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Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

SUNITAS E XIITAS - AS GRANDES DIVISÕES
Parte 2

26-05-2017 - Jorge Duarte

Os sunitas detêm cerca de oitenta e cinco por cento da população umçulmana no mundo, os xiitas, dez por cento e os charijitas, cinco por cento. Mas dentro destas três correntes outros subgrupos se formaram ao longo do tempo, motivados por dissidências no âmbito das violentas disputas pela liderança na sucessão ou interpretação teológica.

O sunismo até ao final do Império Otomano congregava uma relativa unicidade centrada no califa ou, mais propriamente, no sultão que, de Constantinopla, dirigia o imenso império a uma só voz. A extinção do califado após a Primeira Grande Guerra produziu artificialmente países e regimes políticos impostos pelo Ocidente mas também a desejo de ambiciosos líderes umçulmanos, que nada têm a ver com a verdadeira natureza do islão e das suas contradições nem com o tempo necessário para esse processo de clarificação que só dele pode nascer.

Nestas circunstâncias, tal como desde o início, são nas diferentes escolas de interpretação que as lutas se travam e os povos - como os regimes - se antagonizam. São essencialmente quatro as grandes escolas jurídicas no sunismo: hanafita, maliquita, shafita e hanbalita. A grande diferença entre elas reside na interpretação e no estudo das fontes da lei: Alcorão, (livro revelado), sunna (tradição), ijma (consenso), quiyas (raciocínio por analogia) e ra'y (opinião pessoal), consequentes na aplicação da shari'a. A interpretação literal, o raciocínio ou a razão, a inovação, a compatibilização com a modernidade ou a própria noção de jihad são aspectos que se opõem no ensino destas escolas. Não havendo uma figura que represente a autoridade máxima - à semelhança do Papa - esta faz-se a partir da voz do imã da escola predominante em cada país ou região sendo a de Al-Azhar, no Cairo, a mais poderosa e o seu imã a maior autoridade.

No xiismo, não obstante o predomínio de apenas duas principais escolas, a Zaidi e a Já'fari, os grupos e seitas são ou foram imensos já que muitos se extinguiram com o tempo. Assim, são três as principais correntes: os Ismaelitas ou septimames que seguem os sete imames (têm como representante máximo o príncipe Aga Khan que em 2016 estabeleceu em Portugal a sua residência e sede mundial da riquíssima fundação que congrega quinze milhões de fiéis no mundo, especialmente na Índia e oito mil em Portugal); os Duodecimames ortodoxos que seguem os doze imames, sendo o último o Mahdi, que se encontra oculto e descerá à terra para estabelecer a justiça e paz e, até lá, é representado pelo Ayatollah. São quase a totalidade do povo iraniano e maioritários no Iraque. Os Zaydites que seguem apenas os cinco primeiros imames, encontra-se maioritariamente no Iémen.

Dentro destes ramos coexistem subseitas divergentes como os Nizairitas presentes na Índia, os Alauítas minoritários mas que detêm o poder na Síria, os Alevitas que vivem na Turquia (sendo 80% turcos e 20% curdos), os Druzos no sul da Síria (por vezes aliados aos cristãos maronitas), nas montanhas do Líbano e norte de Israel, e ainda os Kurdos Yazîdis no Irão e regiões de Mossul no Iraque e Síria.

O xiismo é, pois, a religião da paixão, do mistério, do martírio, das experiências místicas e exotéricas, especialmente no ismaelismo.

No seio deste nasceu na Pérsia, em 1848, a Fé Babi, conhecida por Fé Bahá'í, que incitava os seus seguidores a libertarem-se da religião islâmica e abraçarem esta nova religião com o messias Bahá'u'lláh. Declarados heréticos e professando uma religião subversiva, os milhares de seguidores foram executados e perseguidos por apostasia e blasfémia e o novo messias fuzilado. Os sobreviventes destas perseguições espalharam-se por todo o mundo, continuando a praticar um culto que aspira à unificação de todas as religiões numa união espiritual de toda a humanidade.

Não sendo uma escola à semelhança das anteriormente referidas, o sufismo (de suf = lã, túnica com a qual se vestiam) é uma corrente mística iniciada nos primórdios do islão e constituída por irmandades onde é praticada a vida simples, a penitência, o arrependimento e a meditação em oposição ao luxo da corte de Bagdad que tão veementemente criticavam. Teve grande desenvolvimento ao ponto de representarem um perigo social e político que levou a perseguições e condenações de líderes. Estas congregações tiveram grande influência na conquista de novos adeptos para a religião nas fronteiras do islão. Com pouco interesse pela filosofia, realizavam trabalho social e missão islâmica mas também participavam em guerras. Ainda hoje elas existem nos vários ramos do islão e têm visibilidade pública até entre nós com os dervixes rodopiantes que ocasionalmente fazem espectáculos públicos. É também uma forma de estabelecerem um primeiro contacto. É nestas ordens ocultas sufistas, designadas de tariqas que nascem, chefiadas por mestres espirituais, os mais finos pensamentos que vão modelando e orientando o islão na sua “inócua” e lenta propagação mundial longe dos media e incompreensíveis às elites intelectuais ocidentais.

Em 641, o segundo califa Umar, ou Omar, começou a expulsar os cristãos e judeus da Arábia acabando estes por se fixar no Iraque, Síria e Palestina. Com eles, uma nova profusão de costumes e influências religiosas. As cidades de Meca e Medina passaram a ficar interditas a não umçulmanos. Na mesma base de que só deverá existir uma só religião na Arábia.

É também no campo teológico que se dão início as posições mais radicais conhecidas no lado sunita (embora elas também existam no lado xiita).

Ahmad Ibn Taimiya (1263-1328), teórico missionário e jurista da escola hanbalita (dominante da Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, conhecida pela interpretação literal do Alcorão e da Sunna e do seu rigor na aplicação da shari'a, os mandamentos imutáveis de Deus) é, ao mesmo tempo, reformista e conservador, tenta conciliar as normas da fé e da razão. Terá incitado à revolta contra a catastrófica invasão Mongol que aniquilou o califado de Bagdad e espalhou o terror a todo o islão. Taimiya, no seu ímpeto purista, denuncia heresias xiitas como o culto dos santos, sufis, descrenças, musica, dança e todas as formas de inovação. Denuncia e ensina o rompimento da autoridade califal para os emires e doutores da lei, os ulemás. Os seus tratados serão os manuais onde se inspiram e remontam os movimentos fundamentalistas islâmicos.

É desta mesma escola rigorosa hanbalita e do reformista e conservador Ibn Taimiya que surge no sèculo XVIII um movimento revivalista do teólogo Muhammad ibn Abd Al-Wahhb. Numa época de declínio do Império Otomano, nos domínios económico, moral e religioso face às influências ocidentais que entravam em força nesse mundo conservador, Al-Wahhab apelava ao regresso às origens da religião das primeiras gerações. Apelava também à perseguição, morte e destruição de santuários, ídolos, violações e espoliações dos desobedientes.

É com este altivo e férreo teólogo que em 1744 o guerreiro Mohamed bin Sa'ud forma um pacto e estabelecem uma teocracia que acaba erigindo em 1932 o reino da Arábia Saudita, onde o Wahhabismo se torna a ideologia da casa Sa'ud até aos dias de hoje. Uma profana aliança entre clérigos e reis, completamente anacrónica no islão e por isso visada por todos os movimentos fundamentalistas que obrigam o poder político à construção de uma fortaleza de segurança e restrições de toda a ordem em seu redor.

Inspirado também neste passado Wahhabita puritano de interpretação literal surge, já no início do século XX, o movimento salafista (de salaf – antepassados pios. Companheiros e seguidores do profecta) que não reconhece outra tradição islâmica além da do tempo do profecta, considerando heréticas todas as restantes escolas.

A acelerada descaracterização da sociedade islâmica pelos valores ocidentais, é um toque a rebate para o regresso ao verdadeiro islão. O sentido de progresso no islão remete-se para o passado, para o tempo da revelação inspirada e praticada pelo profecta e seus companheiros. Diferente da nossa cultura cujo sentido de progresso se orienta para o futuro. Então, sempre que se impõem mudanças, o islão primordial é a solução. Mas agora, numa tentativa de compatibilização com a modernidade e por isso, este movimento salafista constituiu-se essencialmente nos meios universitários e em vários países como a Argélia, Tunísai, Marrocos, Egipto, Síria e outros. Porém, em confronto com os valores da cultura ocidental que despreza. Tornou-se também a base de muitos partidos políticos de ideologia religiosa e da criação de uma frente pan-islâmica em cujos ideais e segundo os mais radicais neo-salafistas culminará com a edificação de um Estado Islâmico e restauração do califado, única condição para a derrota do Ocidente como firmemente crêem.

Em 1867, forma-se mais um movimento chamado Deobanditas, na Índia, como meio de preservação dos ensinamentos islâmicos nessa colónia britânica. A criação de escolas de ensino e formação de imãs espalham-se rapidamente por toda a Índia – e actual Paquistão -, com milhares de madrassas, até às fronteiras do Afeganistão. Destas madrassas saíram os famosos estudantes de teologia, os talibãs, que combateram com os mujaehidin ( Guerreiros sagrados) os invasores soviéticos de 1979 a 1989, e depois ocuparam o poder no Afeganistão, liderados pelo supremo líder Mullah Omar que conduziu a sociedade até à época medieval.

A construção dessas madrassas implicou meios de financiamento incomensuráveis, financiados pelos Wahhabitas sauditas tal como o são hoje a construção de milhares de escolas e mesquitas por todo o mundo com o objectivo de financiar a formação de imãs e a propagação e domínio hegemónico dessa ideologia dentro do universo sunita na islamização do mundo.

Igualmente, como reacção a uma ocupação estrangeira que provoca a erosão das estruturas políticas, económicas e sociais do mundo umçulmano, foi criada em 1928, por Hassan Al-Banna, no Egipto, a Sociedade dos Irmãos Umçulmanos, mais conhecida por Irmandade Umçulmana, que se encontrava colonizado e ocupado militarmente pelos britânicos para garantir a segurança no canal de Suez e a elevada dívida externa à Grã-Bretanha e França do estado egípcio, falido com as derrapagens do investimento no canal.

A separação em que conviviam essas duas culturas atingiu formas de segregação insuportáveis para os egípcios. Além da oposição à ocupação britânica, a confraria combatia os sionistas na Palestina, a ocidentalização da cultura umçulmana, os regimes seculares impostos com os acordos de Sikes-Picot e até a própria ambivalência da milenar universidade de Al-Azhar, no Cairo, que é o mais importante centro do pensamento sunita mundial. O modelo laico ocidental é a antítese da natureza do islão que consiste em impor a religião, em dominar, e não em ser dominado. O objectivo final seria a criação de um Estado Islâmico no Egipto e se estenderia a todas as nações do mundo (como também Bin Laden sonhava).

A entrada da Irmandade Umçulmana na política, os rescaldos da segunda guerra mundial e as posições de Al-Banna na cena egípcia, nomeadamente, pôr o Cairo em chamas, destruindo quase por completo os vestígios ocidentais e o cosmopolitismo da cidade, levaram à sua execução pela polícia política do rei Faruk. Quem lhe sucedeu foi o professor e ideólogo Sayyd Qutb, em cujos escritos na prisão apela ao ódio e destruição do Ocidente, à jihad contra os inimigos do islão, bem como a criação das bases ideológicas para a violência contra o estado.

Grande parte dos radicais são inspirados por este homem franzino, solteiro, tímido e solitário, tendo o próprio Bin Laden declarado que na sua geração todos liam Sayyd Qutb. Serão, certamente, os escritos – em oito volumes - mais lidos hoje. Os valores da modernidade ocidental como a democracia, o laicismo, o individualismo, o materialismo, a adoração da ciência ou a igualdade entre sexos são os mesmos que conspurcam o islão e, por isso, a obrigação do seu combate sem tréguas.

O coronel Gamal Abdul Nasser veio a decretar a dissolução da Irmandade após sofrer um atentado. As perseguições, a prisão de milhares de militantes, as torturas e humilhações nas masmorras degradantes de Saladino, endureceram ainda mais o coração destes homens profundamente religiosos que saíam de lá prontos unicamente para a vingança. Milhares deles saíram do Egipto e disseminaram-se por todo o mundo islâmico, espalhando ainda mais a influência desta confraria e fazendo perigar os regimes laicos.

Simplesmente, o poder do exército nas mãos do estado era uma coisa e o domínio das mesquitas nas mãos da Irmandade era outra. Depois de mais de dez anos na prisão o governo egípcio entendia bem o significado de um mártir e propôs as condições favoráveis da sua libertação. Qutb também o entendia: nada reforçaria mais o valor da sua mensagem do que o martírio e foi com este que preferiu a forca em 29 de Agosto de 1966 e abria as portas ao terror subsequente.

Jorge Duarte

Continua

 

 

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