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SOB O SIGNO DAS FÁBULAS

01-03-2024 - Maria do Carmo Vieira

Esopo (629. A.C. – 564 a. C), contador de hist órias da Grécia Antiga, a quem se atribui a criação de curtas e expressivas fábulas, de cariz fundamentalmente moral, e em que os animais, sendo protagonistas, simbolizam qualidades e defeitos humanos, não é certo que tenha realmente existido, a par de Homero, sobre quem pende a mesma dúvida. De acordo, no entanto, com o geógrafo e historiador Heródoto (séc. V a. C.), Esopo seria um escravo, mais tarde liberto, na ilha grega de Samos, pelo filósofo Xanto a quem fora vendido. A sua sagacidade e observação crítica foram reconhecidas por todos aqueles que a ele se referiram, nomeadamente Platão (428 a.C. – 347 a.C.) e Arist óteles (384 a.C. – 322 a.C.). Fedro (s éc. I d. C.), que na Roma antiga lhe seguiu as pegadas, estilizando muitas das suas fábulas que lhe chegaram oralmente, dado que nunca foram escritas, era, por coincidência, também grego de nascimento e filho de escravos, tendo sido liberto desse jugo pelo próprio Imperador Augusto e depois perseguido, e mesmo exilado, por Tibério (42 a.C – 37), devido ao seu esp írito crítico mordaz. No género «fábula», e séculos depois, o poeta francês La Fontaine (1621-1695) aproveitará igualmente essas curtas histórias de Esopo, versificando-as e incluindo-as na sua vasta obra fabulística.

Personagem mítica ou histórica, Esopo «é tudo» no que à criação de fábulas diz respeito, em sintonia com os expressivos versos de Fernando Pessoa, no seu poema dedicado a Ulisses (Mensagem), personagem homérica, da Odisseia, que, a caminho de Ítaca, teria passado por Lisboa, fundando-a: O mito é o nada que é tudo. (…) // Este, que aqui aportou, / Foi por não ser existindo. / Sem existir nos bastou. / Por não ter vindo foi vindo / E nos criou. Esopo continuará, pois, como o criador das fábulas que em si guardam uma miríade de comportamentos, definidores das relações humanas.

Foi relendo a fábula de Esopo sobre «O Lobo e o Cordeiro» que, de novo, a associei a tanto do que acontece no mundo, incluindo no nosso país, em que se oprimem inocentes, invocando pretextos falsos. Na verdade, ontem como hoje, e seguramente, amanhã, a fábula de «O Lobo e o Cordeiro» continuará a mostrar a habitual colisão de comportamentos, em que o mais forte, completamente imune a problemas de consciência, dizima o mais fraco. Pode ser que aconteça ainda o milagre, na visão da Hannah Arendt, salientando a força de quem se obstina por uma causa, não de forma isolada, mas em união com os demais.

Lê-se na referida fábula que um lobo, «à procura de uma boa refeição», encontrou um «cordeiro indefeso« que se afastara do rebanho. Depois de ter tentado por diversas vezes acusar o cordeiro de situações por si forjadas, na mira de justificar a refeição que desejava, e que supostamente o haviam prejudicado, foi com surpresa que as ouviu rebater, sem excepção. A título de exemplo, e porque, na verdade, no seu significado não se diferenciam muito do que ouvimos algumas vezes, transcrevo dois desses pretextos e respectivas reacções: «Constou-me», disse o lobo, «que há cerca de um ano andaste a falar de mim nas minhas costas, -- «Como posso ter feito tal coisa se nessa altura ainda não era nascido? – baliu o cordeiro num tom de voz choroso. Ao ouvir o argumento do cordeiro, o lobo voltou a implicar: - E também sei que andaste a pastar nos meus campos. – N ão, meu bom senhor – respondeu o cordeiro. – Isso é impossível! Pois ainda nem sequer tenho dentes para comer». E porque estava na sua natureza, o que se acentuou com a irritação crescente contra o pobre cordeiro, disse ainda o lobo antes de o devorar: «Bom, não vou ficar sem jantar só porque refutas todos os meus argumentos», concluindo-se a fábula com a lição: «Contra a força não há resistência».

E passando para hoje, independentemente da geografia. Não sabemos nós da importância da biodiversidade ou da imperiosa necessidade de não intensificar o efeito de estufa ou de não desperdiçar a água? Não se têm intensificado os alertas dos cientistas, acusando a morosidade ou mesmo a suprema negligência em intervir, com seriedade, no problema que não solucionado minimamente resultará trágico para a vida na Terra? Mas o que fazem entretanto os «lobos», de várias línguas, no intuito de quebrarem a resistência, evidenciando simultaneamente a força do dinheiro e da ambição, semelhante à sua vontade de comer? «Os lobos» continuam a planear campos de golfe, a exigir mais Turismo e mais viagens de avião, a construir em leitos de rios e ribeiras, a deitar abaixo serras, a desmentir todos os alertas, pormenorizada e cientificamente justificados, a aprovar culturas intensivas, a adiar sucessivamente o uso do plástico ou demais objectivos a cumprir, queixando-se, entre outros, e sobranceiramente, dos ambientalistas e dos agricultores que os incomodam. Não continuamos também a ouvir notícias sobre a exploração desenfreada que se abate sobre os imigrantes, apontados demagogicamente como factor de insegurança e outros malefícios, quando a eles se deve, entre outros benefícios, o parco rejuvenescimento do país em que se encontram? Não se paga oficialmente a gente sem escrúpulos para enxotar, maltratando ou mesmo massacrando, quem ouse fugir à guerra, à fome, a más condições de vida?

Com efeito, «não há disfarce que esconda a verdadeira natureza das pessoas», é a lição de moral de outra fábula de Esopo («O burro que vestiu a pele de leão») a que teremos de juntar forçosamente a do «Feixe de varas» que conclui com sapiência que «a união faz a força». Unamo-nos, pois, contra os «lobos» para não acabarmos devorados!

Maria do Carmo Vieira

 

 

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