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Quarta-feira 15 de Agosto de 2018  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

SUNITAS E XIITAS - AS GRANDES DIVISÕES
Parte 1

19-05-2017 - Jorge Duarte

Meca, centro espiritual do Islão, rodeada de montanhas (acredita-se que o mundo girava em torno deste ponto enquanto se formava), situa-se numa cova e por isso, chamada pelos muçulmanos de “umbigo do mundo”. Cidade que dizem remontar ao tempo de Abraão. Este teria aqui erguido, com o seu filho Ismael, a casa de Deus, a Caaba, em forma de cubo, onde se encontra incrustada a Pedra Negra tocada pelo anjo Gabriel. Hagar, a escrava egípcia esposa de Abraão, teria sido salva da morte certa pela sede, saciando-se, mais o seu filho Ismael, com a água da famosa fonte de Zam-Zam, inesgotável até hoje.

Como todas as cidades da Arábia e regiões desérticas, são os oásis que estabelecem a fixação das pessoas, formam cidades e tornam-se centros de passagem e encontro das longas rotas de caravanas que cruzam o Estremo e Médio Oriente. A mais famosa é a antiga Rota da Seda. As centenas e por vezes milhares de camelos que compunham uma caravana eram verdadeiros “comboios do deserto” onde cada camelo era um “vagão” que podia transportar até 300 kg.

A compra e venda era o modo de vida. Seguindo o pontilhado dos principais centros urbanos da Arábia, Síria, Iraque, Iémen ou Afeganistão, temos a ideia precisa dessas rotas milenares cujo objectivo era fazer chegar as mercadorias a Meca, Damasco e Alexandria e comercializá-las no Mediterrâneo. A partir de Meca realizava-se a caravana anual da Primavera para Damasco (Norte) e a caravana do Outono para o Iémen (Sul). Daqui, transportava-se o ouro e a muito apreciada e valiosa mirra. A mirra, uma substância resinosa extraída de um arbusto espinhoso, era usada em perfumes e desodorizantes e/ ou queimada como essência de purificação nos rituais sagrados.

A famosa barragem do Marib, no Iémen, irrigava as terras onde este mítico arbusto era cultivado. Mas a sua derrocada gerou a pobreza e fome aos agricultores, o que fez deslocar muitas tribos para Norte que se fixaram em Meca e Medina (antiga Yatrib). Depois de instaladas, com o seu sentido apurado de negócio, entenderam depressa a importância estratégica destas cidades e as suas oportunidades e não tardaram a tomar a iniciativa. Em Medina, as ricas terras e palmeirais deste oásis, em Meca a exploração do santuário e a fonte de Zam-Zam. De todas as partes chegavam os peregrinos para adorar os 360 ídolos que aí se encontravam. E a tribo dos coraixitas vinda do Iémen, passou não só a reconstruir a Caaba como a fonte e a assumir toda a organização em torno do santuário, cobrar os serviços e os impostos. Foi num dos clãs desta tribo, os hachemitas que Maomé veio ao mundo no ano 570 da nossa era.

Não obstante esse grande centro de idolatria que era Meca, proliferava em seu redor e noutros centros, tanto comunidades judaicas como grupos e eremitas cristãos, alguns dos quais muito respeitados e ainda os hanifs, religiosos ou místicos solitários e muitos pregadores de novas ideias.

Nesse tempo já as principais religiões e filosofias existiam e as influências mútuas também. No Médio Oriente o Judaísmo, o Cristianismo e o Zoroastrismo persa, no Extremo Oriente o Induísmo, o Confucionismo, o Budismo e o Taoismo.

A Palestina ocupada pelos romanos, a tomada de Jerusalém no ano 70 e o esmagamento cruel da revolta dos judeus dirigida por Bar Kokhba, em 135, dispersou definitivamente os judeus e muitos cristãos primitivos por todo o lado, levando consigo os seus costumes. Numerosas comunidades chegaram à península arábica e as cidades de Meca e Medina não foram a excepção.

As viagens caravaneiras, as redes de contacto, os centros de peregrinação e a grande feira anual de Meca eram ocasiões de troca de influência, notícias e selamento de acordos.

Iniciado muito cedo no caravaneio pelo seu tio Abu Talib, depois de ficar órfão, Maomé tornou-se mestre respeitado neste negócio. Depois, ao serviço da rica e viúva Cadija, veio a casar com ela aos 25 anos, tendo ela 40. Deste casamento nasceram quatro filhas e um filho que morreu na infância. Para seu grande desgosto não deixou filho varão (pese embora os oito casamentos que se seguiram após a morte de Cadija).

Por volta dos 40 anos, na sequência de prolongados retiros em meditação numa das grutas do monte Hira, fronteiro a Meca, surgiram as primeiras revelações. Cadija e o seu primo Ali foram os primeiros fiéis.

O anúncio e pregação de uma nova religião monoteísta puseram em alvoroço e ameaçavam todo o modo de vida das classes dominantes de Meca, dedicadas ao comércio em torno do santuário e ampliadas na feira anual que atraía milhares de visitantes.

Daí à perseguição, tentativa de assassínio e expulsão foi um passo. Era então ao seu tio Abu Talib, chefe do clã achemita que lhe competia assegurar a protecção (nesse tempo, um assassínio exigia vingança de sangue, excepto a quem essa protecção lhe fosse retirada). Mas apesar da pressão de outros clãs para a expulsão, Abu Talib manteve-se fiel aos códigos de honra de protecção aos seus até ao último dia de vida, muito embora não se convertesse a essa nova religião, vista como altamente subversiva nos meios de Meca.

As perseguições, a sabotagem nos negócios, os boicotes e as ameaças, obrigariam, porém, à fuga dos que lhe eram mais próximos tendo o rei Negus da Abissínia (Etiópia) cristã recebido pelo menos dois desses grupos de refugiados em desespero. Mais tarde foi Medina, 300 quilómetros a Norte – e centro de grandes rivalidades tribais em permanente conflito – que, convertendo-se sob condições, acolheram o profecta e o seu grupo. A chegada a Medina em 16 de Julho de 622, numa sexta-feira, marca a Hégira, o início da nova era do calendário islâmico.

Elaborada a constituição dessa nova comunidade de acolhedores (ansar) e acolhidos (muhajirun), Maomé torna-se chefe político e religioso mas com muitos dissabores, entretanto. Após dois anos, as três tribos judaicas aí existentes, não obstante a dissuasão, não se haviam ainda convertido, nem iriam fazê-lo. A solução foi a expulsão humilhante de duas delas (Qaynuqas e Nadires) e o massacre dos homens e escravização das mulheres da tribo restante (Quraysas). Desse modo, também a orientação (Quibla) da oração deixa de ser Jerusalém (local da viagem mística nocturna do profecta e do sacrifício de Abraão) e estabelece-se em definitivo para Meca, apesar de interdita e inimiga do profeta mas justificada por uma revelação (Alcorão, 3:144).

A saída de Maomé de Meca foi um alívio para a elite mequense mas para ele uma ferida viva e insuportável. Começa a organizar raides (razzia - ataque surpresa e pilhagens - que prosseguem também com os califas sucessores) às caravanas mequenses que passam perto de Medina carregadas de valores. Foi o fim da era da missão sem violência e o início de outra extremamente violenta.

A primeira batalha foi a de Badr, a 17 de Março de 624. Morreram mais de 40 mequenses, e cerca de 15 crentes. Todos se conheciam; haviam ex-vizinhos, ex-amigos e familiares, como em todas as batalhas que se seguiram. Justificando a vitória surge a voz corânica (8:17) «Não os matastes: Deus matou-os. Não atiras quando atiras: Deus é quem atira, a fim de experimentar os crentes, pela sua parte, com uma bela prova. Deus tudo ouve, é omnisciente». Outras batalhas se seguirão (ao todo muitas dezenas): Uhud, em 625, a da Trincheira (ou fosso), em 627 e por fim, a submissão de todas as tribos e a entrada triunfal em Meca em 630.

Líder incontestável de toda a península, destrói todos os ídolos em torno da Caaba (incluindo os das três filhas de Deus Uzza, Al-Lat e Manat, que Salman Rushdie celebrizou na rábula dos Versículos Satânicos, em 1988 e que lhe mereceram uma Fatwa do já falecido imã iraniano Ayatollah Khomeini) mas morre dois anos depois sem designar objectivamente um sucessor.

Reúne-se o conselho da comunidade que elege o velho e respeitado Abu Bakr como primeiro califa (sucessor- comandante dos crentes), pai de Aisha, a mais jovem esposa e preferida do profeta. Morre dois anos depois. Sucede-lhe Omar que governou por dez anos, conquistou um império e morreu assassinado. O terceiro califa, Othmân, governou doze anos e terminou também ele assassinado.

Em todas estas eleições se levantavam vozes de protesto que reclamavam o direito de sucessão hereditária na pessoa do seu primo, genro e companheiro Ali, casado com Fátima, filha de Maomé.

A este grupo de partidários de Ali se passou a chamar shia Ali, ou seja, partido de Ali, vulgarmente conhecidos por Xiitas, em oposição aos defensores da tradição, sunna, de que resultam os Sunitas (considerados pelos xiitas de usurpadores). Ali é finalmente eleito como quarto califa (primeiro para os xiitas) mas enfrenta uma feroz batalha desencadeada pelos opositores aristocratas de Meca, liderados por Aisha, a esposa favorita, em 656. Foi a primeira guerra civil entre os muçulmanos e conhecida por “batalha do camelo” em referência ao animal que a própria Aisha montava.

Um ano depois, em 657, nova guerra civil entre Ali e a família do terceiro califa Uthmân assassinado, chefiada por um primo seu, Mo'awiya, acabado de ser destituído de governador da Síria. Esta batalha, de Siffin, encontra-se num impasse e o oportuno estratega Mo'awiya propõe uma trégua e a nomeação de uma arbitragem que Ali aceita. Essa arbitragem decide a favor de Mo'awiya.

Revoltados pela cedência quando a batalha se lhes desenrolava favorável, parte dos apoiantes de Ali saem, dando origem a uma nova seita designada de Charijitas (os que saem). Antigos apoiantes fervorosos, tornam-se agora os seus piores inimigos. Ali persegue um grupo e chacina-os. Pouco tempo depois é assassinado por um deles com uma espada envenenada enquanto orava numa mesquita, morrendo em lenta agonia. Todo o califado (quatro anos) de Ali foi envolto em guerra civil.

Mo'awiya, autoproclama-se califa, dá início à nova dinastia dos Omíadas (poderoso clã de Meca) e transfere a sede do califado para Damasco como já antes também Ali o fizera para Kufa, no Iraque.

Mas a causa dos seguidores de Ali, os Xiitas, prossegue violenta quando já no fim do seu califado Mo'awiya nomeou o seu filho Yazid como sucessor dinástico - contrário à tradicional eleição pela comunidade de crentes a, umma, e transformou o califado numa instituição monárquica que viria a produzir treze califas - e instam Hussein, filho do falecido Ali e Fátima a reclamar o direito ao califado e sublevar-se contra Yazid. A batalha dá-se em Kerbala (Iraque) por onde a pequena comitiva de Hussein passava tendo o mesmo sido massacrado com quase toda a sua família. Os que sobreviveram foram feitos prisioneiros. Na comemoração desse fatídico dia ainda hoje se veem imagens de autoflagelação dos fiéis em memória do martírio do neto do profecta.

Cada vez mais a umma se separa em seitas, acumula ódios, origina novas guerras que reclamam vingança e fazem mais inimigos.

Continua…

Jorge Duarte

 

 

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