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E as mulheres não se revoltam?

20-08-2021 - Francisco Pereira

Esta semana que está a findar, viu também findar o que restava de um Afeganistão democrático e relativamente livre, tão livre quanto se possa ser num desses vários pardieiros dominados por imbecis religiosos que infelizmente ainda existem neste Mundo, uma utopia criada a expensas do dito “Mundo Ocidental” que ao fim de tantas décadas ainda não percebeu que os modelos “ocidentais” de Democracia, Liberdade, Direitos Humanos que inclui o respeito pelas mulheres enquanto seres humanos plenos, não são “bens” que se possam exportar, como bem o prova este expectável desfecho da farsa que é ou antes que tentaram que fosse, um Afeganistão democrático.

Para que se perceba, o Afeganistão é um saco de gatos étnico, com uma dezena de grupos étnicos, que se matam atroz e ferozmente há séculos, divididos em dezenas de sub-grupos integrados numa população um pouco acima dos trinta milhões de almas, não existe um idioma único, existem duas línguas oficiais por junto com uma dezena de dialectos, por outras palavras, uma grande torre de Babel, onde muita gente berra e poucos se entendem, sendo que aquilo que os une, além do ódio aos estrangeiros, mais recentemente, é a religião islâmica, a maioria segue a corrente xiita, sendo que uns quinze por cento seguem a corrente sunita, existem ainda minorias hindus, sikhs, judias e cristãs, estes últimos existem em quase segredo por receio de serem exterminados.

Para não irmos mais atrás, até Alexandre o Grande, que por ali conquistou terras nos idos de 300 A.C. diremos que o Afeganistão e os seus povos nos, últimos 200 anos, viveram num estado de guerra intermitente, contra interesses britânicos, contra interesses russos ou como nas últimas décadas contra interesses americanos, seja lá quem for o inimigo, gerações incontáveis de afegãos viveram e vivem em guerra, facto que foi amplamente desvalorizado pelo Ocidente com as actuais conhecidas repercussões.

Os Talibã, autoproclamados “estudantes da teologia”, herdeiros das tradições guerreiras tribais, herdeiros dos Mujahidin dos anos 80, treinados e financiados pela CIA para combater os soviéticos, são hoje uma maralha manhosa, doutrinados nas madrassas do Paquistão, esse sim um perigoso e verdadeiro estado talibã, que os tem ajudado, financiado e garantindo as rotas de abastecimento essenciais para que os seus protegidos possam levar a cabo a rebaldaria a que se propuseram, jamais se exterminará os talibã afegãos sem digamos “dinamitar” o Paquistão, mais os interesses escuros do tráfico de ópio, dos esquemas bancários com o Quatar e Emirados Árabes, do tráfico de armas chinesas e os ainda mais escuros propósitos dos novos actores regionais surgidos com o actual desfecho, a saber, Rússia, China e Turquia, sendo certo que a China é quem mais tem a ganhar, ainda que todos os outros recolham bons dividendos, sendo que um dos beneficiados óbvios o Irão, optou por ficar em silencio. Com os Estados Unidos arredados do panorama, reina a China, esse para mim foi o objectivo número um.

E as mulheres não se revoltam? Questiono. Não pegam em armas e resolvem tomar o seu destino nas suas mãos, combater é mau, mas muitas vezes é preciso porque é a única das soluções. Do Ocidente as mulheres afegãs pouco ou nada podem esperar, talvez umas petições, umas arruaças e pouco mais, não se combatem talibãs com papéis, pelo menos daquele tipo, como se estivessem a fazer um abaixo assinado para pintar os bancos do jardim lá da paróquia, tenho de me rir com esta rapaziada.

E as mulheres não se revoltam? Volto a questionar. Não apenas lá no Afeganistão, mas também aqui em Portugal onde continuam a morrer às mãos de outro tipo de “talibãs”, neste Portugal dito Estado de Direito e Democracia plena, as mulheres continuam a ser dominadas e lesadas, casadas à força, vítimas de excisões, forçadas ao abandono escolar, condenadas a vidas de pobreza e miséria, aberrações fundamentadas em “tradições” em “culturas” em “etnias”.

Mulheres vitimas de abusos físicos e psicológicos, discriminadas nos salários preteridas nas promoções, arredadas do Poder e das esferas de influencia, não se revoltam estas mulheres? Não. Ao que parece preferem fazer petições e deixar a outros as decisões. Como posso então querer que as pobres mulheres do Afeganistão, pobres, iletradas, discriminadas e mal tratadas se revoltem, se armem até aos dentes que formem exércitos, como muito bem fizeram as heroicas mulheres Curdas que se defenderam, mais aos seus, dos “primos” dos talibãs, os bandalhos do ISIS, num excelente exemplo de que este não é o tempo das petições mas das acções.

E as mulheres do Afeganistão não se revoltam? Muito sinceramente duvido que tal coisa alguma vez venha a acontecer, as pobres serão engolidas pelos escuros interesses das potencias mundiais, cujos jogos de poder tragam as vítimas por um lado e soltam lágrimas de crocodilo por outro, tenho penas das mulheres do Afeganistão, mas tenho pena das de Portugal também.

Francisco Pereira

 

 

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