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21-01-2022 - Maria do Carmo Vieira

Os governos são para fazer bem com o pão próprio, e não para acrescentar os bens com o pão alheio.

Padre António Vieira (1608-1697)

Sendo Janeiro um mês cujo nome guarda uma despedida, apontando simultaneamente para o futuro, em conformidade com a sua etimologia que o liga ao deus latino Janus, representado com rosto duplo, eis que, por coincidência, nos aproximamos de uma mudança que desejamos benéfica, impondo-se que votemos nas próximas eleições legislativas de 30 de Janeiro, e assim possamos também afastar o pesadelo da abstenção que é uma forma de dizer que nos desresponsabilizamos da política, entregando-nos perigosamente nas mãos de qualquer um. A ligação do novo rosto do ano com a mudança que se procura exigirá que reflictamos bem sobre o que desejamos para o nosso futuro, enquanto país que queremos soberano, tendo também em conta a sua participação europeia, numa comunidade que, lamentavelmente, tanto nos tem surpreendido com a sua política de imigração, havendo igualmente uma manifesta lentidão na sua oposição a comportamentos que põem em causa os seus próprios valores, e lembramos a falta de liberdade da Comunicação Social na Hungria e na Polónia ou a selvajaria relativamente a migrantes.

Ecoando em nós apelos recentes, e repetidos, a maiorias absolutas acenadas em nome de uma estabilidade política e de uma boa governabilidade, justificações que escondem também nefastas consequências, alerto-me interiormente para não me deixar seduzir por cantos de sereia, estafados já na sua estratégia enganosa, e cujos efeitos, por experiência, também conheço e todos conhecem. Desde o 25 de Abril houve apenas duas maiorias absolutas, e felizmente para nós que não tornou a acontecer a reincidência porque ambas demonstraram à exaustão quão perigoso e nocivo é a sua concretização. Encabeçadas por diferentes partidos, uma do PSD, através de Cavaco Silva, em 1987, e a segunda do PS, em 2005, com José Sócrates, lembramos nestes dois primeiros-ministros a sua arrogância, condimentada com discursos de teor narcisista, meloso e patético, tonalidades que se envolvem com um paternalismo totalitário bem expresso na frase de que tanto gostam: «Deixem-nos trabalhar». Em ambos vislumbrámos igualmente a sua profunda falta de cultura que, em vão, tentaram mascarar, escolhendo, desajeitadamente, diferentes possibilidades que, em diversos momentos, os foram traindo: a anedota pública ou a obra feita por encomenda. De corrupção também se falou, mas nessa matéria, incansável e intemporável na sua continuidade, muito tem sido arquivado ou prescrito. Está na natureza da Justiça que grassa entre nós e nos escritórios de advogados cujos «talentos» passam de pais para filhos, procurando com afinco resguardar uma imagem zelosamente construída, de forma a espelhar a hombridade que lhes dará crédito.

Nas maiorias absolutas, o poder esquece de forma consciente o diálogo que o acto de governar exige e, consequentemente, a capacidade de ouvir, tendo, como é natural, tendência a ignorar todo e qualquer espírito crítico que colida com as suas determinações. É seguro também que nada melhor do que maiorias absolutas para activar ardilosamente jogadas que disfarçarão a corrupção. Faz parte desse poder fazer, não controlado, e em que os cidadãos são encarados como meros colaboradores obedientes. E quando nos lembramos dos «salvadores da pátria» que na Europa, incluindo Portugal, conhecemos pelos nomes de André Ventura, Santiago Abascal, Matteo Salvini ou Éric Zemmour, tememos ainda mais os apelos a maiorias absolutas. Todos estes salvadores caluniam demagogicamente os políticos, num convite a uma votação que os privilegie, esquecidos da sua própria inserção na política; «cheios de futuro», veneram, sem pejo de o dizer, modelos cujo único intuito é massacrar os que, por azar, foram ou são escolhidos como bodes expiatórios. Nacionalismo e racismo são os anti-valores que devotamente propagam. Não surpreende, pois, que se imitem na sua forma guinchada de discursar e em contínuo e nevrótico crescendo, ostentando todos uma intensa religiosidade de fachada que se ajusta bem às palavras do Evangelho de Mateus: Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados: formosos por fora, mas, por dentro, cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de imundície.» Têm ainda todos em comum uma grande admiração por Trump e Bolsonaro.

A poucas semanas de ir votar, sei que o que me impele a fazê-lo é a defesa da Escola Pública e a qualidade do seu ensino, a par de uma inclusão séria que respeite o futuro dos alunos; do Serviço Nacional de Saúde, nele se incluindo a incentivação à exclusividade dos médicos; de uma Economia que não se sobreponha aos direitos dos cidadãos; da Cultura, enquanto alimento do espírito que não pode ser oferecido só a alguns; do Ambiente que zele responsavelmente por um equilíbrio e seja imune a negociatas que o deterioram constantemente; da Justiça, que raramente honra o significado do símbolo que a identifica; da Agricultura, que ostensivamente tem sido exemplo de um profundo desrespeito pela terra; de uma Segurança Social que denuncie a vergonha que é receber os impostos pagos pelos imigrantes cuja falta de documentação, fruto de sucessivos atrasos do SEF, os impossibilita de receber abonos, ou ter acesso a cuidados de saúde, entre outros etcs., e tantas outras situações em que no momento de votar penso, na esperança de uma mudança.

Escolhi para epígrafe e conclusão do meu texto reflexões intemporais do Padre António Vieira, ligadas ao poder governativo, que forçosamente nos fazem pensar, neste momento em que nos preparamos para ir votar a 30 de Janeiro: Nospecados de ministros, se o poder se ajunta com a ambição, com a soberba, com o ódio, com a vingança, com a inveja, com o respeito, com a adulação, não há lei humana nem divina que não se atropele, não há merecimento que se não aniquile, não há incapacidade que se não levante, não há pobreza, nem miséria, nem lágrimas que se não acrescentem, não há injustiça que se não aprove, não há violência, não há crueldade, não há tirania que se não execute.»

Maria do Carmo Vieira

 

 

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