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Arqueologia – O achado de mais um “OCNI”

17-02-2023 - Cândido Ferreira

- OCNI, “palavrão” que não faz parte do léxico da Arqueologia, é a designação pessoal que atribuo a qualquer objeto curioso não identificado.

As peças antigas, com que diariamente deparo, não cessam de me surpreender. Esta foi a última que me foi apresentada, alegadamente saída do espólio de uma velha casa senhorial degradada.

À primeira vista, confirmei ser um objeto muito estranha, que “berrava” com tudo o que vira até então. Analisada por vários “peritos”, só havia a “garantia” de ser de barro. Quanto ao resto, pelo aspeto, “parecia” ser medieval e pensava-se ter origem ibérica, talvez de influência árabe ou judaica.

Observada cuidadosamente e manipulada, outra certeza juntei: a exótica peça era claramente genuína, até porque, pelo preço pedido, nenhum artesão, ainda que louco, se daria ao trabalho de produzir tal artefacto.

E mais duas certezas firmei: o seu desenho e a função deste castiçal, nada tinham a ver com a Península ou com essas civilizações, permanecendo a sua origem um mistério. Havia, pois, que a adquirir e “perder” muito tempo, quem sabe se anos, a classificá-la.   

Desta vez, porém, tive “sorte”. Já com algum treino nestas pesquisas, e o apoio informático da família, em cinco minutos a questão estava “resolvida”.

Tratava-se de um dos quinhentos mil castiçais introduzidos pelas SS alemãs, em 1944, quando o desvario nazi conduziu à tentativa de criar uma nova religião europeia, alicerçada em velhas tradições. Distribuído como objeto do novo culto, seria uma reprodução fiel de outras recuperadas da Suécia, estas datadas dos séculos XVI e XVII. Hoje raríssimas, a última havia sido adquirida em leilão, por um preço bem significativo.

No entanto, com o “dia ganho”, depressa me assaltaram mais e mais dúvidas. Diziam os entendidos que, na base, estaria gravado SS, o que estava longe de acontecer. Além disso, tendo sido cuidadosamente preservada em Portugal, nunca poderia apresentar aquele aspeto ao fim de oitenta anos.

De tão intrigante, “obrigatório” se tornou recuar e rever toda aquela “matéria”, desta vez “emigrando” para a Suécia. Confirmado em minutos, tratava-se inequivocamente de um castiçal de culto pagão, usado ancestralmente pelas famílias daquele país, em determinada época do seu ano religioso.

E outra boa surpresa nos estava reservada: a ser autêntica, como tudo indiciava, teríamos de acrescentar pelo menos mais um zero ao investimento inicial.  

Mas a Arqueologia não se rege por indícios e o artefacto apresentava ainda várias interrogações por resolver: a base, com um grande buraco circular, apresentava-se impregnada por uma massa lamacenta; no interior, não havia sinais de fumo; e, no bocal, para tanto uso, as manchas de fuligem eram demasiado ténues.

 

A explicação para esses enigmas acabaria, contudo, por ser facilmente encontrada. O meu “OCNI” consumia uma simples vela em cada ano e só no último dia das celebrações a deixavam arder até ao fim. Ao contrário das reproduções alemãs, expostas cuidadosamente em finos móveis, as suecas eram naturalmente exibidas em chão térreo. E, numa época de extrema pobreza, nunca qualquer chama brilhara no seu interior, “luxo” que exigiria desperdício e um prato a servir de base.

Nos habituais exercícios de tele arqueologia, com que por vezes alguns “cromos” me brindam, talvez alguém ainda me venha “exorcizar”, pretextando que é mais uma “história da carochinha”, sem fundamento na ciência de que se arrogam guardiães.

Reconheço-lhes alguma razão, porque dúvidas ainda me restam. Como e quando chegou esta peça a Portugal? Terá sido na Idade Moderna ou, como muito bem pode ter acontecido, em época bem mais remota, trazida por vikings ou cruzados?

Mas isso já não são contas para o meu pobre rosário.

Cândido Ferreira

 

 

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