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Draghi: “hoje mostrámos que não estamos com falta de munições”

11-03-2016 - Sérgio Aníbal

Presidente do BCE defende que se não tivesse feito nada, teríamos “uma deflação desastrosa” e diz que entregar dinheiro directamente às pessoas “é um conceito muito interessante”.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE) fez ontem quinta-feira, poucos minutos depois de ter apresentado um pacote de medidas de estímulo que surpreendeu os mercados, uma defesa da capacidade da autoridade monetária para lutar contra a deflação na zona euro, que defende ainda não existir na zona euro graças à intervenção do BCE.A falar na conferência de imprensa que se seguiu à reunião do conselho de governadores do BCE, Mario Draghi explicou as medidas adoptadas e que consistem numa descida de todas as taxas de juro para novos mínimos históricos, o reforço do volume de compras mensais de activos feitos pelo banco central e o lançamento de quatro novos empréstimos de longo prazo aos bancos da zona euro com taxas de juro que podem ser negativas.

Num cenário em que muitos economistas e interveniente do mercado dão sinais de começarem a duvidar da capacidade dos bancos centrais para fazer face à estagnação do crescimento e à ameaça de queda na armadilha da deflação, Mario Draghi decidiu puxar dos galões, defendendo aquilo que já foi feito pelo BCE e garantindo que o banco central mantém a capacidade para lutar.

“A resposta [à acusação de falta de poder dos bancos centrais] foi dada hoje pelas nossas medidas. É uma longa lista de medidas. Hoje mostrámos que não temos falta de munições”, afirmou o presidente do BCE.

Para além disso, garantiu Draghi, as medidas funcionam. “Temos muitos dados que mostram que as medidas resultam numa retoma. A retoma não é espectacular, mas está lá”, disse. E para quem quisesse mais provas, Draghi deixou uma pergunta, que logo a seguir respondeu: “O que é que teria acontecido se nós não tivéssemos feito nada? Uma deflação desastrosa”.

Esta frase pode ter custado a ouvir a um dos mais públicos e próximos opositores da política que tem vindo a ser seguida pelo banco central, o presidente do banco central alemão e membro do conselho de governadores do BCE, Jens Weidmann, que tem criticado fortemente a decisão de comprar dívida pública dos países da zona euro.

Weidmann, que devido ao sistema rotativo de voto em vigor no BCE, não tinha direito a votar nas decisões tomadas nesta reunião, deverá ter sido nas discussões um dos membros a impedir a existência de consenso. Mario Draghi disse aos jornalistas contudo que as decisões foram adoptadas com uma “maioria avassaladora”, garantido também que todos os membros, incluindo Weidmann, têm direito a influenciar a decisão e a discuti-la, independentemente de poderem contar ou não com o direito de voto.

Para os mercados, que ficaram surpreendidos com a dimensão e a quantidade de medidas que foram anunciadas, um dos momentos da conferência de imprensa de Draghi que mereceu mais atenção, foi quando o presidente do BCE deu pistas sobre o que poderia vir a suceder a seguir.

Por um lado, Draghi garantiu “que as taxas de juro se iriam manter baixas por um longo período de tempo e bem além das compras de activos” que o BCE planeia manter pelo menos até Março de 2017.

Por outro lado, o responsável máximo do BCE disse “não esperar que seja necessário voltar a descer taxas”, algo que acabou por ser uma desilusão para os mercados, provocando uma recuperação do euro, que poucos minutos antes tinha caído fortemente a seguir ao anúncio das medidas.

Ainda assim, Draghi fez questão de ressalvar que “os factos podem mudar”. E, para surpresa de muitos, não fechou totalmente a porta, para um qualquer futuro, à possibilidade daquela que é vista como uma das mais radicais políticas de expansionismo monetário: a entrega pelo banco central de dinheiro directamente às pessoas, uma medida também conhecida como “atirar dinheiro de um helicóptero”.

“É um conceito muito interessante que está a ser discutido por académicos”, afirmou Draghi, quando foi questionado por um jornalista sobre a possibilidade de o banco central passar ao lado do sistema financeiro e entregar dinheiro directamente às pessoas. O presidente do BCE afirmou contudo que a ideia “tem complexidades contabilísticas e legais” e que ainda não foi falada no conselho de governadores do BCE.

Fonte: Publico.pt

 

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