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AS MISTERIOSAS MÚMIAS DO VATICANO

26-06-2020 - Pedro Pereira

O cadáver do papa João XXIII, morto em 1963 encontra-se preservado. O corpo, segundo médicos legistas e autoridades eclesiásticas, está intacto, mantendo, inclusive, o sorriso que lhe permitiu ser apelidado pelos fiéis como o Papa Bom. O rosto está perfeito, com os olhos fechados, a boca entreaberta, mantendo os seus traços peculiares. O corpo encontra-se sepultado no subsolo da Basílica de São Pedro, cripta que alberga vários papas.

O túmulo de João XXIII, um dos mais carismáticos chefes da Igreja de todos os tempos, é um dos mais visitados. Para facilitar o culto ao seu antecessor, em tempo, João Paulo II transferiu osrestos mortais desse para a capela de São Jerónimo, no interior da Basílica.

Em Janeiro de 2001, os legistas retiraram o esquife e abriram sucessivamente as três urnas, duas de madeira e uma de chumbo, que guardaram o corpo por quase quatro décadas, tendo ficado surpreendidos com o impressionante estado de conservação. Especialistas que estudaram o cadáver garantiram que a ciência tem uma explicação para o fenómeno, ou seja, João XXIII não foi embalsamado, mas, logo após a morte, o seu corpo foi banhado em substâncias químicas para se manter em bom estado durante os cinco dias que duraram as cerimónias fúnebres. «O oxigénio não podia entrar na urna de chumbo, o que impediu o apodrecimento», disse Vincenzo Pascali, médico legista da Universidade Católica de Roma. «Isso não autoriza comentários sobre causas sobrenaturais». O secretário-geral do Vaticano evitou falar em milagre. Mas declarou-se emocionado: «Foi uma grata surpresa ver o rosto de uma pessoa querida depois de tantos anos».

A Igreja, que em outros tempos classificaria o fenómeno como algo sobrenatural, hoje prefere dar ouvidos aos cientistas. Nas últimas duas décadas, a Santa Sé patrocinou investigações em dezenas de corpos de santos e beatos que se mantêm incorruptos há séculos. Expostas em igrejas, múmias sagradas alimentam a fé de multidões de fiéis. Tornaram-se conhecidas na Idade Média como «incorruptíveis» por desafiar o tempo e as leis da natureza.

A parceria entre cientistas e teólogos identificou a intervenção do homem em muitos eventos atribuídos à graça divina. O caso mais curioso é o da santa italiana Margaret de Cortona, morta em 1297 e venerada como padroeira das ex-prostitutas. Adolescente pobre, tornou-se, aos 17 anos, amante de um negociante muito rico. Viveram juntos por uma década e tiveram um filho, para escândalo do lugarejo onde viviam. Apesar dos apelos de Margaret, o amante jamais aceitou casar-se com ela. O caso acabou em tragédia: foi assassinado por um malfeitor.

Margaret divisou neste acontecimento um «sinal de Deus». Segundo os registos da Igreja, ela converteu-se e decidiu devotar a sua vida aos pobres. O corpo da santa encontra-se exposto numa campa gótica na catedral de Cortona, província da Toscana.

Ao longo dos séculos, fiéis veneraram o cadáver como um sinal de santidade. A pedido do Vaticano, o médico legista italiano EzioFulcheri, professor da Universidade de Génova, examinou o corpo preservado. Bastou despi-la para ver os sinais de manipulação. Incisões nas coxas, na barriga e no peito denunciavam os pontos usados para injectar conservantes. Mais tarde, Fulcheri debruçou-se sobre documentos da Igreja. Descobriu que Margaret fora mumificada a pedido dos fiéis. A verdade perdeu-se no tempo., porém, a lenda ficou.

Pesquisas encomendadas pela Santa Sé identificaram intervenções nada sobrenaturais noutros ícones. Todos eram santos e beatos adorados nas províncias italianas de Úmbria e da Toscana. Viveram entre os séculos XIII e XV, como Santa Clara de Montefalco, São Bernardino de Siena, Santa Catarina de Siena e Rita de Cássia, santa das causas impossíveis. Devotos diligentes incumbiram-se de preservar os seus restos, mas, em certos casos, não se contentaram com isso.

Santa Clara de Montefalco, por exemplo, teve o corpo dissecado pelas freiras da congregação a que pertencia. «Se procuram a cruz de Cristo, encontrarão o sofrimento do Senhor no meu coração», costumava dizer a santa. As religiosas levaram a mensagem à letra. Após a morte, remexeram as vísceras de Clara à procura de sinais sagrados. Recolheram três cálculos da vesícula, supostos símbolos da Santíssima Trindade. Também divisaram Jesus crucificado numa mancha do coração, guardado num relicário. A ciência, contudo, não consegue explicar a conservação de todos os santos mumificados. O caso mais intrigante é o de Santa Zita (1218-1278), que viveu em Lucca, na Itália. Ela foi um exemplo de bondade. Dormia no chão, depois de ter cedido a própria cama a uma mulher pobre. Também jejuava para doar comida aos famintos. Quando morreu, foi sepultada numa vala comum. Exumado três séculos depois, o seu corpo estava completo e intacto. Sem nenhum sinal de manipulação. Permanece, assim, até hoje, passados mais de 700 anos. «É uma bela múmia», diz o legista italiano Gino Fornaciari, da Universidade de Pisa, que já examinou vários «incorruptíveis».

Como Santa Zita, os corpos de santos como Ubaldo de Gubbio e SavinaPetrilli mantém-se conservados sem explicações científicas convincentes. Especialistas acreditam que as condições climáticas existentes no interior das igrejas, onde a maioria dos «incorruptíveis» foi sepultada, podem explicar o fenómeno. «A temperatura nas igrejas é baixa e há pouca variação entre o Inverno e o verão», observa o médico EzioFulcheri, legista da Universidade de Génova. Ao estudar as múmias veneradas, Fulcheri conseguiu desvendar a origem do culto. O costume de sepultar santos em igrejas remonta à decisão do imperador romano Constantino, que no século IV ergueu uma catedral no lugar em que São Pedro fora enterrado. Fulcheri suspeita que o tratamento do corpo de Cristo com óleos e resina, logo após ter sido crucificado, inspirou a preparação química dos ícones católicos mortos, sejam leigos abnegados, sejam sumos pontífices. A fé dos devotos fez o restante.

Pedro Pereira

 

 

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