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PALAVRAS MASCARADAS

21-04-2017 - Maria do Carmo Vieira

O «Big Brother», na sua diversidade de actuação, surge com uma nova máscara. Continua, naturalmente, a querer zelar por todos, mas agora a querer zelar docemente por todos, e daí o exercício tortuoso em acentuar a sua preocupação pelo bem-estar, numa inovadora interpretação da palavra. Por isso, mantendo a velha postura, paternalista e salvadora, serve-se da «bondade», na sua versão actualizada, verdadeira apologia do absurdo. Os exemplos alastram na sua variedade de situações.

Vejamos alguns:

. Os «Correios» (CTT) acabaram com uma série de lojas, com a justificação de que era para bem servir os utentes que habitualmente a elas recorriam. Um caso específico, entre tanto outros, foi o que aconteceu com o fecho dos Correios em Pedrouços, onde os utentes se deslocavam a pé e em cujos bairros envolventes havia bastantes reformados. De um momento para o outro, os habitantes viram-se forçados a tomar um eléctrico para ir à estação de Belém ou à de Algés que passaram a estar repletas de gente, sobretudo esta última, com a agravante de disponibilizarem menos de meia-dúzia de cadeiras para algum descanso, dada a longa espera que normalmente aguarda quem ali vai, sendo um pesadelo o dia em que são pagas as pensões. O bem-estar, metamorfoseado, é evidente. Não há que negá-lo!

. A Carris, e agora também a CP, tem vindo a enclausurar os utentes, limitando-

-lhes a vista exterior pelas janelas, com publicidade. O material autocolante, numa malha preta apertada, com minúsculos hexágonos, para além de cansar fortemente a vista, impede que se veja naturalmente o exterior, com nitidez. Contactada a Carris, a resposta envolveu, como não podia deixar de ser, a bondade da decisão: defender as pessoas do sol intenso.

Os utentes sentem-se desconfortáveis, porque as janelas deixaram de ter cortinas, desviam o olhar da janela, suportam o sol, queixam-se do calor, suam, bebem água quando a têm, mas será certamente um defeito seu o facto de não sentirem a protecção publicitariamente oferecida.

. O Ministério da Educação, em nome da «inclusão», decretou, em 2008, a integração de um ou mais alunos com necessidades especiais, em turmas do ensino regular. Volvidos vários anos, continua a tornar-se humanamente impossível a um professor, por vezes sem a preparação que se exigiria, prestar a devida atenção a esses alunos. E, no entanto, o desemprego entre professores de educação especial é significativo. A «inclusão» e a «integração» de crianças e jovens com necessidades especiais tornaram-se sinónimos de exclusão, frustração e sofrimento, precisamente porque não houve, e continua a não haver, seriedade na «bondade» da medida decretada. Parece que basta repetir exaustivamente a «inclusão» e decretá-la para que a mesma se cumpra com eficácia.

As queixas destes alunos, e dos seus encarregados de educação, foram audíveis recentemente na Assembleia da República; as depressões dos professores, por exaustão e desmotivação, somam-se superlativamente em estudos. No entanto, continua esta «inclusão» que não permitindo o bem-estar no presente, não o possibilitará no futuro.

. O Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90) que, parafraseando António Emiliano, os portugueses não pediram, não querem e não precisam, foi «bondosamente» imposto para impedir que a Língua Portuguesa deixasse de ser falada, no futuro. Foi assim que se mentiu aos Portugueses. E, para justificar essa falsa preocupação, invocou-se a necessidade da uniformização da Língua Portuguesa (pura utopia), argumentando-se ainda com o estrondoso número de falantes do Brasil, com a necessidade de decretar de vez em quando a evolução da língua, com a teimosia dos Lusitanos em continuar a manter as consoantes mudas, não articuladas, e também com a facilidade que essa omissão representaria para as crianças, na sua aprendizagem da língua materna. E porque «são sempre os mesmos», segundo dizem, a reagir negativamente à mudança, e «são só velhos» os não-acordistas, nas palavras do ” jovem” Professor Malaca Casteleiro, aguardar-se-á que aqueles morram, à semelhança do veredicto de Cavaco Silva, há uns anos, a propósito dos funcionários públicos, e teremos então o caos em que se transformou a Língua Portuguesa no seu esplendor eterno.

O hábito frequente de mascarar o sentido das palavras, no intuito consciente de enganar os outros, torna evidente quanto se tem vindo a adulterar o significado de democracia e perdendo-se esse significado, perder-se-á seguramente a possibilidade de viver em democracia.

Que o 25 de Abril, que dentro de poucos dias tornaremos a festejar, nos lembre que a liberdade de pensar e de reagir criticamente contra a estupidez, a ignorância e a indiferença face aos mais desprotegidos, foi uma conquista que exigiu sacrifício, coragem, desobediência e persistência. Honremos esse legado.

Maria do Carmo Vieira

 

 

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