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O VÉU

31-03-2017 - Jorge Duarte

Ainda recordo o ambiente da missa, anos 60-70, as mulheres casadas e sobretudo as viúvas, vestidas de preto, com o véu a cobrir-lhes o rosto. O lenço era “obrigatório”, usado na rua ou em ocasiões formais e na igreja.

Mas o véu durante a missa era como um reforço do lenço e um prolongamento deste. Encarar o mistério do Evangelho requeria um resguardo, se para proteger o evangelho do corpo profano se este do poder sacro. Era um misto de respeito e medo. O crente era sempre um pecador.

O confessionário era outro lugar do véu. O véu era o filtro das palavras que transportavam a assunção do pecado, escondia a vergonha da culpa e a promessa de não voltar a pecar, sabendo-o impossível. Mas longe de constituir uma mancha definitiva na alma, havia a esperança da remissão através das orações prescritas pelo sacerdote. Era a fé vivificante que fortalecia o espírito e adoçava as amarguras e contradições do destino; era voltar a integrar a graça de Deus ainda que no próximo Domingo mais pecados se confessassem. Jamais se libertaria deste desígnio e jamais Deus se cansaria de perdoar, na sua infinita bondade. Era uma dívida perpétua, gerada com a graça do dom da própria vida. Saldá-la, implicaria pretender morrer, contrariando o Criador, gerando pecado, saindo do jogo. Vivia-se na fé!

O funeral dos ente-queridos, outro dos momentos cujo recolhimento mais justifica o véu. O momento extremo do arbítrio de Deus para que se não esqueça quanto se é vulnerável ante o seu infinito poder. Não se perdeu, de todo, este costume mesmo à força do uso dos mais formosos óculos escuros.

Talvez uma das últimas e mais significativas referências em Portugal tenha sido a “burqa portuguesa”, usada no Algarve até finais do séc. XIX. Tratava-se de uma peça de vestuário a que davam o nome de “bioco” ou “rebuço”. Era uma capa negra que cobria as mulheres da cabeça aos pés, deixando apenas os olhos a descoberto.

Esta burqa algarvia não tinha conotação religiosa mas tinha certamente reminiscências na cultura muçulmana aqui deixada. Essa conotação e o “perigo de infidelidade” que representava um corpo camuflado, levou um responsável civil a proibi-la nas igrejas e na rua.

Raul Brandão, descreve o fascínio misterioso dessas mulheres e o intenso brilho dos seus olhos contrastando no fundo negro da burqa.

Historicamente, há referências do uso do véu no antigo Oriente desde o primeiro milénio antes de Cristo. Já então, simbolizava o compromisso da mulher: casada ou comprometida.

São Paulo, na primeira carta aos Coríntios exortava para que nas orações a mulher cobrisse a cabeça. O homem não. Enquanto o cabelo crescido desonra o homem, na mulher a enobrece, perante Deus. A cabeleira lhe foi dada como véu. Esta instrução não foi bem acolhida pelas mulheres de Corinto pelo que não foi tomada como obrigatória. O véu era já usado tradicionalmente no dia do casamento ou simplesmente como acessório de moda nesse mundo helénico.

Tertuliano (séc. III), jurista e primeiro teólogo latino, na sua obra «De virgínius Velandis» - Sobre o Véu das Virgens -, pretende o «encobrimento de todas as donzelas» não apenas na igreja mas também em público. Seriam mais tarde as freiras a levar à prática de maneira generalizada esta prescrição.

O véu também cobriu o rosto de Jesus no tribunal dos judeus enquanto era cuspido e esbofeteado.

Há, ainda hoje, outros dois momentos de solenidade especial que não dispensam o uso do véu: no casamento e nas audiências papais. Embora para a presença com o Sumo Pontífice se exija um véu mais finamente elaborado e rendado.

Nas restantes circunstâncias, este uso foi-se perdendo não só no mundo católico mas também no reformado. A mulher assumiu a sua igualdade e a sua “transparência” perante o mundo e o homem e já não corresponde, simplesmente, a uma «imagem derivada de Deus» do Genesis.

Bem diferente é o véu no Islão.

Nada representa melhor o símbolo de uma comunidade muçulmana do que o véu das suas mulheres. É, ao mesmo tempo, um símbolo da separação, de segregação, de uma marca religiosa e de um islamismo político.

Antes, há que diferenciar as várias terminologias para as diferentes peças e o seu modo de uso.

O hijab, geralmente designado por véu, cobre o cabelo, o rosto e estende-se até ao corpo da mulher. No Alcorão não há determinação para o uso obrigatório. Maomé apenas refere uma “cortina” atrás da qual as suas mulheres, nos seus aposentos, deviam ficar resguardadas dos visitantes. E no Capítulo XXXII, versículo 59, é dito «Profeta! Diz a tuas esposas, a tuas filhas, às mulheres crentes, que cinjam os véus. Esse é o modo mais simples de serem reconhecidas e de não serem molestadas. Deus é indulgente e misericordioso». Trata-se, portanto, de uma forma de distinção relativamente às outras mulheres, um sinal da elite a que pertenciam já que as escravas e as mulheres comuns beduínas não usavam o véu. Este versículo não faz qualquer menção à ideia de ocultação de uma parte do corpo. Mas o velamento tornou-se mais tarde norma para todas as mulheres, mormente a partir do segundo califa, Omar.

Paradoxalmente, entre os tuaregues, são os homens que usam o hijab e não as mulheres. A beleza da mulher é uma virtude que deve ser admirada e não ocultada. O homem, que pela sua maior exposição aos perigos do inimigo é que necessita esconder o rosto para que se lhe não consigam decifrar as intenções.

Niqab , véu que tanto pode cobrir todo o rosto como deixar apenas os olhos a descoberto.

A burqa ou véu integral foram os taliban, no Afeganistão, que a introduziram como vestuário obrigatório para as mulheres. A burqa é o extremo sinal de isolamento e também da perda da humanidade da mulher já que burqa remete, na língua árabe, para “ovelha”, um animal manso e, por vezes, de carga como também era referido às beduínas que trabalhavam nos campos.

Há ainda outro tipo de vestes como o kimar que se refere ao tapamento do pescoço e o peito e ainda o chador que cobre o corpo e a cabeça.

Ao longo da História da Humanidade, foi sempre relativamente à mulher que foram impostas as regras normativas do traje. Ainda não há muitos anos, entre nós, os fatos de banho das mulheres tinham medidas mínimas que eram fiscalizadas nas praias. Tanto na cultura judaico-cristã como na muçulmana, é para as mulheres que se remete a fonte da culpa, quando não do pecado original, o da perdição, o da luxúria, o da bruxaria, que é preciso limitar.

As contradições e convulsões da história da cultura Ocidental, introduziram suficientes valores para esbater e apagar esses símbolos limitativos para a liberdade da mulher e com ela podermos partilhar a metade da humanidade que representam.

O mesmo não sucede na cultura islâmica, com excepção dos países onde vigoram regimes laicos e onde o véu é pouco usado. Na Turquia independente de Mustafá Kemal Atatuk em 1923, este proclama por decreto, a proibição do véu. Já este ano, o Reino de Marrocos proibiu o fabrico, importação e comercialização da burca a pretexto do aproveitamento desta peça por criminosos como forma de dissimulação.

A discussão em torno do uso ou não desta peça tem defensores de ambos os lados: um sinal de privacidade, moralidade e modéstia, defendem uns, um sinal de submissão e inferioridade feminina, defendem outros. Contudo, os estudiosos asseguram existir desde um milénio antes do islão, na Assíria e Pérsia, o costume do uso do véu como símbolo de castidade mas apenas às aristocratas.

A roupa, mais do que uma necessidade de cobrir o corpo ou diferenciar os sexos, sempre foi um meio de expressão de um modo de ser ou, até, da transmissão de uma mensagem simbólica: desde a condição social, à pertença a uma cultura, às opções políticas, religiosas, de valores, etc.

O sinal mais recente foi dado com a vitória do Aiatola Khomeini, na revolução iraniana de 1979. O regime teocrático xiita impôs o véu a todas as mulheres. No Afeganistão, pela mesma altura, o regime dos estudantes talibans, dentro de uma literalidade interpretativa ultraortodoxa sunita, foram mais longe e impuseram a burqa onde antes as mulheres não usavam sequer o véu. Foi o rápido regresso ao longínquo século VII e não só através da burqa mas de todo o modo de vida. Em casa a mulher está presa entre as paredes e na rua entre os fios que tecem esse casulo onde se desloca escondida.

Desde então, os movimentos islamitas seguindo os ecos de mudança, transformaram uma prática milenar pacífica de usar ou não o véu (porque o véu ou lenço começou até por ser uma questão prática que podia ocultar o desaprumo do cabelo) numa poderosa e discriminatória arma política.

A burqa inspirou uma estilista que desenvolveu um fato de banho feminino designado de “burqini”, muito justo e que cobre todo o corpo, com excepção da cara, das mãos e dos pés. A polémica estalou em 2016, numa praia do sul de França quando grupos de muçulmanos chegaram à praia e delimitaram uma zona que pretendiam interdita a não muçulmanos. Houve confrontos na praia, os municípios proibiram esta atitude e os tribunais confirmaram.

Também recentemente (14 de Março), numa inédita decisão de um colectivo de juízes, o Tibunal de Justiça da União Europeia (TJUE), dá razão a empresas que proíbem o uso do véu pelas suas funcionárias, na sequência de uma queixa apresentada por uma dessas funcionárias.

Já antes, o uso do véu nas escolas obrigou a medidas legislativas invulgares, no meio de uma polémica que envolveu toda a sociedade francesa, que vê, nesta ostentação, motivos ideológicos ligados a um projecto político e de desafio às regras seculares francesas.

E é aqui que se confrontam abertamente os regimes laicos e as tendências teocráticas dos islamitas políticos.

E se há movimentos para a abolição do véu, há outros pela sua permanência. O Véu, dizem, é o símbolo da sua cultura, da sua fé e da sua pertença a uma comunidade que não abdica dos seus valores e das suas tradições. Há jovens que afirmam com orgulho usar o véu não porque as suas mães também o usaram mas justamente porque o não usaram. O véu faz delas crentes mais respeitáveis. Antes de ser uma imposição é um desejo seu de afirmação cultural, religiosa e até de feminilidade.

Ao mesmo tempo outras recusam-se a usá-lo para uma maior facilidade de integração no Ocidente e mais ainda para que não sejam conotadas como extremistas. E aqui põe-se a questão do islão político e a exploração do véu com fins políticos.

Muitos franceses temem que a partir da polémica do véu nas escolas, outras se estendam às cantinas, às aulas de biologia, medicina, desporto, casas de banho, balneários públicos, piscinas e até na língua. E, por fim, com o reconhecimento oficial de uma especificidade cultural-linguística-religiosa que faça detonar o laicismo francês e legitimar enclaves territoriais islâmicos com aplicação da Sharia. Não legitimados, é certo, mas eles até já existem, basta ver nos arredores de Paris, Londres, Bruxelas ou Toronto.

Apoiada pelo nosso “politicamente correcto”, a demográfica fará do resto. Actualmente, já mais de 6% da população europeia é muçulmana. Junta, constituiria um país da dimensão da Espanha.

Jorge Duarte, Março de 2017

 

 

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