| A defesa de Carlos Costa: "No BES, fizemos o que se podia fazer"
10-03-2017 - TSF
O governador do Banco de Portugal desvaloriza os documentos revelados pela SIC. Em entrevista ao Público, Carlos Costa diz que só cumprindo o mandato salvaguarda a independência do regulador.
Carlos Costa garante que os documentos que não foram entregues na comissão parlamentar de inquérito ao caso BES, que foram revelados na reportagem da SIC Assalto ao Castelo, "não tão abrangidos pelo dever de divulgação", já que são material de trabalho do regulador.
Em entrevista ao Público, o governador do Banco de Portugal explica que o parecer interno de novembro de 2013 que recomendava o afastamento de Carlos Costa surgiu na sequência de "reflexões internas" pedidas pelo próprio, meses antes, para perceber se o que era publicado então na imprensa sobre o BES era verdadeiro.
Carlos Costa assegura que cumpriu o que era recomendado neste parecer, ou seja, continuar a reflexão sobre os factos indiciados, confrontar as pessoas em causa com esses factos e construir prova. E essa informação foi transmitida na comissão de inquérito.
Nesta entrevista, o governador do Banco de Portugal garante que fez tudo o que era possível, mas que na altura a lei não permitia que o regulador retirasse a idoneidade dos administradores do BES sem condenações judiciais prévias.
Carlos Costa explica que a renúncia de Ricardo Salgado e dos outros responsáveis aconteceu depois de uma grande pressão do Banco de Portugal e defende que comunicar à família Espírito Santo que não tinha idoneidade para continuar à frente do banco foi "um grande acto de afirmação da independência e da capacidade" do regulador.
O governador acrescenta que a alteração da lei que dá mais margem de manobra ao regulador para intervir só foi desencadeada graças à pressão do próprio Banco de Portugal.
Sobre o relatório do BPI, que alertava para a dívida do GES e que foi entregue ao Banco de Portugal em agosto de 2013, Carlos Costa afirma que "foi devidamente tido em conta, embora não acrescentasse nada ao que já sabíamos".
Questionado sobre quando percebeu que havia um problema com o BES, o governador remete a outubro de 2013, na sequência de uma auditoria que mostrava que parte da dívida do banco não estava sediada em Portugal. Mas o momento decisivo só aconteceu nove meses depois, quando o BES apresentou as contas do segundo trimestre de 2014.
Carlos Costa explica que uma semana antes desta apresentação de resultados, o auditor alertou o Banco de Portugal para "situações estranhas que afetavam a solidez do banco" e o governador garante que "não foi senão mão humana que fez com que o BES, de um momento para o outro e surpreendendo todos (incluindo quadros do banco), apresentasse uma perda que jamais poderíamos antecipar". Algo que Carlos Costa diz que está em segredo de justiça e que fez com que acreditasse até ao fim que o BES ia sobreviver - "nada faria supor uma situação destas".
À pergunta sobre mudaria alguma coisa do que fez, o governador responde que se soubesse o que sabe hoje "teria pelo menos uma angústia muito superior".
Sobre o mandato no Banco de Portugal, garante que é para levar até ao fim. "Se não cumprir o meu mandato, não cumpro a minha obrigação de salvaguardar a independência do Banco de Portugal", diz.
Na entrevista, Carlos Costa garante ainda que as ligações com o governo são "normais" e que nunca teve sinais de que pudesse ser despedido. "As relações que tenho com o governo do ponto de vista institucional não me permitem, de forma nenhuma, imaginar uma situação dessas".
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