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Ainda as Guerras

07-06-2024 - Maria do Carmo Vieira,

Respiro, e deixo que respirem os outros.
Walt Whitman (Nova York,1819 – Nova Jersey, 1892)

Vivemos tempos tenebrosos de guerras várias, tema sobre o qual incido, de novo, pelo significado assaz calamitoso que consigo arrasta, interrompendo violentamente a vida das pessoas. Fáceis de desencadear porque ditadas pelo lucro do negócio, a elas sempre associado, sabemos também quão frustrados, cobardes e cruéis são os que as provocam. Imunes a qualquer acusação, agem a seu bel-prazer para atingir o que pretendem, incapazes que são de se fartarem de tanta vileza.

Tenho o hábito de registar palavras que me tocaram sobremaneira ou me chocaram profundamente. E tratando-se de guerra, não poderia deixar de mencionar o orquestrador de um certo caos mundial, decorrente da guerra no Iraque (2003), ou antes, da «Ocupação do Iraque», numa visível desestabilização de toda a zona geográfica que, desde então, se tem repercutido no mundo: George W. Bush. Lembremos as suas palavras que não nos surpreenderam então, porque habituados a um carácter nauseantemente hipócrita, que outros bajulavam, sorridentes, como é próprio, rastejando em sinal de devoção. Aliás, ficou como pesadelo a fotografia, nos Açores, juntando os desgraçados apoiantes dessa ocupação – Bush, Blair, Aznar e Durão Barroso - que sobranceiramente desafiaram o mundo, concretizando em regozijo os seus objectivos. Mas leiamos, então, Bush: «Rezo pela paz. Reconheço que há pessoas que não gostam da guerra. Eu não gosto da guerra. Gostava que Saddam tivesse dado ouvidos aos pedidos do mundo e tivesse desarmado. Essa era a minha esperança.» e, ainda, «Para defendermos a nossa grande nação, exportaremos a morte e a violência para os quatro cantos da Terra.»

Esta ideia de seita religiosa de «não deixar pedra sobre pedra», e de massacrar seja quem for, está muito ligada aos fazedores de guerras, que Erasmo de Roterdão (1466-1536), no seu sublime livro, «Elogio da Loucura» (1511), enaltece desta maneira: «A nobre guerra é feita por parasitas, infames, ladrões, assassinos, imbecis, devedores, escroques, em suma, pela escória da sociedade, e não pelos filósofos, por maiores que sejam as suas vigílias». E é certo, usando palavras do grande orador português, padre António Vieira (Lisboa, 1608 – Baía, 1697), que «até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro». Constatamos, assim, que a invocação de um deus assaz bizarro, pelos fazedores de guerras, são o testemunho perfeito de um perverso mundo às avessas, ao qual pretendem habituar-nos.

Esse mundo às avessas, tema tão característico da literatura medieval, e também clássica, projecta-se igualmente nos nossos dias. Observamo-lo diariamente. Vemos, por exemplo, incrédulos, a presidente da comissão europeia, Ursula von der Leyen, concretizar, mediante ajuda financeira ao governo tunisino, e outros, o abandono de migrantes, no deserto, abandonando-os a uma morte, lenta e certa. Situação flagrante de um ataque aos direitos humanos, de contínuo alardeados, mas, na verdade, completamente às avessas. Não se estranha, porquanto é a mesma Ursula von der Leyen que, movida pela ganância do poder, sorri abertamente a Giorgia Meloni, actual primeira-ministra italiana, e líder do partido de extrema-direita, «Fratelli d’Italia», cuja ideologia é, para além de eurocéptica, marcadamente nacionalista, logo, contrária à imigração.

É pensando no significado destas alianças e do muito que se tem dito a propósito de guerras, que tomei bem consciência da importância das próximas eleições europeias, a 9 de Junho. Na verdade, com o nosso voto podemos tentar minimizar a força dos que não só não se cansam de guerras, delas se aproveitando, como também forçam uma pseudo-resolução da actual emigração, alheando-se voluntariamente dos direitos humanos que dizem defender.

Maria do Carmo Vieira,

Lisboa, 5 de Junho de 2024

 

 

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