| País tem 5 agências bancárias por 10 mil habitantes, mas se calhar ainda é muito
25-11-2016 - Luís Reis Ribeiro
Banca nacional tem rede de agências mais forte do que a Grécia, diz Carlos Costa. Para o sindicato é uma ideia "infeliz"
Portugal tem qualquer coisa como 5,4 agências bancárias por cada dez mil habitantes, número que representa um corte de 11% em relação a 2008 (início da crise), mas, ainda assim, o Banco de Portugal (BdP) suspeita que essa redução possa ser insuficiente face à necessidade de aumentar a rendibilidade do setor e de reduzir custos operacionais de "forma estrutural". Parece que há margem adicional para reduzir gastos. A rede de agências em Portugal está mais presente no território quando se compara com o caso da Grécia, exemplifica o BdP.
Ao DN/Dinheiro Vivo, Rui Riso, do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, lamenta essa ideia "infeliz" e diz que, a ser concretizada, será "mais uma machada na economia e no emprego" pois "agudiza a desertificação do Interior do país".
O banco central governado por Carlos Costa apresentou ontem a edição de outono do Relatório de Estabilidade Financeira. Aí reconhece primeiro que durante o período do ajustamento da troika (2011-2014) o sistema bancário português "reduziu a sua utilização de recursos". Mas a rendibilidade continua de rastos (como no resto da Europa, aliás), pelo que é preciso racionalizar mais o negócio tradicional.
Os custos operacionais consomem quase 40% da receita gerada pelos bancos, diz o BdP
Para o BdP, quando se usam "métricas simples de eficiência", a banca parqueada em Portugal surge classificada como "menos eficiente do que muitos sistemas bancários na Europa". Os critérios são o número de balcões (por mil habitantes) e de trabalhadores (em percentagem da população ativa).
"A redução em ambas as métricas foi menor do que na média da União Europeia a 15 países e do que nos vários Estados membros considerados", observa. Embora reconheça o esforço de ajustamento até 2015, o banco central frisa que este "foi menor do que na média da UE 15 e do que nos vários Estados membros considerados". "Note-se que o sistema bancário português, apesar da redução, manteve uma densidade de balcões claramente acima da média europeia, da Grécia e da Irlanda e apenas inferior ao caso espanhol", acrescenta.
"É uma comparação manifestamente infeliz" e "é questionável porque essa ideia é contraproducente em relação à necessidade de desenvolver a economia", atira Rui Riso, que também é deputado do PS. "Portugal não é a Grécia e a economia está melhor do que a grega, talvez isso explique por que razão a densidade de agências é maior cá." Além disso, "há uma ideia errada subjacente a essa análise do BdP". "O facto de dizer que haver menos agências é sinónimo de uma banca mais evoluída e renovada. De uma forma geral, os bancos não alteraram em nada os negócios tradicionais. Estão a fazer o que sempre fizeram, mas com menos pessoas", critica o deputado.
Já para o BdP, há melhorias de eficiência que foram obtidas com o avanço da tecnologia e que é esta dimensão que pode salvar o futuro próximo.

Com taxas de juro muito baixas e com uma perspetiva de que assim continuem durante bastante mais tempo, o banco central frisa que é "indispensável uma reavaliação abrangente dos modelos de negócio e da estrutura de custos das instituições financeiras". E que é preciso investir mais para "manter um apertado controlo interno dos riscos e uma governação adequada".
No caso das agências e dos empregados, também há margem para "melhorar", defende. "É necessário analisar se o fecho de balcões gera poupanças relevantes, especialmente no curto prazo, dado que esta estratégia implica custos para a reposição do espaço comercial e a potencial perda de clientes, o que pode reduzir o valor de um banco como negócio de retalho". Mas conclui que "esta solução pode ser eficaz quando o sistema bancário como um todo reduz a sua rede" porque poderá ter um impacto concorrencial menor.
É o que está a acontecer. Praticamente todos os grupos bancários estão a reduzir pessoal e a fechar balcões. Alguns estão mesmo a ampliar esse tipo de planos para este ano e os próximos. A CGD, o maior banco nacional, é o caso mais saliente. Quer dispensar 2500 pessoas até 2020.
Nas "dispensas de pessoal" o raciocínio do BdP é parecido. Menos pessoas nas agências tem um "efeito positivo e permanente nos rácios de eficiência", embora também signifiquem no curto prazo mais "custos para as entidades e criam obrigações para o Estado".
Em todo o caso, o BdP sugere que, se forem feitos mais downsizings, deve-se garantir "que o bom funcionamento das operações não é posto em causa".
Os custos operacionais, onde estas dimensões das agências e dos empregos estão refletidas, consumiam (em 2015) quase 40% da receita gerada pelos bancos, cerca de cinco mil milhões de euros, diz o estudo.
Segundo a Associação Portuguesa de Bancos, o setor emprega hoje (meados de 2016) 47 mil pessoas, menos 17% do que em 2010. O número de balcões caiu 25%, para 4,7 mil no mesmo período.
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