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Amor em tempos de pandemia
– Uma Páscoa muito especial

17-04-2020 - Cândido Ferreira

Há quem sofra de clausura e quem, como eu, consiga aproveitar esta época mágica para saudáveis “maratonas pela mente”, todos os dias renovadas. Pois não é a diversidade o sal e o mel, que distingue cada ser humano?

Embora ateu, nunca ocultei o meu fascínio por Jesus Cristo, um plebeu que mudou o mundo. A sua “Paixão” foi até foco de um dos meus romances. Rejeito, assim, qualquer insinuação de oportunismo.  

Para mim, esta sempre foi uma quadra especial em que até reconheci as qualidades ímpares do Papa Francisco. Afinal, a força moral e a grandeza de um “rei” capaz de promover o cerimonial do “lava-pés”, humildemente ajoelhado perante reclusos ou refugiados de guerra, sem olhar a credos.

Este ano, ditou o destino que fosse diferente: apenas dez fiéis se incorporaram na via sacra, simbolicamente médicos, enfermeiros, agentes da proteção civil e da autoridade e até sem-abrigos e ex-reclusos.

Prática excecional, num mundo que cultiva a distância, o fausto e os rituais, mas em que nada mais vai ficar como dantes. Motivo para mais uma “peregrinação interior”, teimosamente otimista…

Portugal, apesar de paraíso em segurança, é dos países com mais reclusos e internados em indignas condições. Por razões humanitárias, tive a honra de propor, logo a 6 de março e no âmbito da APAR, a libertação controlada de alguns desses condenados… talvez uns mil. O país quase nos crucificou. Um mês depois, porém, com o Covid a “apertar os calos” de muito boa gente, estão a ser libertados muitos mais. Perante um inimigo comum, as autoridades cederam. Pela dignificação da Justiça, será que esta Páscoa irá marcar o futuro das nossas práticas prisionais, certamente punindo ricos e pobres que prevaricam, mas, sobretudo, investindo na inclusão e na reinserção social?

Revendo os escritos que publiquei, e na qualidade de cidadão e de médico ligado à ciência, quero ainda recordar-vos:

- a denúncia do poder da indústria farmacêutica que, perante um inimigo desconhecido, quase se concentrou na exploração de novos produtos;

 - o apagamento da classe médica perante esse lóbi, tardando em conjugar esforços e trocar informações que permitissem definir as melhores estratégias de combate;

- a tónica na ventilação assistida, de fraco alcance, e não no ataque precoce a muitas complicações evitáveis com outras estratégias de ataque;

- o desfasamento da comunicação social, que se focou na telenovela política e em evitar o “alarme social”;

- a impreparação de técnicos submissos que, a cavalgar ondas de fama, obedeceram à “voz do dono” e não garantiram a aquisição de instrumentos de combate;

- a ignorância de que a primeira linha de defesa não é o SNS, mas a formação sanitária das populações, a começar pelos transportadores, proteção civil e forças de segurança;

- o atraso na declaração do estado de emergência e, sobretudo, na aplicação de planos de contingência, desde os lares às prisões, das escolas ao Palácio de Belém;

- e nem a OM sai ilesa, só ontem reconhecendo a obrigatoriedade de uso de máscara que eu, pessoalmente, “decretei” há semanas. E não só…

Baseado nas experiências que vivi, na ciência que apreendi e nos factos que interpretei, cedo antecipei, a par destas e de muitas outras verdades, que iríamos travar a “batalha mais heroica das nossas vidas”. Mas nunca quebrei o otimismo que hoje, domingo de Páscoa, vos venho reafirmar:

- com uma incidência e mortalidade muitíssimo inferior à outros países melhor preparados, é evidente que Portugal conseguiu suprir carências, adaptar recursos e evitar o caos;

- as estatísticas oficiais facilitam mais a alquimia do que de ciência mas, ainda que a enfrentar dias difíceis, acredito que atingimos o pico e em amanhãs cada vez mais promissores e serenos;

- não estou a profetizar um futuro radioso, mas também desejo que o reforço da autoridade do Primeiro-Ministro, e do seu Ministro das Finanças, possa determinar a tomada de medidas drásticas, que permitam premiar o mérito, afastar incompetentes e proporcionar a rápida recuperação económica e social do nosso país.

Nunca ganhei em “totobolas”, pelo que nada arrisco. E usando a razão, realço mesmo que, até hoje, ainda não vi um só detentor de cargos políticos, muitos deles em lay-off, a abdicar das suas mordomias.

Mas seja-me permitido sonhar com tempos de mudança. Que o espírito desta Páscoa, ilumine Portugal e os portugueses!

Uma boa Páscoa para todos!

Cândido Ferreira

 

 

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