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ENSINAR

28-10-2016 - Maria do Carmo Vieira

Deixamo-nos muitas vezes embriagar pelo que ouvimos ou lemos, intervindo na base do «diz-se, diz-se», sem a mínima tentativa para efectivamente nos esclarecermos sobre as matérias ou situações em causa. Na maioria das vezes, fazemo-lo pela preguiça de pensar, optando pelo mais fácil, pelo que nos trará menos problemas, insurgindo-nos sem conhecimento de causa, na maior parte das vezes, contra o bode expiatório forjado e massacrado em público, estratégia que a História comummente descreve porque de contínuo usada pelos homens quando pretendem ganhar o apoio das massas, o apoio da opinião pública. O medo pode ser também determinante para silenciar o nosso espírito crítico e a nossa própria consciência ou abrandar a nossa força de vontade ou ainda anular o sacrifício, tantas vezes associado às opções que determinados momentos da vida nos exigem. Subvalorizando estas atitudes, perdemo-nos de nós próprios, tornando-nos assim também incapazes de prestar mais atenção aos outros.

Não esquecem os professores que a oficialização da falta de respeito pelo seu trabalho aconteceu com uma ministra da educação (2005-2009) que se orgulhou do feito, acompanhada por uma legião de bem-falantes, intelectuais uns, jornalistas outros, também muitos encarregados de educação, e praticamente toda a sociedade. O novo valor educativo da facilidade e a indisciplina aumentaram então de tom, e foram muitos os professores que não ousaram, por exemplo, queixar-se superiormente de situações inacreditáveis de indisciplina, na sala de aula, pelo medo de serem prejudicados na sua avaliação, o que, na verdade, aconteceu, e lamentavelmente se mantém. O mesmo em relação à reprovação, em que um professor se sente forçado a não reprovar um aluno que não tenha adquirido os requisitos elementares para poder transitar de ano, quando sabemos que a pretensão de intervir nestes casos, na prática não se concretiza. Na verdade, isso só aconteceria se se pensasse que as despesas com a Educação só trazem benefícios a médio e longo prazos e não no imediato. O facto de muitos alunos lerem quase a soletrar, no ensino secundário, ou não saberem de cor o abecedário, dificultando-lhes a consulta de dicionários, e refiro estes exemplos com conhecimento de causa, demonstra, na verdade, quão nocivo é para um aluno transitar do 1.º ano para o 2.º, sem minimamente saber ler. Desejando conservar-se esta directiva, dever-se-ia intervir logo que um professor verificasse as dificuldades sentidas por alguns alunos na aprendizagem da leitura. É ilusório pensar que «recuperarão» no ano seguinte. E essa é, na generalidade, a postura que se tem adoptado.

Considero também que somos muitas vezes responsáveis por determinadas situações, algumas das quais anteriormente referidas, pois incapazes de nos unirmos em acções concertadas ou de persistir num propósito (veja-se o que aconteceu depois da grande manifestação de professores, em 2009) ou ainda de desobedecer a imposições que ferem a nossa inteligência, o nosso estudo e a nossa dignidade o que forçosamente se repercutirá negativamente nos alunos, por quem somos também responsáveis. Os próprios sindicatos, imprescindíveis em qualquer democracia, não ficam isentos de críticas, bastando lembrar o concurso de acesso a «Professor Titular», flagrante exemplo do «dividir para reinar», promovido pela mesma ministra da educação (2007), em que os professores que se recusaram a fazê-lo não receberam o apoio de sindicatos, ficando entregues a si próprios e à sua consciência, bem como às consequências advenientes da sua não candidatura. Mesmo em relação à imposição do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), que tantos professores, logo de início, ousaram não cumprir, os sindicatos, seguindo obediente e acriticamente a sua aplicação, foram, e mantêm-se, indiferentes às reacções de inúmeros associados que lhes solicitaram, e continuam a solicitar, um debate sobre a matéria, tais as incongruências, os erros de carácter científico e a aberração das justificações apresentadas na Nota Explicativa do AO90. Na verdade, é indesmentível o caos que a aplicação do AO tem gerado, não só no ensino, mas na sociedade em geral. Os professores de Língua Portuguesa, os mais atingidos certamente pelo facto de não poderem responder ao porquê dos alunos sobre inúmeros casos disparatados, podem testemunhá-lo com milhares de exemplos. A este propósito, uma colega açoriana (S. Miguel) tem feito, num trabalho amador com as suas alunas de Latim, uns vídeos semanais ao jeito da rubrica «Em bom português», excelente para mostrar a confusão reinante e que pode ser visto em:

https://www.youtube.com/watch?v=IBn-rmbqdgc

Têm-se sucedido os trabalhos, nacionais e estrangeiros, que repetem a conclusão de há muito conhecida: o facto de os professores portugueses se sentirem superlativamente desmotivados e exaustos. E se esta situação abrange também colegas europeus, porque infelizmente vivemos num tipo de sociedade que tem aversão à Cultura, se aproveita do trabalho barato, seja qual for o nível de estudos, o certo é que em Portugal se vai mais longe, e basta pensar na sobrecarga de horários dos professores (e também dos alunos, mesmo os mais novos), da avalancha de relatórios que devem elaborar (ainda mais complexos quando algum professor tenta reprovar um aluno), das férias a que têm direito, das sucessivas mudanças a que têm de «adaptar-se» e outros etcs. Na verdade, professor algum poderá ter gosto em ensinar se tiver perdido o seu significado e isso, a meu ver, é o que tem vindo a acontecer fruto de políticas insanes dos vários ministérios da Educação que só demonstram a sua profunda irresponsabilidade e falta de respeito pelos professores.

Creio com convicção que se interiorizarmos colectivamente a ideia de que «continuar a ser estudante deve ser o voto secreto de todo o professor» (Gaston Bachelard, 1884-1962), seremos capazes de resistir a imposições, não abdicando assim da nossa competência.

Maria do Carmo Vieira

 

 

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