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«Sobre o Acordo Ortográfico» (Parte II)

25-03-2016 - Maria do Carmo Vieira

Na continuação do artigo sobre o Acordo Ortográfico de 90, retomaremos Fernando Pessoa, já que sob a sua influência se desenvolveram estes dois textos. Assim, convidamo-vos a ler alguns exemplos da sua poesia ortónima e heterónima e da sua prosa poética, levianamente alterados na sua ortografia por força de um decreto que exige a mais servil obediência à ignorância e à incompetência, bem visíveis, aliás, no texto da Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) que, lembre-se, nem a maioria dosdeputados teve a preocupação de ler quando sobre este assunto houve que decidir. O facto de Lula da Silva e de Cavaco Silva terem, a este propósito, trocado também galhardetes sobre a Língua Portuguesa, invocando o «Quinto Império» de António Vieira e a frase de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, a que no artigo anterior nos referimos, realça flagrantemente a falta de cultura que grassa entre a classe política, com honrosas excepções.

Foquemo-nos, então, nos exemplos da obra pessoana cuja alteração ortográfica (que indicaremos a negrito) dificulta, como poderão constatar, a sua leitura e respectiva análise, constituindo uma fonte de equívocos (nomeadamente a anulação do acento no verbo parar,quer no Presente do Indicativo, na 3.ª pessoa do singular, quer no Imperativo, na 2.ª pessoa do singular) e de incoerências (as facultatividades, como acontece no caso da 1.ª pessoa do plural do Pretérito Perfeito do Indicativo dos verbos do 1.º grupo, que pode não ser acentuada, não se distinguindo assim da mesma pessoa do Presente do Indicativo), aspectos que colidem frontalmente com a finalidade normativa da ortografia e que deviam envergonhar quem os incluiu, sem critério de cientificidade, no AO. De registar ainda exemplos que demonstram a leveza com que se anularam maiúsculas, nomeadamente em meses e estações do ano, numa total indiferença pela sua inclusão na classe de substantivos próprios ou pela sua leitura classicamente simbólica. Na verdade, ao serem minusculizadas perdem essa força, ferindo o sentido dos versos, como acontece sobretudo na poesia de Ricardo Reis, o heterónimo de cultura clássica, que abundantemente se serve das estações pela sua estreita ligação à vida do ser humano. Vejamos, pela ordem enunciada, os vários exemplos:

- Manda quem não sente […] Quem simpatiza para(Bernardo Soares);

O cego para na estrada (Alberto Caeiro);

Para um momento à porta da minha alma (Ricardo Reis);

Para , meu coração! ( Álvaro de Campos).

- Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;/Mas acordamos e ele é opaco,/Levantamo-nos e ele é alheio,/Saímos de casa e ele é a terra inteira ; ( Álvaro de Campos);

Olhamos indiferentemente um para o outro, (Álvaro de Campos).

- Cada coisa a seu tempo tem seu tempo,/Não florescem no inverno os arvoredos/Nem pela primavera/Têm branco frio os campos (Ricardo Reis);

Quando, Lídia, vier o nosso outono/Com o inverno que há nele, reservemos/Um pensamento, não para a futura/primavera, que é de outrem,/Nem para o estio, de quem somos mortos (Ricardo Reis).

Creio que estes exemplos serão também suficientes para concluir da violência intelectual que representa para um professor ser obrigado a aceitar este AO 90,pondo em causa o seu estudo, a sua inteligência e a possibilidade de ensinar, uma vez que o esclarecimento que pode dar aos alunos perante tais absurdos resumir-se-á a um brutal «assim foi decretado». A isto junta-se o caosprovocado pela supressão das consoantes mudas, mesmo as que se pronunciam, donde a avalanchade «contato», «contatar», «tato», «latente», «de fato», «espetador», «dição» e muitos outros.São ainda várias as situações bizarras, a que nem os próprios mentores do AO sabem responder, como a que dizrespeito,por exemplo,ao hífen, e de novo recorremos a versos de Fernando Pessoa (ortónimo): Do seu longínquo reino cor-de-rosa,[…] A fada das crianças vem, luzindo. Neste caso, e segundo o AO, manter-se-á o hífen em «cor-de-rosa», invocando-se «o uso», mas retirar-se-á, sem necessidade de justificar, em «cor de laranja», talvez porque a sua ausência constitua «um peso a menos», aceitando a lógica do linguista brasileiro,EvanildoBechara, que coordenou as normas deste processo no Brasil. Atente-se nas suas palavras: Ao abolir o trema, tiramos um peso dos ombros de quem escreve. A falta do trema, longe de ser um prejuízo, é um lucro. Deixamos de escrever o trema, mas podemos pronunciar as palavras da maneira como estamos acostumados a ouvi-las.(1)

O espírito de facilitar é uma característica deste AO e está bem patente no texto da sua Nota Explicativa, sendo a sua ostensiva exposiçãoabsolutamente chocante. Ver para crer, e passo a citar o ponto 4.2 relativo à «supressão de consoantes não articuladas» (c e p), que os brasileiros se orgulham de há muito as ter suprimido, contrariamente aos «lusitanos» que «teimosamente as conservam»: É indiscutível que a supressão deste tipo de consoantes vem facilitar a aprendizagem da grafia das palavras em que elas ocorriam. De facto, como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em […] concepção, excepção, […] a consoante não articulada é um p, ao passo que em […] correcção, direcção, […] tal consoante é um c? Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua. O texto do linguista António Emiliano responde a esta triste e despudorada ostentação de incompetência: A função de uma ortografia não é nem facilitar o ensino da escrita nem reflectir a oralidade; a ortografia serve para codificar e garantir a coesão da língua escrita normalizada de uma comunidade nacional.(2)

Da nossa desobediência a este AO dependerá o futuro da Língua Portuguesa que não pode estar sujeita a negociatas e a imposições de incompetentes.

Maria do Carmo Vieira

1 - De uma entrevista ao Estadão, 12 de Novembro 2012, citada por Fernando António Nabais no seu blogue AVENTAR a 15.11.2012

2 - António Emiliano, Apologia do Desacordo Ortográfico. Lisboa, Babel, 2010, pág. 141.

 

 

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