordo consigo própria». Também os eloquentes Humberto Eco ou Michel Houellebecq são assaz acertivos quanto ao desígnio esperado para esta Europa sem valores e em grave declínio populacional.

Islão significa «submissão». Submissão a Alá e às suas leis imutáveis e proféticas estabelecidas no Alcorão e Sunna. Não submissão aos homens, às leis das democracias, aos valores da cultura ocidental, considerados imperfeitos e inválidos porque vindos dos homens. No entanto, não obstante o medo reprimido e os atentados sistemáticos prefere-se fazer uma idealização do islão com o que gostávamos que fosse em vez de o encarar como de facto ele é.

O imigrante traz consigo o seu passado, a sua religião e a sua cultura. E são esses valores, dos quais não abdica, que tudo fará para os continuar a praticar, sem limites nem restrições como no seu lugar de origem.

A verdadeira tolerância deverá assentar, pois, na intolerância da intolerância (nas palavras de Jean Guitton e António Justo). Quando se tolera a intolerância estamos a abdicar do nosso pensar e a condenar os nossos descendentes que, desse pensar de agora, dependem.

E essa é a brecha por onde penetra o islamismo.

Jorge Duarte

 

 

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