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“Soares é fixe, o resto que se lixe”

13-01-2017 - Armindo Bento

“Não acredito na eternidade, na imortalidade, na alma. O que fica de mim é um rodapé num livro de História”. (Mário Soares)

Aqui no “nosso canto” o assunto foi, evidentemente, o falecimento do homem que mais contribuiu para o nosso modelo político actual. A morte esperada trouxe à pedra todos os sentimentos dos portugueses sobre os acontecimentos pós 25 de Abril e também a eterna avaliação da descolonização. Houve comentários lamentáveis de ódio e ressentimento, mas sobretudo agradecimentos e louvores por uma figura cuja estatura é indiscutível.

Alguém relembrou que a filosofia de Mário Soares bem se resume nestas suas palavras: "Há uma certeza que sempre tive: a verdade não pertence em exclusivo a ninguém e não há nada que substitua a tolerância"

Nós entendemos que se Mário Soares partiu, deixou no entanto um legado de liberdade, democracia e respeito. Estes três pilares da nossa sociedade estão para lá da partidocracia, que vive apenas da conjuntura, e devem merecer o respeito de todos cidadãos que se revêm numa democracia pluralista. E esses são pontos cardeais da bússola da cidadania. É no respeito pela pessoa humana, nos seus direitos, na liberdade individual e na força das convicções que devemos balizar comportamentos e pautar acções.

Podemos ou não concordar (e foram muitos os que ao longo dos anos, fora e dentro do PS, manifestaram infindáveis discordâncias com as propostas e os caminhos seguidos por Soares). Podemos ou não considerar erradas as ideias defendidas (e ainda hoje, à esquerda e à direita, há quem expresse essa divergência). Podemos ou não considerar que, ao ser um homem de roturas, só podia ser acidentado o caminho por si trilhado, ao ponto de a determinação em chegar ser muitas vezes mais importante que o modo como chegar. Como escreve Daniel Oliveira no Expresso Diário, “o seu percurso, as suas lealdades, até as suas convicções foram muitas vezes sinuosas, tendo apenas a democracia como único valor constante, o que não foi pouco”. Nesta senda, também Sousa Tavares, no seu habitual registo, aconselha “alguns energúmenos que andam nas redes sociais a insultar a memória de Mário Soares que, independentemente das ideias políticas, leiam a imprensa estrangeira”, lembrando que é graças ao histórico socialista que estas mesmas pessoas “têm o direito” de escrever o que pensam .

Apesar de tudo temos que reconhecer que a geração que tem hoje 40/50 anos não esteve à altura do legado do 25 de Abril. Falhou. Vai deixar aos filhos um país menos esperançoso. O adeus a Mário Soares serve para constatar essa dolorosa verdade. Repare-se que dizemos “obrigado” a Soares mais pelos seus primeiros 40 anos de percurso político do que pelos 30 anos que decorreram após a sua primeira presidência. É verdade que temos de agradecer ao Presidente Soares a onda “fixe” que libertou em vésperas da integração europeia. Mas o Soares presidente era já um homem de um tempo novo, um tempo de normalidade democrática que não quis ou não foi capaz de temperar. O lugar do sonho depressa foi ocupado por uma geração oca, deslumbrada com o novo-riquismo do dinheiro a crédito, sem densidade de vida nem de ideias, apenas ávida de facilitismo e propensa à cumplicidade venal com os amigos das negociatas 

Agradecer a Soares pelo país que nos deixou é festejar a democracia sólida ou o Estado social eficaz. O país é hoje muito melhor, mas as suas injustiças, a dívida, o Estado capturado pelos interesses, a pobreza e o desemprego são a prova de que ficámos a meio caminho. Podíamos e devíamos ter andado mais. Dizer obrigado a Soares é um acto óbvio de reconhecimento pelo que nos deixou – a democracia liberal, o Estado social, a Europa. Mas pedir-lhe desculpa pelo muito que se falhou não é apenas uma forma de homenagear essa geração extraordinária de portugueses da qual Soares foi o mais completo representante: é também uma manifestação da vontade de recuperar os seus ideais e a sua energia, ranger os dentes, saber resistir às dificuldades sem propaganda nem demagogia e olhar com coragem para o futuro. 

Finalmente apetece-me deixar aqui esta citação “Vi amigos de esquerda e de Direita de olhos fixos na urna, mudos e gratos. Democratas, todos. Pessoas como Soares, com virtudes e defeitos, vergando -se perante a memória de alguém que esteve sempre do inequívoco lado da Liberdade. Vi homens fardados bater a continência a chorar, e mulheres de avental a gritar " Soares é fixe , o resto que se lixe ".porque há despedidas que são o início de um caminho. E conseguir em vida (e na morte ) inspirar caminhadas de outros , é só para os maiores e os mais fixes.”(Rita Ferro Rodrigues)

Armindo Bento (economista aposentado)

 

 

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