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As Poluídas Águas da Barragem dos Patudos

17-04-2015 - Eduardo Costa

Aqui bem perto de Almeirim, à entrada de Alpiarça, encontra-se um local tão agradável e paradisíaco quanto eventualmente perigoso: a BARAGEM DOS PATUDOS. Com efeito o arrastar de uma situação de degradação ambiental, ao longo dos anos, tornou-se num problema que julgo não ser exagerado afirmar de Saúde Pública.

Com o início da Primavera e o aproximar do Verão, reinicia-se o cíclico e grave problema ambiental das águas da Barragem dos Patudos, que não se resolve com a simples montagem de mais repuxos para aeração e oxigenação da água, face ao seu actual estado de degradação ambiental por hipereutrofização. Neste artigo irei fazer uma retrospectiva das muitas palavras e poucas acções verificadas desde o ano passado e com tendência para continuar.

No ano passado realizaram-se 2 provas de Triatlo de âmbito nacional em Alpiarça, onde centenas de jovens nadaram naquelas águas impróprias. No rescaldo dessas provas, perante as legítimas críticas dos vereadores da Oposição face ao estado da água, na Reunião de Câmara de 28Jul2013, o Sr. Presidente da Câmara afirmou que “… a água não levanta problemas para actividade balneária…” e que“… ao nível das bactérias, não há qualquer problema, porque os valores das análises apresentam níveis muito abaixo dos permitidos…”, tendo mais tarde entregue inúmeras análises químicas de várias datas a esses vereadores, que afinal demonstravam o contrário.

Assim, tendo essas várias análises sido analisadas por uma iminente engenheira química local, mestrada em Engenharia Sanitária, do relatório que ela efectuou, datado de 04Ago2014 e que foi entregue ao Sr. Presidente, saliento as seguintes ideias que extraí e que contrariam aquelas suas afirmações:

  • A concentração de “Fósforo Total” na barragem era de 130mg/m3, ou seja, cerca de 4 vezes mais, do máximo de referência tolerado pelo INAG (35mg/m3).
  • A concentração de “Clorofila” na barragem era de 450mg/m3, ou seja, cerca de 45 vezes mais, do valor a partir do qual o INAG considera a água eutrofizada (10mg/m3).
  • Estes 2 indicadores, indiciavam a presença das perigosas cianobactérias e, consequentemente, de neurotoxinas e hepatoxinas, ou seja, de toxinas que afectam o cérebro e o fígado de todos os seres vivos, em possível contacto com aquelas águas.
  • O índice de CBO (Carência Bioquímica de Oxigénio) na barragem era de 22mg/l, que indicava ainda que as águas estavam muito poluídas de matéria orgânica, ou seja, cerca de 3 vezes mais do valor, a partir do qual, o INAG considera a água de má qualidade (8mg/l).

Estes dados preocupantes, levaram a várias intervenções, de que destaco a Assembleia Municipal de 29Set2014, onde o Sr. Presidente com o seu habitual discurso político irónico, mas desajustado à gravidade da situação, socorreu-se até de uma fotocópia de um artigo do jornal “O Público” sobre estas águas, para procurar justificar o injustificável.

Entretanto havia enormes quantidades de peixe a morrer e a notícia de cegonhas mortas, que apenas indiciavam que, malgrado as palavras optimistas do Sr. Presidente, a situação real era muito grave.

Nesta altura outra polémica se iniciava. Tendo sido efectuadas análises a peixes mortos por sugestão do vereador do PS, cujos resultados são datados de 30Set2014 e sem esse documento ter qualquer carimbo, número ou data de registo oficial de entrada na CMA; apenas passado mais de 5 meses já em Fev/2015, essas análises vêm forçadamente a público e são dadas a conhecer aos 2 vereadores da Oposição, que de imediato reparam a gravidade da confirmação do expectável. As análises a esses peixes mortos, confirmam (obviamente) a existência neles e, consequentemente, nas águas da barragem, das referidas 3 palavras perigosas para a saúde pública – CIANOBACTÉRIAS, NEUROTOXINAS e HEPATOXINAS – por atacarem órgãos humanos vitais como são o cérebro e o fígado.

Sabendo-se que em Fev/2015 se realizou na barragem o 1º Encontro Escolar de Canoagem do Ribatejo, patrocinado pela CMA (com conhecimento dessas análises) e com a presença de inúmeras escolas de vários concelhos, e que a pesca desportiva com engodo continua autorizada, várias perguntas foram apresentadas pela Oposição e por mim ao Sr. Presidente, quer na Assembleia Municipal de 27Fev2015 quer na Reunião de Câmara de 09Mar2015, para as quais as suas habituais palavras políticas de circunstância, não responderam a nenhuma dessas questões objectivas expostas.

Entretanto teve-se conhecimento que as “Águas do Ribatejo” têm a sua unidade de captação e filtração de água, existente junto à Barragem, ligada por ramal à rede pluviométrica local que, por sua vez, descarrega directamente na barragem através de um enorme colector de cerca de meio metro de diâmetro. Sabendo-se que essa unidade das “AR” possui 2 gigantescos filtros que, sempre que se encontram saturados, necessitam de ser lavados e recirculados com água sob pressão, que depois é descarregada nesse colector e que, de acordo com estudo da DECO publicado em Dez/2012, as águas de Alpiarça possuem elevado teor de Arsénio, afigura-se de fácil conclusão que esta situação também deva contribuir para a situação da barragem, mesmo que esteja autorizada pela Agência Portuguesa do Ambiente o que se estranha.

De tudo isto resulta a angustiante dúvida, quase certeza, até alguém com responsabilidade em Saúde Pública se pronunciar oficialmente e que tarda, porventura por desconhecimento dos factos, se a população corre efectivo risco de saúde pública, ou mesmo de vida (ou não).

Apesar das minhas insistências junto do Sr. Presidente para, pelo menos, colocar avisos nas margens da barragem a informar da situação e dos riscos, a verdade é que por razões que não se vislumbram, mas que nada têm a ver com o DIREITO À INFORMAÇÃO da população, esses avisos continuam a tardar.

Surge entretanto a notícia que novos repuxos de recirculação e oxigenação da água da barragem irão ser montados, para “controlar” este grave problema que até pode agravar (por muita da flora eutrófica carecer de oxigénio para sobreviver e proliferar), mas que requer medidas radicais que tardam. Fica ainda a dúvida, se a pulverização sob pressão daquelas águas infectadas, não será perigosa para quem possa respirar aquelas gotículas, nas margens da barragem especialmente em dias de vento.

Independentemente de ideologias ou simpatias políticas, a população pretende que um presidente de câmara tenha iniciativa, tome decisões e informe com objectividade, o que neste problema não se tem visto. Apenas se verifica um discurso repetido que inúmeras entidades estão (há largos meses) a “acompanhar” o problema, que houve uma audiência com o Sr. Secretário de Estado do Ambiente cujos resultados práticos se desconhecem e que a solução (qual?) carece de verbas da União Europeia. A verdade é que passado este tempo todo, com tanta gente qualificada alegadamente a acompanhar o processo, ainda não se obteve a resposta a 2 simples questões:

- Causas e medidas preventivas?

- Solução e estimativa de verbas?

Tive até oportunidade de alertar o Sr. Presidente para a capacidade de iniciativa e de decisão do seu homólogo da Câmara de Mira, que estabeleceu um protocolo com o Exército, gastando apenas cerca de 15.000€ a limpar e despoluir 16 km de canais, muitos de difícil acesso. Ora a Barragem dos Patudos afigura-se ser um problema técnico, comparativamente menos complexo, de limpeza dos fundos com dezenas de toneladas de engodo da pesca e posterior renovação aquífera.

Até quando iremos manter este problema cíclico da Barragem dos Patudos? Até às eleições autárquicas de 2017?

Será assim tão complexo ou dispendioso colocar 2-3 bombas de alto débito a vazar a barragem para o canal de escoamento, aproveitar para reparar o seu ralo de fundo, transferir os peixes para a Vala Real ou para o Tejo e promover a limpeza/remoção dos fundos mesmo com recurso a meios militares como em Mira, voltando a enchê-la de novo?

Sempre ouvi dizer que em tudo na vida, pior que decidir mal, é a indecisão de não decidir.

Eduardo Costa

 

 

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