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Marcelino da Mata

19-02-2021 - Francisco Pereira

Esta semana que passou viu uma acesa discussão entre a gente de Direita e a gente de Esquerda, por causa da infausta morte de um homem que nos merece o mais profundo respeito, porque foi efectivamente um herói, falo como é óbvio do Tenente-coronel Comando Marcelino da Mata.

Conheci o senhor Marcelino, nos anos 90 do século passado, foi num dia da Unidade do Regimento de Comandos, fui convidado para essa comemoração, por um familiar que pertenceu a essa unidade de elite do Exercito de Portugal, andávamos por ali a confraternizar com os antigos camaradas do meu tio, quando ele me diz.

- Chico, anda comigo, vais conhecer o militar mais condecorado de toda a guerra…

Seguimos em passo acelerado até um grupo de três ou quatro homens, que falavam entre si, um deles era preto, trajava à civil, vaidosamente colocada na cabeça usava uma boina vermelha, tal como os restantes. Riam, via-se que se conheciam bem, um deles eu conhecia, era um conhecido oficial Comando, julguei que era esse homem a quem o meu tio se referia.

- O meu capitão dá licença – diz o meu tio perfilando-se em continência em frente do senhor preto. O homem para de conversar, olha para o meu tio, rasga um largo sorriso e diz.

- Olha o Pereira, com estás pá?

Abraçam-se, trocam piadas, acabamos por ficar por ali mais de meia hora à conversa. O senhor Marcelino era uma pessoa humilde e afável, de sorriso fácil, voz cordata, quem diria que aquele era o mesmo homem a quem uns chamam herói, outros criminoso, pessoalmente tenho a convicção que Marcelino da Mata foi um herói, como foram todos os que foram forçados a combater numa guerra estúpida engendrada por políticos medíocres, o fizeram forçados por circunstâncias que só eles saberão.

Sou filho e sobrinho de antigos combatentes da Guerra Colonial, cresci a ouvir as histórias dessa Guerra, as misérias e glórias, as catástrofes e medos, os sacrifícios mais as perdas daqueles homens, que tal como o senhor Marcelino, foram o produto de um tempo histórico, irrepetível, tempo esse que não podemos rotular de acordo com uma visão mais ou menos enviesada, mais ou menos revisionista, mais ou menos emporcalhada por ideologias, porque isso será desvirtuar e desrespeitar, as regras da História e mais que isso as vidas, os sacrifícios e o sofrimento de todos os que participaram nessa Guerra, dos dois lados do conflito, dos que lutaram, dos que desertaram e principalmente de todos os que inocentemente lá morreram.

Os conflitos têm sempre mais que uma versão, a versão dos vencedores, a dos vencidos, a dos militares e a dos civis, depois as versões pessoais dos milhões de pessoas que os viveram, depois consoante se está num campo ou noutro é fácil rotular uns de heróis e outros de criminosos, porque o que ontem era aceitável, hoje já não o é, por isso as coisas de ontem tem que ser vistas à luz das premissas do ontem, sem os nosso filtros.

O militar português Marcelino, fez o que outros tantos militares fizeram, combateram, mataram e morreram, foram bons e ao mesmo tempo foram maus, foram algozes e foram sobretudo vitimas, muitas vezes tão vítimas como os que matavam, as guerras são pesadelos de que nunca se recupera e de que só a morte nos liberta. O militar português Marcelino, fez o que lhe exigiam os tempos em que viveu, cumpriu a sua obrigação, é por isso um herói de Portugal, tal como outros heróis, Amílcar Cabral, Agostinho Neto ou Samora Machel, o são nos seus países, mesmo aqueles que desertaram têm a sua importância, bem como todos os outros anónimos que lutaram pela independência dos seus países, foi o que lhes ditou o seu livre arbítrio, devemos a todos o nosso mais profundo respeito.

Pessoalmente é minha profunda convicção que o Tenente-coronel Comando Marcelino da Mata, foi um herói, um herói trágico se quisermos, mas um herói, porque defendeu as suas convicções, porque lutou por elas e porque honrou a sua Pátria, se fez o que estava certo ou errado, não sei, não vos sei responder, sei que estar no lugar dele, não devia ser fácil, e que no seu lugar sei lá o que faria, o homem tomou uma opção, lutou pelo país que acreditava ser o seu e isso faz-me acreditar que foi um herói, que descanse em paz.

Francisco Pereira

 

 

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