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Segunda-feira 11 de Dezembro de 2023  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

LISBOA

28-04-2023 - Maria do Carmo Vieira

Olisipona foi fundada e denominada por Ulisses; no qual lugar, dizem os historiógrafos, se dividem o céu e a terra, os mares e as terras.

Santo Isidoro de Sevilha, século VII

Que humano era o toque metálico dos eléctricos! Que paisagem alegre a simples chuva na rua ressuscitada do abismo! Oh, Lisboa, meu lar!

Fernando Pessoa/Bernardo Soares

Relembrar os diferentes nomes de Lisboa é o tema do artigo que vos proponho e que com gosto escrevo. Olyssipo ou Lisboa de Ulisses, Lisboa dos «Vicentes», Lisboa romana (Felicitas Iulia), Lisboa árabe (Al-Uxbuna), Lisboa, «Rainha do Oceano», Lisboa do «bulício, do Tejo, da «maresia», Lisboa, «Meu Lar!». Na designação da cidade se aliam o mito e a lenda à conquista e à aventura marítima que a coroou, nas palavras de Damião de Góis (1502-1574), e que a poesia de Cesário Verde (1855-1886) enalteceu e a de Fernando Pessoa (1888-1935) nela reconheceu afectivamente o seu espaço de inspiração e de recolhimento, sendo aqui importante recordar a etimologia do vocábulo «Lar» – dos deuses latinos, Lares, protectores da família. E a testemunhar quão fundamental é o passado para a compreensão do presente, a forçosa presença da etimologia que explica culturalmente a origem das palavras de uma Língua e que, hoje em dia, muitos pretendem ignorar, não podendo obviamente impedir as múltiplas histórias que aquela nos conta, elucidando-nos. Escreveu Luís Marinho de Azevedo (1599-1652) que «Lisboa foi conhecida dos antigos com diferentes nomes; variedade causada da corrupção dos tempos, ou da língua de seus conquistadores. Chamou-se primeiro Elisea, e sucessivamente, Ulissea, Olissipolis, Ulysipo, Olisipo, Faelicitas Iulia, Olisipona, Exubona, Lisibo, Lixbuna, ultimamente Lisboa.» Implicando factos reais e míticos, juntando culturas e conquistadores, foi longa a viagem no Tempo que remete para gregos, romanos, visigodos e árabes.

Foi a Odysseus, o herói da «Odisseia» de Homero, em latim, Ulysses, o «homem das mil viagens», que se deveu a artimanha do cavalo de madeira que daria a vitória aos gregos, na Guerra de Tróia. Saudoso de Ítaca, onde era rei, e após a vitória sobre os Troianos, desejou ansiosamente regressar à sua ilha ao reencontro de Penélope, sua mulher, de Telémaco, seu filho e de Argo, o seu velho cão, o único que, aliás, o reconhecerá à sua chegada a Ítaca depois de uma errância de 20 anos pelos mares, por vontade de Poseidon (deus dos Mares, Neptuno, em latim) que se opusera ao seu regresso. Diz o mito que foi durante essa errância que Ulisses aportou a Lisboa, criando a cidade com o seu nome - «Olyssipo» ou seja, a cidade de Ulisses. Fernando Pessoa, na sua única obra publicada em vida, «Mensagem» (1934), dedica ao herói viajante um poema, «Ulisses», no qual escreve: O mito é o nada que é tudo.//Este, que aqui aportou,/ Foi por não ser existindo. / Sem existir nos bastou. / Por não ter vindo foi vindo / E nos criou.

Felicitas Iulia, numa homenagem a Júlio César (100 a.C. – 44 a.C.), foi outra versão da importante cidade lusitana, «frequentada e dominada por mercadores» no seu envolvimento com os portos do Mediterrâneo. Nela, «[…] os cereais, as frutas e o gado constituíam mantimentos abundantes. A indústria da pesca, o sal e o ouro explorado em veios na outra margem ou nas areias do Pragal completavam o quadro da sua riqueza.» Privilegiada pelo imperador, na atribuição de Municipium Civium Romanorum, usufruiu de «todos os direitos dos cidadãos de Roma».

A Lisboa muçulmana – Lixbuna - manteve a imagem de uma cidade fértil, rica e em acelerado desenvolvimento por nela [se juntarem] «as bondades do mar e da terra», como justifica o geógrafo mouro, do século X, Ahmede Arrazi, uma situação não alheia à contribuição civilizacional do Islão, nomeadamente, e cito o historiador Borges Coelho, «na propagação das técnicas de rega, da bússola, do papel, no aumento do pomar peninsular […]. A fisionomia do Portugal agrário moldou-se em boa parte pelo arquétipo do Ândalus mourisco, mesmo quando não é ele o autor das técnicas, mas o seu último transmissor.». Também na língua portuguesa encontramos profundas marcas da presença árabe (do séc. VIII ao séc. XIII), num sem-número de palavras distribuídas por diferentes campos lexicais. Daremos alguns exemplos, e como não poderia deixar de ser, começaremos por Almeirim (Al = artigo + Meirim que se presume ser um nome próprio árabe), Aljube (Al + jubb = a prisão, cela obscura), Açucena (As + susana= com o mesmo significado), Jasmim (Iasimin = com o mesmo significado), Alcântara (Al + +qantara= ponte de pedra, aqueduto), Alecrim (Al + eclil= com o mesmo significado) ou ainda Alfama (Al + hamma= caldas ou fonte de água quente) e Chafariz (Sahrij = poço, fonte).

E quem não reparou já nos corvos poisados numa caravela, e que a tradição apelidou de «Vicentes»? Diz mais uma vez a lenda que no reinado de D. Afonso Henriques, pouco depois da conquista de Lisboa aos muçulmanos (1147), dois corvos acompanharam a caravela, com as relíquias do mártir S. Vicente, um à popa e outro à proa, protegendo-as desde o promontório algarviense até Lisboa onde teriam sido depositadas na Sé. Na lenda se criou o símbolo de Lisboa. Uma história que também nos é contada por Damião de Góis, na sua «Descrição da Cidade de Lisboa» (1554). É ainda nesta obra que o cronista apelida Lisboa e Sevilha de «Rainhas dos Oceanos», evocando o domínio das duas cidades «sob cuja direcção […] hoje em dia se processa a navegação em todo o Oriente e Ocidente», sendo que «a zona mais importante e mais famosa [de Lisboa] fica voltada para o nascente.» Toda a obra é de uma descrição pormenorizadamente convidativa, relevando a opulência e a fertilidade da cidade e a glória que representa o Tejo, no cruzamento de mercadores e de viagens. O lado profundamente humanista de Damião de Góis, causa da perseguição que o Santo Ofício lhe moveu, determinando mesmo o seu encarceramento, praticamente até á morte, é bem visível na conclusão da referida obra cuja leitura aconselho vivamente: «[…] se este nosso trabalho não agradar ao leitor, saiba que não fiz esta obra por imaginar que eram caminhos vedados a outros escritores. Por conseguinte, se alguém apresentar uma narrativa mais perfeita acerca da origem e situação da cidade de Lisboa, fique ciente de que fará uma acção sem dúvida agradável para todos, e para mim, sobretudo, muito grata.»

Na sua mestiçagem cultural, contrariando naturalmente a opressiva e artificial ideia de pureza, Lisboa, dita também Olissipo, foi sempre espaço de sedução criativa, sendo dela indissociáveis os dois poetas inicialmente referidos. Cesário Verde, no seu poema «Sentimento de um Ocidental», visualiza em tonalidade impressionista a cidade, percorrendo-a e observando-a ao longo de várias horas - «Ave Marias», «Noite Fechada», «Ao Gás» e «Horas Mortas»; Fernando Pessoa, num tributo ao «mestre» e à cidade, escreveu, na prosa poética de Bernardo Soares, seu semi-heterónimo, e «ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa»: Se houvesse de inscrever, no lugar sem letras de resposta a um questionário, a que influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de CESÁRIO VERDE, mas não o fecharia sem nele inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do Vieira caixeiro de praça e do António moço do escritório. E a todos poria, em letras magnas, o endereço chave LISBOA.

Maria do Carmo Vieira,

 

 

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