| Esquema de vistos: Funcionários da Embaixada de Portugal e do Centro de Vistos sob investigação
02-09-2016 - GSF
Há fortes indícios de que funcionários do Centro Comum de Vistos (CCV) e da Embaixada de Portugal estejam envolvidos num suposto esquema de emissão fraudulenta de vistos de entrada em Portugal.
As instalações das duas entidades, na Cidade da Praia, foram alvo recente de buscas, por causa de uma suposta rede de tráfico de pessoas para a União Europeia a operar a partir de Cabo Verde.
A referida rede criminal, conforme foi avançado semanas atrás pela imprensa, está a ser investigada por autoridades portuguesas, com o auxílio da Polícia Judiciária (PJ) cabo-verdiana. Em concreto, um juiz e um procurador da República, acompanhados de inspectores da PJ portuguesa, deslocaram-se a Santiago, onde interrogaram e fizeram buscas domiciliárias a suspeitos residentes em Santa Catarina e na Cidade da Praia. Durante as buscas, vários documentos foram apreendidos no que poderão servir de prova do envolvimento dessas pessoas na referida rede.
As fontes deste Jornal junto da PJ cabo-verdiana confirmaram as buscas e apreensões, sem contudo precisar mais detalhes. Segundo dizem, da sua parte, aquela polícia apenas garantiu a segurança dos investigadores portugueses, tendo em conta que se tratou de uma diligência de Portugal. Entretanto, tentamos ouvir o Ministério Público desse país, mas os nossos e-mails não foram respondidos.
Vistos a qualquer custo
“Neste momento há uma rede que é controlada por pessoas que trabalham dentro do Centro Comum de Vistos, por isso é que há muitas recusas de vistos, mesmo para pessoas com todos os documentos em dia. Mas quem dá a cara são pessoas de fora, são elas que angariam os clientes”, revela uma emigrante à porta do CCV, na cidade da Praia.
“Desesperado, há quem não se importe de pagar centenas de contos para tirar um familiar de Cabo Verde. Na maioria são pessoas do interior da ilha de Santiago”, acrescenta aquela mesma fonte.
Longas filas de espera, demora no atendimento, falta de informações e recusa de vistos, “sem qualquer justificativa”, têm sido os principais constrangimentos dos utentes do CCV, na capital cabo-verdiana. Um quadro que se repete, também, no Mindelo e que tem gerado descontentamento nos cabo-verdianos que recorrem àqueles serviços tanto em São Vicente como em Santiago.
A verdade é que há quem, por não querer passar pelo suplício, ou por não querer correr o risco de levar com uma “nega”, prefira desembolsar centenas de contos para obter o visto, ainda que de forma ilegal. De acordo com o apurado por este jornal, por um visto há quem aceite pagar até 500 mil escudos.
Esta não é, todavia, uma prática nova. No passado alguns grupos chegaram já a ser desmantelados, com funcionários despedidos, mas, passado algum tempo, o esquema volta a reaparecer, mesmo com o reforço nas medidas de segurança e protecção.
“Estou aqui com uma filha menor, é a única que vive ainda em Cabo Verde, e quero levá-la para França, mas não sei se vou conseguir, uma vez que conheço muitos casos semelhantes em que as pessoas não conseguiram”, desabafa uma das nossas fontes diante do CCV.
Esta explica que o seu objectivo é conseguir um visto de férias para Portugal; uma vez em terras lusas, conta viajar com a filha para França, seu destino final. “É a primeira vez que vou tentar. Sei que não será fácil, mas vou arriscar para conseguir o visto de forma legal, antes de ir pagar entre 200 e 500 contos para consegui-lo por debaixo da mesa”, continua.
À porta do CCV, esta reportagem falou ainda com uma jovem de 19 anos, residente na Cidade da Praia. Ela conta que solicitou um visto de férias para França, mas que o pedido foi rejeitado, alegadamente, sem “nenhuma explicação”.
“Não entendo o que se passou. Por isso, quero saber por que razão me foi recusado o visto, quando, pelo que sei, entreguei todos os documentos exigidos. Ao menos quero uma explicação para saber o que não deu certo, para corrigir o que está mal. Alguma coisa não bate certo nestas recusas sem sentido”, diz revoltada.
Silêncio total no CCV
A NAÇÃO tentou ainda ouvir um pronunciamento oficial, tanto do Centro Comum de Vistos como da Embaixada de Portugal, na Cidade da Praia. No primeiro não conseguimos passar da porta. Fomos informados que qualquer assunto do tipo deverá ser tratado por telefone, mas ninguém atendeu o número que nos foi indicado.
Já na Embaixada portuguesa foi-nos dito que a Embaixadora está ausente do País, e que o assunto deverá ser tratado com o responsável consular, João Mendes.
Este, por sua vez, afirmou que só a Embaixadora poderá pronunciar-se sobre esse assunto, mas confirmou as buscas, tanto no CCV como na Embaixada Portuguesa, sem avançar mais informações, até porque, segundo diz, “os investigadores quando cá vêm não revelam muitos detalhes sobre o que vêm fazer”.
Fonte: Jornal a Nação
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