Edição online quinzenal
 
Sexta-feira 1 de Março de 2024  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

PRESERVATIVOS FURADOS

29-05-2020 - Cândido Ferreira

Em pleno janeiro de 2020, os senhores do mundo dormiam o sono dos justos e até a OMS desvalorizava o novo coronavírus.

Filtradas as notícias que “transpareciam” da China, ninguém parecia levar a sério uma ameaça real que, desde há décadas, se previa. E só em fevereiro, quando o Covid-19 polvilhou o planeta, alguns responsáveis acordaram.

Portugal também não estava preparado para a pandemia. País periférico teve, contudo, a “felicidade” de ficar “esquecido”. E assim até nos “demos ao luxo” de desperdiçar duas preciosas semanas, enquanto o horror se espalhava pela vizinhança. Mas a verdade é que, se então bem feito o “trabalho de casa”, teríamos certamente minorado, quiçá evitado, muitos dos sobressaltos por que ainda passamos.

Com as “autoridades” de atenções centradas na retaguarda, que é o SNS, desprezámos então, totalmente, as “primeiras linhas”: a formação sanitária das populações, o treino da Proteção Civil, a vigilância das fronteiras e as normas a aplicar a grupos de risco. Alegadamente, para não se criar “falso alarmismo”.

Quando, no início de março, o vírus por fim nos tocou, quem não recorda um Presidente em fuga do seu palácio, onde nem a sua própria segurança sanitária estaria garantida? Ou a busca frenética de ventiladores, muito longe de esgotados, ao mesmo tempo que não havia orientações clínicas e máscaras e desinfetantes no mercado?

Chocado com a desorientação a que assisti, e antes do “confinamento aos bochechos” com que “inaugurámos” a época balnear, decidi publicar vários textos em que avisei sobre erros e omissões e em que enunciei medidas urgentes. Nos primeiros dias de março, e no âmbito da APAR, também subscrevi cartas de apelo e levantei pertinentes questões em encontros oficiais. E até por previsões me aventurei, por acaso bem mais otimistas e certeiras do que os “totobolas” preenchidos pelo Ministério.

Nos três meses seguintes, sem o comando eficaz que recomendei para enfrentar uma “guerra biológica”, o nosso país assistiu ao suceder de “planos de contingência”, em que abundavam orientações reveladoras do total desfasamento de diversas entidades. Felizmente que, mais sensata, a generalidade da população aprendeu depressa e a pandemia até nem “correu tão mal” como a princípio se receou.

Não podemos, contudo, ainda baixar a guarda. Até por que, com a eclosão do novo surto de Lisboa, Portugal foi esta semana o único país da Europa em que a pandemia cresceu. Melhor explicado, onde cada doente infetado mais pessoas contagiou. Mas como assim, se somos um exemplo de disciplina e até cumprimos o confinamento?

A realidade é que, contrariando esse enorme esforço, algumas Administrações de empresas transportadoras, violando normas elementares, suprimiram transportes e assim apertaram a “distância social” nas deslocações para o trabalho. “Arranjinho” que os utentes há semanas denunciavam, sem que a Administração Central pestanejasse. E para quê ralarem-se se, no final, acabam todos premiados e até a condecorarem-se…

Possuo material para um livro, mas sendo esta a minha área de formação, insisto em deixar alguns apontamentos sobre algumas “más práticas” que devemos corrigir:

Desde logo, exigir responsabilidade a uma DGS que nunca cessou de emitir orientações contraditórias sobre questões básicas, entre elas o uso da máscara. Mas como é isso possível se, tal como na China, o “sacrificado” foi o primeiro médico que se atreveu a denunciar falhas? Se, já com milhares de infetados, ainda se encontrava por nomear o Diretor do “Programa Nacional de Prevenção de Doenças Infectocontagiosas”? E se a preocupação dos conselheiros de imagem foi recomendar que os responsáveis acorressem ao aeroporto, para compor “selfies” à chegada do primeiro infetado?

Sem vacina a curto prazo, também logo denunciei os interesses da indústria farmacêutica na investigação clínica, em curso. Em 2011, subscrevi um trabalho que, apresentado no maior certame mundial da especialidade, obteve a principal distinção. Sei, portanto, desta matéria. A polémica que ainda hoje persiste em torno da eventual eficácia de tratamentos, incluindo a hidrocloroquina, fere a consciência de médicos e cientistas. Perante a torrente de casos, e se bem orientada, há muito que a “medicina científica” tinha “obrigação” de fornecer orientações estratégicas de tratamento, bem fundamentadas em ensaios credíveis. Ponto final.

Concluo, afirmando que a classe médica perdeu o seu espaço na sociedade. Já em pleno março, certamente preocupada com a inação, a Ordem dos Médicos entendeu promover um encontro alargado a profissões afins. A “acta” dessa reunião, que confirmou tudo aquilo que eu vinha escrevendo, irá ficar para a História. Como para a “história” ficará o “gabinete de crise” então criado para apoiar a DGS e de que nunca mais se ouviu falar.

Nos dias seguintes, o Bastonário da Ordem dos Médicos e o Presidente do Sindicato Independente dos Médicos, que ainda ocupavam manchetes, foram mesmo liminarmente “apagados”: primeiro, por responsáveis do Ministério da Saúde; e depois, quando a crise sanitária se esbateu, substituídos por comentadores e peritos ainda melhor “apetrechados”. Em concreto, refiro a “santa aliança” entre o Presidente da República e o Primeiro Ministro, a que depois se juntou o líder do principal partido da oposição. Ainda ontem, em calções de banho numa praia, um apareceu a recomendar que era “só um mergulho e sair”… talvez por que, com a água do imenso mar, nunca fiando. Esse mesmo: aquele que passou a usar máscara em publico, só quando os netos o exigiram. E não estou a falar de Trump ou Bolsonaro

Sem fio condutor e sem liderança firme, tarda a resolver a “charada” em que estamos metidos: nas fronteiras, nas praias, nas empresas, nas escolas, nos lares, nas prisões, entre as minorias étnicas e até na atuação das forças de segurança.

E como pode assim não ser se, nas imagens, até o nosso principal aeroporto aparece “controlado” por agentes “protegidos” só com viseira, dispensando o uso da máscara, a única forma de cobrir boca e nariz?

Se precisamos de turistas e, agora que a Espanha está como Portugal, não tomamos a iniciativa de reabrir fronteiras terrestres?

Será que não há mesmo ninguém, em Portugal, capaz de dar um murro na mesa e dizer que “isto” é mesmo para levar a sério?

E será que podemos prevenir tanta “gravidez” indesejada, quando se insiste no uso de “preservativos furados”?

Cândido Ferreira

 

 

 Voltar

Subscreva a nossa News Letter
CONTACTOS
COLABORADORES
 
Eduardo Milheiro
Coordenador
Marta Milheiro
   
© O Notícias de Almeirim : All rights reserved - Site optimizado para 1024x768 e Internet Explorer 5.0 ou superior e Google Chrome