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Quinta-feira 13 de Dezembro de 2018  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

RECORDANDO

24-06-2016 - Matos Serra

A FORMA DO MEU CULTO
AO DEUS MAVORTE.

Aí por volta do ano cinquenta e dois, do SÉC. passado, eu iniciava-me nas fainas dos trabalhos da jorna como lenhador, iniciando, assim, o que estava para ser uma carreira de trabalhador jornaleiro, aproveitando as fases da desmatação dos terrenos aonde vieram instalar-se as águas das barragens do Caia e a de Montargil.

Eu nunca fui o que poderia chamar-se um crente das artes e das ciências divinatórias, nem dos bruxedos, crendices, maus olhados, predestinações, destinos ou fados…mas aí por essas alturas, dos inícios dos tais anos cinquenta, veio-me ter às mãos uma edição, de alguns séculos anteriores, do célebre livro, “Almanaque Perpétuo” de Abraão Zacuto, pai do não menos célebre Abraão Zacuto Lusitano, ambos homens de sublime cultura na sua época, que tendo estado ambos ao serviço dos reis de Portugal, D. João II e D. Manuel I, pondo ao serviço da Coroa Portuguesa os seus inestimáveis serviços e conhecimentos, foram, depois, expulsos de Portugal pela mesma Coroa Portuguesa então nas mãos de João, o terceiro…

Mas ia eu a dizer que me veio ter às mãos o livro de Zacuto… esse célebre livro, escrito aí por volta dos fins do Séc. quinze… era um livro que, conquanto tivesse sido escrito por um dos mais eminentes astrónomos do Renascimento Português, vindo de além fronteiras, fugido dos reis de Espanha, Fernando e Isabel, os católicos, nem por isso estava expurgado das insuficiências e miscelâneas próprias do seu tempo em que ainda misturavam, ciência, pseudociência, quiromancia, astrologia, ervanária, medicina etc…e, por isso, tinha uma descrição completa dos doze signos do zodíaco e uma completa carta astrológica, onde quem tivesse marcado pelas crendices, tivesse paciência e um pouco de irracionalidade natural, poderia ir procurar informar-se sobre os caminhos do futuro…

Por curiosidade e um pouco de estupidez, natural desses meus verdes anos, também eu fui consultar esse livro,que um muito antigo avoengo paterno nos tinha legado, com uma ortografia de séculos passados difícil de perceber. Para mim, que tinha nascido numa terça-feira pelas seis da manhã, o livro continha a seguinte sentença fundamental para o meu destino futuro: Eu tinha nascido sob os auspícios do Deus Marte e estava, portanto, destinado à carreira das armas… e, foi por causa dessa sentença dos deuses e dos signos do zodíaco que, aí por agosto de mil novecentos e cinquenta e oito, já depois de ter feito a recruta no Batalhão de Caçadores n-º 8, em Elvas, quando lá apareceu uma equipa de para-quedistas a aliciar-nos para ingressar naquelas Tropas Especiais, cuja Escola de Formação tinha sido de implementação recente, eu, por motivo de um indomável espírito de aventura e para facilitar o caminho ao destino, me ofereci para fazer provas de ingresso nas Tropas Para-quedistas Portuguesas e, dois anos e tal depois disto e para que o destino se cumprisse, como o deus Marte impunha, aterrava, nos primeiros dias de abril de mil novecentos e sessenta e um, no Aeroporto de Luanda, então chamado Craveiro Lopes, já investido na missão de comandar uma subunidade de combate dos para-quedistas portugueses e, em comissões alternadas de dois anos cada, fiz seis anos da “Guerra Colonial”… sendo que, logo na minha primeira comissão, que decorreu entre abril de 1961 e maio de 1963, na primeira semana de combates, o meu pelotão de combate teve seis mortos. Cerca de dois meses mais tarde fui ferido em combate, de regresso da guerra fiz vários cursos de especialização e vim a ser instrutor de paraquedistas e instrutor de instrutores, cumpri as duas primeiras comissões como sargento para-quedista e a terceira já como oficial e, no âmbito do meu destino, de servir a deus Marte, participei no 25 de abril de 1974, tendo ido, enquanto comandante adjunto de uma companhia de combate de para-quedistas impor, em 27 de abril de 74, a rendição do contingente da PIDE-DGS, na cidade universitária de Coimbra.

Considero que havendo desde 1954, data da implementação da Associação de Países Anticoloniais do Sudeste Asiático, um grande movimento anticolonial apoiado pela ONU,que teve fundamental expressão na “Conferência de Bandung, em 1955 e havendo já países que tinham avançado para processos de autodeterminação e independência das sua colónias… o início da Guerra Colonial Portuguesa e a não capacidade de negociação, do Governo Português, para resolver o toque de finados do Império, pela via da negociação diplomática com os Movimentos de Libertação, foi um grande erro histórico que custou caro em vidas e em perdas políticas ao Povo Português.

Muitos foram os traumas, as dores e os custos que pagamos e, ainda, de alguma maneira, continuamos a pagar… razão pela qual penso que a pedagogia sobre este conturbado momento histórico que foi a “Guerra Colonial” continua, de algum modo, ainda por fazer e, de entre muitos factos e momentos complicados pelos quais passei, deixo aqui, em adenda a este texto, um que, de certo modo, me deixou marcas, apesar de veterano endurecido de guerra e instrutor de Tropas Especiais..

A bem da História e da verdade o

Matos Serra

 

 

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