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UM OLHAR SOBRE A “DIREITA”

22-10-2021 - Francisco Garcia dos Santos

Desde o surgimento nos espaços da direita liberal e da direita radical, representados pelos partidos Iniciativa Liberal e Chega, os velhos PSD e CDS depararam-se com problemas ideológicos e de posicionamento no espectro sócio-político português.

De facto, muito comodamente, o PPD-PSD, desde a sua fundação por Francisco de Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Magalhães Mota poucas semanas após o “25/Abr./1974”, e depois da criminosa e trágica morte do primeiro, e com os demais líderes que se lhe sucederam, sempre gozou do conforto da alternância com o PS enquanto maior partido português e de Governo, mercê de professar em termos ideológicos uma social-democracia à portuguesa e, concomitantemente, duma forte implantação popular em todo o território continental e ilhas adjacentes. É que durante o PREC (Processo Revolucionário em Curso) iniciado a 29 de Setembro de 1974 com a demissão do então Presidente da República General (depois Marechal) António de Spínola e sua substituição pelo também General (depois Marechal) Francisco da Costa Gomes, simpatizante do PCP, mas também, logo no início do Verão de 1974, com a demissão do Primeiro-Ministro do I Governo Provisório Prof. Doutor Adelino da Palma Carlos, patriota, republicano e democrata pluralista, substituído pelo Coronel Vasco Gonçalves, esquerdista muito próximo do PCP, esse PREC foi acelerado a partir da intentona golpista de “11/Mar./1975” liderada atabalhoadamente pelo então General António de Spínola.

Ora, em termos político-partidários e sociológicos, não tendo o PPD-PSD sido banido pela esquerda revolucionária do MFA liderada pelo então Major (depois Coronel) Otelo Saraiva de Carvalho durante o PREC, tal Partido, não sendo de direita, antes de centro-esquerda, acolheu no seu seio muitos direitistas e, alternadamente com o PS de Mário Soares, ou até em termos de governo de “bloco central”, conseguiu sobreviver e até governar com maiorias simples e absolutas lideradas por Cavaco Silva de 1985 a 1995; mas também coligado com o CDS com Durão Barroso e Santana Lopes de 2002 a 2005, governo este que foi demitido pelo então Presidente da República Jorge Sampaio mediante “golpe de Estado constitucional”, i. e., dissolvendo a Assembleia da República e convocando eleições legislativas antecipadas, quando o Governo dispunha de uma maioria absoluta de apoio parlamentar, tudo com vista a permitir a ascensão ao “poder” do seu PS liderado por José Sócrates, cujo resultado foi o que se sabe.

No caso do CDS, fundado por Diogo Freitas do Amaral, segundo o próprio por “encomenda” do MFA (Movimento das Forças Armadas), com vista a representar a “direita”, beneficiou da ilegalização de vários partidos efectivamente de direita, como o Partido do Progresso, e o impedimento por Otelo e esquerda do MFA de o PDC (Partido da Democracia Cristã), também ele de direita e liderado pelo Major Sanches Osório, concorrer às eleições para a Assembleia Constituinte em 1975. Assim, estou certo de que, setal não tivesse sucedido, em vez do CDS, a direita conservadora e democrata-cristã teria no PDC o seu representante. Deste modo, concomunado com a esquerda militar e fazendo-lhe “fretes”, o CDS consegui a monopolização todo o espectro ideológico e sócio-político à direita do PSD, já que, à falta de melhor, o eleitorado de direita nele votava utilmente. Contudo, em termos ideológicos, este Partido, salvo ao tempo da efémera liderança de Manuel Monteiro, que posicionou o CDS à direita, e hoje, em desespero de causa, Francisco Rodrigues dos Santos (mas penso que tardiamente) quase sempre se auto-intitulou de “centro”e tendo “horror” ao adjectivo “direita”, fazendo jus à sua denominação de Partido do Centro Democrático Social. Depois, é bom não esquecer que tanto Freitas do Amaral como Basílio Horta, entre outros, se bandearam para o PS ao tempo de José Sócrates.

Portanto, por voto útil e à falta de quem verdadeiramente a representasse, a direita liberal, conservadora e ideológica ou radical, quando não se abstivesse, foi votando no PSD e no CDS, passando estes dois partidos, erroneamente, a serem apelidados de direita.

Mas, inesperadamente, tudo mudou na direita quando em 2019 surgiram o Iniciativa Liberal (IL) de Cotrim de Figueiredo, e o Chega (CH) de André Ventura, os quais conseguiram eleger-se deputados à Assembleia da República. Desde então até ao presente, nas mais diversas sondagens sobre intenções de voto em eleições legislativas divulgadas pelos media, tanto o IL como o CH têm vindo a subir e a consolidar resultados altamente positivos: o 1º disputa o 4º lugar de partido com assento parlamentar com o PCP-CDU; o 2º disputa o 3º lugar de partido com assento parlamentar com o Bloco de Esquerda (BE).

Contudo, e até por via de PSD e CDS terem vindo a perder intenções de voto para o IL e CH, ambos se encontram em “convulsão” interna: no PSD Paulo Rangel já se assumiu como challenger de Rui Rio nas próximas eleições directas para a liderança do Partido, e Rio também já anunciou que irá a “jogo” para defender o seu lugar, sendo que este “perdeu” a última reunião do Conselho Nacional; já no CDS, Nuno Melo apresentou-se como concorrente à liderança do Partido contra Francisco Rodrigues dos Santos. Em ambos os casos, o que está em jogo é o redireccionamento ideológica dos Partidos e a “construção” dum discurso que lhes permita recuperar eleitorado perdido para o IL e CH, sendo que no caso do CDS, este luta pela sua própria sobrevivência.

Quanto ao CH, não obstante constatar-se que André Ventura conquistou e mantém altos níveis de popularidade, e ter tido um bom resultado nas eleições presidenciais e autárquicas deste ano, o mesmo afigura-se permanecer com grande amadorismo político e desorganização interna, o que ficou demonstrado pelo facto de o Tribunal Constitucional ter considerado ilegais/nulas todas as deliberações dos seus órgãos estatutários a partir da Convenção Nacional (Congresso) de Évora ocorrida em 2020, já que na respectiva convocatória não constava qualquer menção à alteração dos Estatutos, mas que na realidade sucedeu.

Por fim, o único partido de “direita”, ou centro-direita liberal, que está a manter popularidade, sobretudo entre as gerações mais novas e academicamente qualificadas (dos 18 aos 30/35 anos de idade) dos grandes centros urbanos, e “sossegado” a nível interno, é o IL e seu líder Cotrim de Figueiredo, não obstante contradições ideológicas, como a defesa dum liberalismo radical económico a par de intervencionismo do Estado na Economia no que toca a grandes empresas públicas e semi-públicas, como a TAP, e algum conservadorismo de costumes, mas apoiando a eutanásia.

Assim sendo, temos um centro-direita e direita “estilhaçados”, o que demonstra uma grande fragilidade quanto, a solo ou em coligação, poder constituir uma alternativa de poder à atual governação socialista nepotista, oligárquica e cleptocrática com o apoio do PCP e do BE.

Ora, se nas próximas eleições legislativas de 2023 a “direita” pretender derrubar o PS do Governo, à semelhança do que, para muitos surpreendentemente, Carlos Moedas e sua Coligação “Novos Tempos Lisboa” conseguiram nas últimas eleições autárquicas de 26/Set., PSD e CDS têm de clarificar as suas orientações políticas e lideranças respaldadas em maiorias claras e inequívocas dos respectivos militantes, que consigam mobilizar estes últimos, simpatizantes e independentes em torno dum projecto galvanizador, não esquecendo o IL, que terá de não repetir o erro de querer ter mais lugares nas listas da Coligação de Moedas do que a sua real representatividade lhe permitiria ter, bem como o CH definitivamente criar e organizar um verdadeiro “aparelho” interno, centrar-se em princípios programáticos importantes e consensuais e deixar de lado ideias “populistas” (no mau sentido), como a prisão perpétua e a castração química, as quais são verdadeiras negações do típico humanismo português, que, no Séc. XVIII, levou Portugal a ser o 1º país do Mundo a abolir em parte a escravatura, e, no Séc. XIX, também o 1º país do Mundo a abolir aquela definitiva e totalmente, bem como a pena de morte para crimes comuns.

Francisco Garcia dos Santos

 

 

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