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A CHOLDRA TORPE

09-06-2023 - Francisco Pereira

“... Isto é uma choldra torpe." Quem assim se referia a Portugal nestes termos era João da Ega, o verrumoso e crítico inexorável, o inefável companheiro e confidente do protagonista do romance “Os Maias”, Carlos da Maia, Ega é claramente o alter ego de Eça de Queiroz, que escolheu esta personagem, para nessa sua imortal obra “Os Maias” dizer tudo quanto lhe ia na alma acerca da sociedade desta velha nação, que na visão de Eça soçobrava afogada no seu miserabilismo, e o que não diria Eça, se hoje aportasse novamente a esta choldra.

O romance “Os Maias” aparece em 1888, passaram portanto cento e trinta e cinco anos, no entanto no que à Choldra diz respeito, Os Maias, poderiam ter sido publicados ontem, porque muito do seu conteúdo está absolutamente actual, Portugal continua a ser uma Choldra, uma cada vez maior Choldra, cada vez mais mal frequentada, cada vez mais uma triste república dos e das bananas.

Não interessa para onde nos viremos, quase tudo neste país é feito com os pés, quase tudo está mal pensado, desenquadrado da realidade, minado por burocracias infindáveis que até se justificariam, acaso posteriormente constatássemos que as coisas funcionam, mas não, não é assim que infelizmente se passa, a realidade é bem mais atroz. Nos cento e trinta e cinco anos que medeiam entre o ano da primeira publicação do romance em questão, Portugal experimentou várias convulsões, das campanhas bélicas em África nas últimas décadas do século XIX, passando pelo Ultimatum, pela revolta de 31 de Janeiro, pela Revolução e implantação da República, pela Grande Grande, pela Guerra Colonial, pelo 25 de Abril e pela entrada para a União Europeia, Portugal viu convulsões suficientes para, conseguir fazer o país sair, várias vezes, das garras do torpor macilento que o envolve, no entanto, por muito surpreendente que isso seja, ou não, nada realmente aconteceu assim de tão drástico, é verdade que fomos mudando, que nos fomos tornando mais civilizados, pelo menos nas aparências, pois somos um povo, que gosta muito de parecer sem o ser.

Porém apesar de todas estas mudanças cataclismicas, de todos estes abalos, o âmago desta sociedade continua a ser a velha e fiável Choldra, apesar de termos tido notáveis avanços, alguns demasiado tímidos, continuamos a ser “uma choldra torpe." Não é dispiciendo para esta constatação verificarmos que os problemas de que enfermávamos em 1888, são grosso modo os mesmos que enfrentamos hoje, uma classe política absolutamente medíocre, academicamente e intelectualmente indigente, mais interessada em servir-se do que em servir, o rotativismo dos fins da Monarquia, prossegue agora com outros nomes e outras cores, até se repetem alguns dos nomes de família, repete-se o caciquismo, repete-se o nepotismo, repetindo-se até a mesma oligarquia mafiosa mais as tentaculares clientelas agarradas à teta do Estado, são gémeas daquilo que eram naquele fim do século XIX quando Eça classificava tudo isto como uma “choldra torpe."

As elites continuam miseravelmente fechadas sobre si, distribuindo entre si os cargos e as tenças, continuam a ser uma choldra, o povaréu, regrediu décadas, por incrível que possa parecer este povo do século XXI, é infinitamente muito mais mentecapto que os seus antepassados do século XIX, se os segundos eram analfabetos, os primeiros tornaram-se analfabrutos, burgessos completos, são uma choldra, infelizmente perderam-se valores essenciais de respeito pelo próximo mais de respeito pelas instituições que redundam em perda de respeito dos próprios por si mesmos consequentemente desembocando numa absoluta falta de sentido de Estado que facilmente se verifica nas elites políticas dos vários quadrantes, sim porque sejam eles mais direitos ou mais enviesados a coisa dá igual, a mediocridade de choldra está lá garantida.

Estou convicto de que se João da Ega, fosse transportado para os dias de hoje, transportado por artes mágicas para a modernidade, teria morrido com uma apoplexia fulminante, não sem antes zurzir ainda mais um pouco nesta “choldra torpe", não que isso parece ter qualquer consequência, muitos zurzem neste triste estado a que tudo isto chegou mas ninguém já os leva a sério, somos como foram esses do “fin de siècle” mais uns “vencidos da vida” que assistimos ao triste desbaratar dos parcos recursos de uma velha Nação, que assistimos ao esboroar das instituições, que assistimos ao regresso da”choldra torpe." Choldra essa que vai seguramente dominar, estou portanto nada esperançado num bom futuro de Portugal, em 1888 éramos uma “choldra torpe”, em 2023 continuamos a se-lo, no futuro infelizmente continuaremos a ser a mesma “choldra torpe", as palavras de Ega/Eça, continuarão a soar familiares, aos poucos, cada vez menos, que as lerem, continuarão a reconhecer a sua perspicácia e contemporaneidade, ah grande Eça, pena que dessa têmpera não já existam mais.

Francisco Pereira

 

 

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