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Sábado 15 de Agosto de 2020  
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A História do “Centro Popular da Criança” em Almeirim
Recordar é viver

31-07-2020 - Eduardo Milheiro

O IOS - Instituto de Obras Sociais foi quem incorporou o Centro Popular da Criança em 1975, passando os voluntários e funcionários a fazerem parte dos quadros dessa organização que passado alguns anos veio a ser integrada na Segurança Social.

Na altura tinha 19 funcionários, que passaram a ser funcionários públicos, hoje, na sua grande maioria, reformados.

Esta história começa em 1975, depois do 11 Março. Já havia um grupo de pais que antes do 25 de Abril de 1974 procurava instalações e gente para montar um Jardim de Infância. Foi com base nessa ideia que surgiu a ideia de ocupar o Instituo Conde Sobral e fazer aí um Jardim de Infância para toda a população, em que cada um pagasse aquilo que podia.

Falei com o Palma Inácio, o dirigente da LUAR pedindo apoio para a ocupação, ao que respondeu que seria o que fosse preciso.

No dia combinado para a ocupação, com o pessoal do Sindicato dos Operários Agrícolas mobilizado, pois um dos nossos apoiantes era nessa época Presidente do Sindicato, o meu amigo Manuel Lobo, contando com mais dois ou três elementos simpatizantes da LUAR de Almeirim, veio uma equipa de Lisboa ajudar-nos na tarefa da ocupação.

Entretanto, eu e mais alguns elementos da futura comissão instaladora, já tínhamos avisado a Comissão Administrativa da Câmara Municipal, o grande amigo Loureço de Carvalho e o Alfredo Calado que nas primeiras eleições autárquicas veio a ser Presidente da Câmara eleito nas listas do PS.

Avisou-se também o comandante da GNR de Almeirim do que se iria passar e que agradecíamos a sua colaboração e a não oposição ao que iria acontecer.

No dia combinado para o efeito, procedeu-se à ocupação. Foi um momento empolgante. A equipa que procedeu ao escalar do muro e à abertura dos portões, com uma massa humana que se juntou no cruzamento a apoiar a acção, com a GNR a controlar o trânsito, com discursos de uma varanda por parte de elementos da ocupação, e o apoio do povo na rua, foram uma jornada inesquecível.

No dia seguinte, penso que um sábado, veio a Almeirim o Hermínio da Palma Inácio, acompanhado entre outros pela Tété (Teresa Ricou) do CHAPITÔ, acompanhado por mais alguns dirigentes da LUAR, ver o que se pretendia fazer com esta ocupação.

Nesse mesmo sábado realizou-se um espectáculo com a Tété e a sua equipa, e começou-se logo as obras de pintura e recuperação dos móveis.

Nos dias seguintes continuou-se em limpezas, pois as instalações estavam um nojo, o que se prolongou pelos fim-de-semana e dias seguintes com a pintura do mobiliário e das instalações e montagem de equipamentos que eram necessários para funcionar uma creche e jardim-de-infância em condições.

Fizeram-se peditórios, um dos quais com a presença do Palma Inácio, mas rapidamente chegámos à conclusão que este projecto não ia lá com peditórios.

Um dia, depois de uma conversa com a Comissão Administrativa que estava na Câmara Municipal, resolvemos ir a Lisboa, eu, o Alfredo Calado, o velho amigo Lourenço de Carvalho Catalão e o Manuel Lobo. Fomos bater a algumas portas para ver se conseguíamos ajuda para o Centro Popular da Criança, contactamos alguns ministérios, a Junta Central das Casas do Povo e mais algumas instituições de que já não me lembro o nome e nada.

Passados uns dias, não sei porquê, aparece um nome: IOS. Por acaso eu era amigo do Presidente, o Dr. João Delgado Simões, amizade que tinha sido feita quando a LUAR deu uma ajuda numa situação que tinha sido despoletada com um grupo de trabalhadores e que tinha ocupado o Instituto, hoje o Edifico do Ministério da Saúde. O Palma Inácio disse-me para ir com um grupo lá resolver o assunto e fomos, subimos até ao último andar onde estava a direcção, o Dr. João Delgado Simões e duas Senhoras, a Educadora Maria Emília e uma Licenciada em Direito que não me lembro do nome. Conversámos, vimos qual era o problema e limpámos o edifício de cima abaixo, só lá ficou quem o João Delgado Simões autorizou.

Lembrei-me deste acontecimento e do João Delgado Simões e lá fui eu com mais um ou dois elementos da comissão de instalação do Centro Popular da Criança falar sobre o apoio que precisávamos para pôr o Centro a funcionar.

A resposta do João Delgado Simões foi que a ideia deles e das colegas de direcção era colocar o IOS como instituição para apoiar as Creches e os Jardins-de-Infância que surgissem após o 25 de Abril, mas que a esta ideia de opunha uma comissão de trabalhadores afecta aos anteriores senhores que dirigiam o IOS, que defendiam que o IOS devia ser transformado, com os seus imóveis, numa instituição para férias dos trabalhadores, ao que ele se opunha.

Disse-nos que se ia realizar uma reunião de todas as instituições do IOS em Manteigas, onde seria deliberado por votos como iria ficar o IOS, sendo que um dos oponentes, o director da instituição que dirigia o Hotel de Manteigas queria a opção das instalações de todos os IOS para férias e que ele tinha algum peso e aliados.

De imediato nos inscreveu para podermos participar na reunião e perguntou se queríamos participar na mesma para ajudar a linha que defendia o IOS só para crianças. Dissemos que sim, e lá fomos nós a um sábado de manhã para a reunião que seria à noite em Manteigas.

Sem garantir, pois já me esqueci de muita coisa, penso que a delegação era eu, o José João Caetano, o Manuel Lobo, Manuel Simões e a esposa e o homem que foi a peça mais importante desta reunião, o António Roque, ex-sargento pára-quedista.

Chegamos e já lá estava o João Delgado Simões e as suas companheiras de direcção, identificado o tal fulano que queria os edifícios para turismo de luxo. Havia que conversar com o homem e foi o Roque que se ofereceu para falar com ele fora da reunião. Assim foi, quando o Roque voltou perguntei-lhe, “Roque correu bem ou é preciso fazer mais alguma coisa?”, respondeu o Roque, “não se preocupem que está tudo tratado”.

Fez-se a reunião e foi aprovado que o IOS seria uma instituição que seria destinada a apoiar creches e jardins-de-infância. Estava o nosso problema resolvido, ou seja, foi a proposta do João Delgado Simões e direcção aprovada.

Todo o pessoal passou para funcionários do IOS, as tais 19, composto por educadoras, auxiliares, cozinheiras, pessoal da limpeza, todas a que estavam no Centro Popular da Criança ficaram com emprego certo e com ordenado ao fim do mês, além das despesas de funcionamento.

Passados meses ou anos, já não me recordo e também não é importante, o IOS foi integrado na Segurança Social e extinto, o que significou que todas as funcionárias tornaram-se funcionárias públicas, com ADSE e tudo o mais que os funcionários públicos têm, que na verdade foi o estatuto que adquiriram.

Julgo que hoje, na sua maioria, estão todas reformadas como funcionárias públicas, mas o importante desta história, além do bom que foi para as crianças e pais das crianças que frequentaram o Centro Popular da Criança, é que das 19 a quem arranjei emprego, nunca ouvi um obrigado. Mas também não é preciso, porque estou-me nas tintas para este tipo de gente.

Penso que muitas até tinham vergonha de dizer que tinham estado empregadas no Centro Popular da Criança, instituição criada por perigosos elementos da extrema-esquerda. Com o passar do tempo vi a grande maioria encostada ao PS e ao PPD, é assim, é a vida.

Havia mais história para contar, o complô entre a Câmara e a Segurança Social, da reconstrução do edifício e posterior devolução aos donos, mas essa fica para outra altura: Tenho de recolher muitos elementos e não sei se tenho coragem e paciência para isso.

Eduardo Milheiro

 

 

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