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AS CASTAS

06-08-2021 - Francisco Pereira

Ao contrário do que possa parecer, o tema que hoje vos trago, não tem que ver com enologia, como à partida poderiam ser levados a pensar. Mal comparado o tema de hoje remete-nos antes para o sistema de Castas, que há uns milhares de anos estratificou a sociedade da Índia seguindo preceitos religiosos, criando classes estanques cada qual com ditames próprios onde assenta perfeitamente o dito popular “quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré”, apesar de este sistema retrógrado e discriminatório ter sido abolido em 1947, em teoria, aquando da independência da Índia, esse mesmo sistema manteve-se mais ou menos tacitamente aceite pela sociedade em especial nos estados de índole mais rural até hoje.

De notar que o Nepal e o Srilanka possuem igualmente um seu sistema de castas, mais ou menos idêntico ao modelo indiano, de notar também, que a Idade Média europeia, viu igualmente ser instituído um sistema de castas, com a Nobreza, o Clero e com Povo como sempre no fim da tabela, curiosamente, neste século XXI, mudaram-se os nomes aos bois, mas grosso mudo a coisa mantém-se mais ou menos feudal.

“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.”, disse um dia o grande Orwell num dos grandes livros de todos os tempos, o magistral e intemporal “Animal Farm” por cá conhecido como “O Triunfo dos Porcos”, dito isto, vou começar a clarificar, aquilo que por esta altura já vos estará seguramente a toldar as sinapses, a história conta-se rápido, um amigo, funcionário num município, precisou de fazer obras na sua casa, sendo necessário ocupar a via pública, dirigiu-se ao departamento correspondente onde se tratam dessas coisas taxatórias, verdadeiro proxenetismo de estado, lá no município onde habita, falou com o colega, levou com o discurso habitual das burocracias, precisava de um requerimento, mais de um relatório elaborado por um técnico, nomeadamente um engenheiro civil, segundo me contou, sendo que depois toda aquela papelada seria entregue no dito departamento camarário, que após análise da papelada e pagamento da respectiva taxa lhe passaria a licença para poder ocupar a via pública e assim proceder às obras.

Munido de uma inesgotável reserva de seráfica paciência, lá foi esse meu amigo indagar por aí, acabando por descobriu um técnico para lhe fazer o tal relatório para os andaimes puderem estar a ocupar a via pública.

- Ora como eu te dizia, estava eu a falar com o tipo – dizia-me esse meu amigo – quando a dada altura, já não sei a que propósito, o tipo pergunta-me onde é que eu trabalhava, eu disse-lhe que era funcionário da câmara municipal, o gajo riu-se e queres ouvir, o que disse.

- Então é funcionário e não lhe facilitam isso, estranho!

- Estranho porquê, perguntei.

- Ao que parece – continuou esse meu amigo – aos funcionários, ou antes a alguns, nomeadamente e segundo percebi a falar com esse engenheiro civil, pessoa conhecedora daqueles meandros, aos funcionários tidos como “fiéis”, aos que fazem parte da “corte” que vive da sabujice e do lambe botismo, uma matilha de gentalha que gravita em torno dos politiqueiros que mandam naquela edilidade, para obter prebendas, que são sempre escolhidos, a essa elite de eleitos tudo se lhes permite, a esses e a mais uns quantos que fazem parte das tentaculares redes clientelares da politiqueirice rafeira, que se pratica cá por Portugal, tudo é permitido, até pasmem-se encher piscinas em período de carência de água recorrendo aos autotanques dos bombeiros.

- Para esses nem relatórios nem licenças são exigidas, ou se pagam algo é apenas o montante mínimo só para dizer que não tem um documento, montam os andaimes que querem, fazem as obras que querem sem mais aquela – disse o tal engenheiro.

Fiquei espantado com aquela conversa, eu sabia que neste país o compadrio e a pequena corrupção que depois propicia e descamba na grande corrupção são realidades indesmentíveis, realidades concretas para todos aqueles que como eu bem conhecem como é que isto realmente funciona, quando digo que fiquei espantado, o meu espanto não advêm da situação em si, mas da desfaçatez e “à-vontade” com que as coisas são feitas, cientes do respaldo e da impunidade, estes “escolhidos” já nem se dão ao trabalho de esconder as patifarias, tudo é feito às claras com a maior das caras de pau.

E tu que fizeste, perguntei a esse meu amigo.

- Nada, - respondeu-me – paguei ao engenheiro, paguei a licença, e fiquei com a consciência tranquila de quem não deve nada a esse pulhas.

Francisco Pereira

 

 

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