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A Pensar em Agostinho da Silva

10-02-2017 - Maria do Carmos Vieira

Na evocação dos 111 anos de Agostinho da Silva, lembrámo-nos de focar uma temática que lhe foi cara, a Escola, e, por afinidade, o professor e a sua missão, no cimentar dos «alicerces do futuro». Nem sempre estando de acordo com as suas ideias, que discutíamos em ambiente de franca amizade, o que é natural quando se preza a liberdade de pensar de cada um, tenho sublinhadas em mim as que irónica e repetidamente incidiam sobre «o êxtase» de alguns perante a ignorância ou o que é «culturalmente pobre», ou a apropriação que outros fazem de ideias que não lhes pertencem, incapazes que são de as «formar», ou o impedimento de que se transmita aos outros, «o que [se] tiver aprendido ou pensado» (Doutrina Cristã) ou a «obrigação de ser especialista» que parece determinar «o emprego de uma linguagem que se torna incompreensível para quem não andar exactamente pelos mesmos caminhos» (SóAjustamentos). Por isso, Agostinho da Silva, qual mestre em conversa com o discípulo, aconselha a que este «critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos factos» (Notícia).

O menosprezo pelo Saber parece ser, hoje em dia, uma constante. Diga-se o mesmo, em relação à sensibilidade que se achou por bem não educar. Daí, não só a apologia exaustiva do funcional, do utilitário que faz esquecer tudo o que cruza com o espiritual, mas também a proliferação de discursos elaborados conscientemente para serem indecifráveis, supondo-se evidenciar mestria onde só existe arrogância e complexidade absurda, ou de discursos que se caracterizam pela sua tonalidade chã, num completo vazio de argumentação, ditados pela irresponsabilidade e, muitas vezes, também pela ignorância.

A propósito da Escola e do Professor, focar-nos-emos na situação problemática determinada pela imposição do Acordo Ortográfico de 90, matéria que, como outras relacionadas com o Ensino, suscitou, e continua a suscitar, forte polémica, o que, lamentavelmente, não impediu a atitude deliberada de evitar a sua discussão e de ouvir ou dar seguimento a vozes críticas, ou seja, a quem pensava e argumentava de modo diferente.

Joguetes nas mãos de políticos, que se arvoraram poderes para se intrometer num assunto que desconhecem e que «ao mundo espiritual da cultura» diz respeito, joguetes também nas mãos de ditos «investigadores» ou «especialistas» da língua, que teimaram em não ouvir vozes críticas e avisadas, silenciando-as numa atitude intolerável, os portugueses, com especial destaque para professores e alunos, tiveram de sujeitar-se à imposição de uma nova ortografia que é a imagem flagrante da mediocridade e da ignorância de quem a promoveu, indiferente ao património colectivo que é a língua portuguesa, «um legado de séculos, uma obra de cultura» (Vitorino Magalhães Godinho). E se a linguagem que utilizámos parece algo exagerada, na avaliação do trabalho realizado pelos acordistas, veja-se o que afirmou, em 2008, Evanildo Bechara, o linguista que coordenou as normas deste processo, no Brasil: «O Acordo Ortográfico não tem condições para servir de base a uma proposta normativa, contendo imprecisões, erros e ambiguidades.» (1)

Não sabemos qual seria a posição de Agostinho da Silva em relação a este nefasto AO 90, mas mesmo pressupondo que aceitasse em parte a ideia, o que não nos surpreenderia, temos a certeza de que, pela sua integridade e pelos ideais que defendeu, recusaria a postura de surdez às vozes contrárias e se insurgiria contra a absurda e insensata argumentação, utilizada no único texto sobre o AO apresentado pelos seus autores - «Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)». Certamente que Agostinho da Silva não consideraria como argumento válido a justificação da omissão das consoantes mudas - «c» e «p»-, por forma a facilitar às crianças de 6 e 7 anos a aprendizagem da Língua Materna, nem tão pouco o argumento, acientífico e a raiar o ridículo, e cito, da «teimosia lusitana» para justificar a presença dessas mesmas consoantes no português-europeu, quando, e cito, novamente, «o Brasil há muito as banira».

Agostinho da Silva prezava demasiado a inteligência e o saudável confronto de ideias, para se deixar cair alguma vez na cilada dos que falam em nome do povo e das crianças, mas servem-se do povo e das crianças para concretizar os seus interesses, no cumprimento das suas ambições. Nunca tendo abdicado da sua liberdade crítica, ter-se-ia insurgido também contra o facto de os professores, contrários à aplicação do AO, e são a maioria, serem forçados a cumpri-lo sob a ameaça de um processo disciplinar, situação que Agostinho da Silva, num outro momento histórico, também experimentou, o que o forçou a deixar o Ensino, tornando-se um exemplo ao recusar afirmar que 2+2= 5, lembrando a fórmula de tortura (física ou psíquica) descrita por Orwell, no seu célebre livro 1984.

Conhecedor da Cultura Clássica e defensor dos Clássicos, os que, nas suas palavras poéticas, resistiram «aos ventos e às ondas», sendo como «ilhas que emergem do grande mar do tempo» (Considerações), Agostinho da Silva, pensamos que defenderia, tal como Fernando Pessoa, o equilíbrio entre fonética e etimologia, realçando a importância da história da palavra para a sua compreensão. Certamente que não confundiria também «fonética» com «pronúncia», critério acientífico apresentado pelos autores do AO 90, nem apoiaria que, em nome da facilidade, se escrevesse como se pronuncia, num apelo à destruição da ortografia. É que «a função da ortografia não é nem facilitar o ensino da escrita nem reflectir a oralidade; a ortografia serve para codificar e garantir a coesão da língua escrita normalizada de uma comunidade nacional.»(2)

A tenacidade activamente crítica que a esmagadora maioria dos portugueses tem demonstrado, em relação à exigência de uma intervenção por parte dos que erraram e persistem no erro – veja-se o recente Manifesto contra o AO, a petição «Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 90», http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=acordoortografico90, a par da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (http://ilcao.com/?p=19052#comment-26799, ou a iniciativa de recolha de assinaturas para um Referendo https://referendoao90.wordpress.com/documentos-para-recolha-de-assinaturas/, ou ainda o Grupo do Facebook “Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990”, https://www.facebook.com/groups/acordoortograficocidadaoscontraao90/ e, mais próximo no tempo, a iniciativa da Academia das Ciências, pecando esta última por tardia - é demonstrativo de que quando não nos conformamos e nos unimos contra uma ordem que nos agride o espírito, dificilmente desistimos e o milagre pode ocorrer. Esperemos que assim aconteça em defesa do «direito de pensar e de ser digno» (Agostinho da Silva).

Maria do Carmo Vieira

1 - 3.º Encontro Açoriano da Lusofonia, realizado entre os dias 8 e 11 de Maio de 2008.  

2 - António Emiliano, Apologia do Desacordo Ortográfico. Lisboa, Babel, 2010, pág. 141.

 

 

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