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A verdade a que temos direito

03-04-2020 - Candido Ferreira

A verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade é condição essencial para que uma sociedade democrática possa enfrentar, com danos mínimos, uma guerra como a que Portugal enfrenta. E não tenhamos medo de usar esta designação…

E a verdade é que, ontem, toda a discussão pública se centrou em torno da insuficiência de testes de despiste, um problema que até nem existe.

Enquanto isso, as três primeiras figuras do Estado, que certamente têm tido inúmeros contatos físicos, apareceram em público juntas, sem guardar as distâncias recomendadas e sem usar máscaras de proteção.

A Assembleia da República reuniu sem um único deputado protegido e até incumprindo as suas próprias determinações, apenas por que os deputados, que se ausentassem do Plenário, poderiam incorrer em sanções ou censura.

Nas ruas e estradas de todo o país, há brigadas policiais e da proteção civil usando máscaras, enquanto outros enfrentam o “inimigo” de cara descoberta.

Nas prisões, sem gel nem máscaras, só ontem os funcionários, os guardas e os reclusos começaram a ver reconhecidos alguns dos direitos dos demais cidadãos.

Tudo isto quando, é sabido há muito, na China e na Coreia, países que ultrapassaram o seu esforço de guerra com êxito relativo, o uso de máscara foi obrigatório.

E tudo isto quando, em Portugal, as autoridades nos asseguram que as máscaras são um “adorno” e a comunicação social, a demitir-se da sua ação pedagógica, se limita a contabilizar “baixas” e desviar a discussão para não assuntos. Onde estão as máscaras?

Pergunta pertinente porque fui médico durante quase cinquenta anos e, dentro da comunidade médica, nunca ninguém contestou que o seu uso seja fundamental para travar a transmissão de qualquer agente microbiológico. Estarei errado???...  

Por fim, seja-me permitido apontar mais uma limitação de ordem técnica, em que a Medicina Portuguesa tem de serena e urgentemente intervir. Face a um inimigo brutal como o Covid-19, em que a sensibilidade individual também é determinante, a ciência ainda continua a testar armas tradicionais, umas certamente mais eficazes que outras. E também se tem verificado que, atingida a fase de necessidade de ventilação, o número de casos recuperados é frustrante. No fundo, ocupam-se postos com “cadáveres adiados”, quando se poderia ter melhor êxito noutros casos. Um horror infinito para a consciência de qualquer profissional…

Confirmada a inutilidade de certas terapêuticas, começam a chegar de Itália, Alemanha e sobretudo de Espanha, sinais de que certas estratégias são mais eficazes. Torna-se, pois, urgente, que o MS e a OM se articulem e difundam, ao minuto, as melhores práticas a exercer pelos heróis que, na frente da batalha, arriscam as suas vidas para nos salvar.

Cândido Ferreira - Médico

 

 

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